Skip to main content

Full text of "O livro de Esopo: fabulario português medieval, publicado conforme a um manuscripto de seculo XV ..."

See other formats


This is a digital copy of a book that was preserved for generations on library shelves before it was carefully scanned by Google as part of a project 
to make the world's books discoverable online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 
to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 
are our gateways to the past, representing a wealth of history, culture and knowledge thafs often difficult to discover. 

Marks, notations and other marginalia present in the original volume will appear In this file - a reminder of this book's long journey from the 
publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessibíe. Public domain books belong to the 
public and we are merety their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prevent abuse by commercial parties, including placing technical restrictions on automated querying. 

We also ask that you: 

+ Make iion-coiviveicial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrain from ciutoiíiaied querying Do not send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machine 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Mainrain ciTíribiitioii The Google "watermark" you see on each file is essential for inforraing people about this project and helping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep ir legal Whatever your use. remember that you are responsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countries. Whether a book is still in copyright varies from countiy to country. and we can't offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search means it can be used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liability can be quite severe. 

About Google Book Search 

Google's mission is to organize the world's Information and to make it universally accessibíe and useful. Google Book Search helps readers 
discover the world's books while helping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full text of this book on the web 



at http: //books .google . com/ 




Esta é uma cópia digita] de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 
pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 
de domínio público é aquele que mmca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expirai^airi. A condição de domínio 
público de um livro pode variar de país para país. Os livros de donnnio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 
inna gTandc riqufiza liistórica, ciútural e de conhecimentos, normalmente; difíceis de serem descobortoa. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 
o livTO passou: do editor à biblioteca, c finalmente até você. 

Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio público e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem axi público, o nós mtíramentc os prestar vamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este rccmso, formiúainos algumas etapas visando evitar- o abnso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 

Pedimos c[ue você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada para o uso individual, e nós solicitamos ciue você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Nãcí envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quais o acesso a uma grande quantidade de tcxt.o for útfl, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" t^ue você vé ern cada um dos arquivos é essencial para informar as pessoas sobre este projeto e ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que ê responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domúúo público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de (Jutros países. A CíJndição dos dii'eitos autorais de um fivro varia de país pai'a país, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre íi jjermissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo e torná-las úteis e acessíveis, A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao mesmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos púbhcos. Você pode 



pesquisar o texto integral deste Hvro na web, em http : //books . google . com/ 




'é'é'é'¥é'é'é'é:é 



#*mCflCCCC^ 







rlfi^I^if * 






• A»A»A*Ji_< 



JUarbarli (tolUflr líbrarp 



^ 



^ ., .^ „ „ 4 . 

m ^ A ^ t|!. <^ 




rnoM TMK ruND ar 



CHARLES MIKOT 



'^'<|''^'^'_^ 






wé*CC^ 



^ 






#:#:#:#:# 



•r».*:»A*!«. *%„■!*«. 3TC.5(''<'. "»r . 



^ 






élé-lélélê^^l^l-^^^l^^éiélél-è-^^J 














é A * é. * 



Ar^'. 



yíié:é 



'íir 



é'é'é 







f 



I ^ # ^ f' *? T -? 
? "^ ^ "^ ^ ^ ^ 'f- 



¥f:C€c# 



€€CCCCC# 



•t: 






'è:#: 



^M M '5^.«' ^*^ ' ' ■ 



^*4!#!#!#!# 









!• é>'^ "3? «i- 'é- 



^'é'é 



é'é'é 






• A t 



* j*> ♦ A. ♦ 






^[■^[é' 



é'é'. 



.%\w 



é'é'. 









é'.é' 






■^'■^'^'^' 



i)u'á^-á^'^i^is;^ 



r: 



U LIVRO DL E8()l>(l 



FABULARIO PORTUGUÊS MEDIEVAL 

rUBUCAlX) COííFORJIE A Vil MANUSCRITO DO. 8ECULO XV 

EXIBTHTK IA 

!'ii!iitirhii:i ('\i \ii\i iir. ui;\SA im: íisiuh 
ijh. j. leite de vasconcellos 

primeiro Conêcrvíidor da Bibtiotheca Sticionat dí Liiboa 
Prtifctwr 4q Curto de Bibliolheçiirto Arehivitía 






LISBOA 



r '.' !'! r ■ 



llMKi 



Ol. 



10.^ . S" 






o,C^ 



jSr. ^Ifred .Mvrel^S^atio 



Douto Professor de Phílologia Românica 
na Escola de Estudos Superiores de Paris e no Collegio de frança 



'JJtdicu oít ÍUitaíín 






ADVERTÊNCIA PUELIMINAR 



Este trabalho começou, como se diz no frontispício, a ser 
publicado no vol. ttii da Reviíta Lusitana, fascículo 2.", onde 
occupa as pp. !)9-151, e ncabou de o ser no vol. ix, fascí- 
culo 1.", onde occupa as pp. 1-109. 

De ter cada um dos fascículos vindo a lume em sua tv- 
pographia, um no Porto, o outro em Lisboa, resultou o apre- 
sentar a respectiva separata dois aspectos typographicos, 
quanto ao papel e quanto á impressão. 

Lisboa, Marí-o de 190G. 

.]. L. DE V. 



:>•'•-', ''■' ' 



lAMlLAUlU iNUlTUUlÊS 



Km I!)u0 tive a fuliciílailu de encontrar na Uil)liutlie^'.a Palatina 
{IlulbiWiutUcUi de \iuniia dWiistria iiiii livrn manníKrítn, cm portu- 
ífues, \\v\(i tem nw res|fe»'tivo Catalogo t-sta i»an:ai;ão. «3270* IMiiloI. 
itil» A Ictlra roucurda <:riiii a Ac iIo<:ii mentos iiortiigiicsca datados 
ilu século XV ; k boa e uoifomio. O titulo do Urro diz o soguittto, em 
lettra multo mais moderna qne a do corpo da o1>ra: Fabulne A«so[n m 
iiiii/iut Liigitavi. 

O livro c8tA eswito em iiajMjl, com margcus. C-ousta de 4h folhas, 
iiumurailaa luodcrnamcatc at^ -tC, {Marque a numora^-ào da» rjlUas ^íS 
o 40 está repetida. O verso da follia -tti osttí om branco. Por isso o 
iiunicru total do iiagina» escritas é du U5. Ma paginas quo tum 29 
linliu!); outras leni mentis. .Altura ilaii follius: i>",:!lõ; largura: U*,l4i>- 
Aitura lia parte escríts, i|uauJu t^ada |iairiiia tem o iiiaídr uumcru du 
linhas: >t"'.14it « (i'".U6; largura: ii"'.lyó. A tiuta é desmaiada, iiiit 
tautu amarella. Varias fullias catão dctorioradas pela trâi;a o uuiidadu, 
sobrutudu as de n." 25. 31-r. :ia, 3lí, 11-r e -liir, onde ha falhaa du 
[•alavras. i.liitras tem líâlragos mcilureâ. 

Na ll Ir lia uma illiistrai;no ã pennu, e lia u ti Ira uii li 3'V. Pelu 
niei<> du livi'L> ba varias Cíit>a<;us oui branco (>ara couteroui outras íllua* 
tra(;i)Ca que não clici^araiu a ser feitas. Cada capitulo tem no princí- 
|iio uiii espa<;o cm branco, destinado a ri>:el)cr uma letira capitular 
floreada, qm; só rara vez chegou a escrever se. 

O vultime fui encadernado em pcrgumiohu branco; tanto na 
parto anterior como oa exterior vé se ao centro, por fora, o bra.>íiÍo 
da Áustria. Na parto anterior, om cima, vècot-sc as iaiciaeti da J3ibli()> 
thcca do Vicnna, e cm baixo as de um antigo bibliothecario o a data 
da cacadcru«i;ão.. — tudo disposto assim: 



K. A. B. C. V. 

líratio da Ai»lriã 

i; G. L. B. V. S. B hi 



(i 



FABCI.AK10 FOETCOOK» 



Vanti> o lirasão iwtuo as Icttra» o a data são Juirados. As inieíaCH 

xii|»L'rioris( HÍííciilii'aiii : Kf'i AtnifnMtv.ííitM) iifihlioOifiO CfíUvircat 

\'ttHihfinin'H'-i/ '. As ÍIiIlTÍOIX-S: tltvntiilw/ /,ííAri7 lí(artii ' Vttíttí 
J^ftttnii tif (l'holk'i>frf(i'i, t*íini a ú&Xa de ITS.i — Altura da t'Si\\A: 
«•".SJí; largura: T.HrtO; laiíçiira da luiiibada: ti*",a2<». Nh luiiiliada 
mi))urBiii*si' diittô tiras de |itt^i.-l cuoarnadu, uma su|icriur â uittra, iiuu 
dfjcom rcsiicctivanicnto: 



FAlí. 

MNU. 
I.VSIT. 



COL». MS. 



Como a titulu o mustra, o lívru i'nti!tU de fabulas uni portuguê-Sj 
cIlaK todavia uiio Jião lraduci;f>cs de ICso|io, são aiiQna.t iio gosto eso- 
{lianu. CliBiuo ))nivistínaiiiciitc ao livro Kadulariu PuaTi úvkii. As fa- 
bulaa são eiu Quuierú de ti3, ou, ao coutarmos cumo uma uuica as de 
n.* xLix o L, VAU uuniero de úi. 



Xa trau!!crÍ(;ào sígu sempre o m»., excetu no scgniiito: cmiirú};*) 
Icttra maiúscula inicial nos nomes próprios, c depois de ponto final; 
Kiilistituo o s ionizo, ou,/' pnr s: aubslituo por rr um sinal que no 
ms. roprcseuta r forte {qiiasi sempre ínielal) *; escrevo /. ij. por t, ij 
acconttiados; / por J: 'j por ij pontuado-, separo as palavras proeli* 
lii',as. «mando i.pi.r ex , a coujunf^âo <■, a preposií;ãii *» o ih-, o ar- 
tigo dcriuido singular, ctc) vem unidas à palavra principal: se- 
paro por tracto de nnião. como hoje se faz, as enclídcas que no ins. 
vem Hiiiilas à palavra antecedente (esorevo, por ex., tuntfUMn *»<-* 
por ^^»■^írt'f'l»s.^<'J.■ uso de apostropho para lndi<:ar a omissiio que 
na pronuncia se fa/Ja du certas vogacs (pur cx. escrevo ili'o por 
ítio): declaro a» abreviaturas, rci^ulandoine pela maneira ordiná- 
ria coinn as mesmas palavras cstào noiUros passos, qtiundu escritas 
|ior Inteiro *; separo os j;§; noto por travessões oa dialogo»; pon- 



' VindiAona i\ eomo te •uhe. o oonui da <.-i<l«ile aiilífpi a <pic tioje eorrcs- 
|K)tide \ivuii)), e |H>r Íbiio a nomi-- itiIoplHiio |Mi-a «!»Cii >|iiimi)i> ao eacn^vc cm liiliin. 



'mIIcidAo Frfihfrr: frei ilibei". 
vetm D Isi signil Hl- 



s iJbrr batv, tJtuiu nobiliiirío, abníiO',- 
Uerr 'hnro-. 

* Pitçii win bcttitiiçAo eb\n ■nudniiçM, porqtic ftlgtiiiiiiâ v^tm 
lenw coui rr HO inHutucnto. Codin. tniitlMm, uin vex uc rr, adoptiir r. 

* A »l)ro viatura nh» \'»r ifhtmt uii nrm \ur» v «isivniKlicn, e pur iuu di:i- 
lu-a. Tnmlwm hoíc iid(>|if untos eisttfinaticmucuU' cvrtiiB ubrcríaturu, iiiic iiiincii 
(IttalAZoiíion, ]ior vn. : ^W Es.*<, > [).■, «Fr.* ti outrue. No me. iiiíu bc adapta porm 
•I ealc respeito rcgr» cou«tiui(e. C>>nvOin iiolwr o avgaiutv No ms. cntonlru- 



tuo ^ o acceatuo moderadamento '. Com rolação is dbs&os, obsor* 
va-se DO ms. que estas estuo representadas por três maneiras: por 
m, por 11 o por til. O rn o o n alternaiu íaditfurcntcmGtito no corpo 
da palavra <e»n^a, omde, homrra. sseuhiíimttí, paatncadut, (ii/ícktíW, 
oias o m é tnnito mais frequente que o n: nu Hm de palavra raras 
vezes se ent^ontra «, O til asa-se principalmCDto no fim do lính», oa 
próximo do fím, para abreviar a palavra, e esta não ultrapa^^sur a 
margem; também nas mesmas condições se osa ás vc/.ea n. Ha porém 
casos cm que o tjl se usa sem regra: con-erO, mudo, longe do fiui do 
linlia. E' lambem frequente ní, my com til i—mitu) q tpo com til 
(atempo). Oh ditongos oti dígrapbos são qiiasi sempre notados com 
til: homh.", rãas, cor(i',voe>', hm, htia. Pela minha parle, faço a res- 
peito das nasacjí o .«cgiiinte: substituo n til por m, quando cu vir 
que elle representa abreviatura; dcixo-o nos casos ent que è evídcnto 
qoe eUo se adota sistematicamente (dilongos. ctc.) '; conservo sem- 
pre o Tl, mesmo quando ellç está ro fim do linha. ^Cnmo no ma. se 
Dsa r, mesmo antes de e c t. restituo & cediltia quando elta faltar, 
pois vé se que falta por enjfano. — Em todos os outros casos em que 
eu me afastar do original, índica-lo-hei eoi noia. Ua accrcscontamcn- 
tos, incluindo os títulos do prologo o das fabulas, serão postos entre 
colchetes. 



SCfníiãameoto ao texto apresentarei um vocabulário, farei algti- 
mas coDSJderat^õeâ linf^rniaticas, accresceo tarei umas paginas com ao- 
notaç5es Ás fabulas c nm estudo littersrio d'e8ta8. 

Como reservo para o vocabulário a e^Epllcação das expressões 
que necessitarem d'clla, sô raro accrcsccntarci ao texto notas que não 
sejam meramente paleog^rapliicas ou pboneticas. 

A prcíioute edição, apesar de critica, é pois quasi diplomática. O 



flfl fra|aeiitein«nle dCco, /Zco, dccor, por tttlo, fito, dZtor elp-, latinismoa ortho- 
gntpbkoB tradicion»'» por dicto (ilic tus), /«^vto (r»etu8)| doetor (doctor); 
ttmnMrevc mias palavra», e outrns aiialcgas, com i*!. Qiiititilo eítJver por eitcnao 
avtor, douHor, duutor, transcrevo atsiiu tiieuno. N2o li» duvida qae na pronún- 
cia o e &3o >e fazia ouvtr — No tat. D»eill*m potlo, cotn o. c priia, com e, «Ic, 
oacillsçilo <in<! corre* [«índia, cciiio hojf, á proDtiiHria ; i;oino inuiln» vozet n« eu- 
COulra «orito pilo, pita ele, caai il cortadcia, i' iinpoutvt^l aalier av i|Ui!itn «tcre> 
veu <]ueria ri)prriH:iil«r «ou o; para a IrauKriçâo regalo-uie p«k fórtna uiaia 
prnxima dViso logar, i|uatido eacrils por estvtuo. — Outrwa particnlEriílailn riu 
aiiinalnda* nos wiib lugare*. 

■ No uiA. o pontn Sonl cetit rrcQU(;iiti?nieiite indicado por doía pvquenoa 
traçoi verlicaca e pantlItrlOM ("i. Elw aiuua ouUoi BtaMva de púiituaçCo: por «leiu- 
pio um ponto (.) «erve de virgula áa vczea. 

> Com ulA* altOTavv«*, i)ue vn nada modifícan a prODQncia, 
tomo II t«2tn mnia fácil dv ler, 

' No tnt- o lil niimiigv guralioeitte maia de uma Itltra. Quando aa Itltra* 
*Ko r«ga«i, nio ef pãde tuber a qiul dVIlai propriamnntfi pfirtcnee ; comtado n- 
crevo rãa, hSt, anaçõon etc., com o til ua priíDeira. 




(Pi. i-r). ' [Sjegnmdo diz o Liuro ãa uida e dos ccstumes dos philoso- 
fo8, C0DU-8S0 que no tempo iÍ'oIl-rrey Ciro, rrey de Pérsia, esto au- 
tor viuia o guall sse chama Exopo Adelpbo, o foy ittpíÍIIo da cidade 
de Âmtiocliia e foy ajmda po«ta famosisimo e de gramdo cmgcubo, o 



^ Quando estive em Vientis <J'Au«tría em IMO, copiei algumui fttbuliii di* 
recUtnente do m»., v fii um iiidioi- dVIlns. Como porem « copia me levara muito 
tcBtpo, obtive puni r líibtiotheen NrcíoiikI dti Ueboa uma ptiotograpbia de toda a 
obra, « por ella uie r«Ku'<> a^oia. Kfttn pholograpliia, que nrou cxtellente, tirou-a 
o 8r. E. Schaltera (Wicu. Il8uptílr»sre, or. ff6). por intonnvdio do Sr. Dr. B. 
Ikiir, illuMtrv funmunnriu dw IlililiotlifCM PaUtiuM. O t«xlo que bcij« publico foi 
copiado da pbotrigTaphin pela Sr. Halbino Tlih4'iro. 3 ' conservador <ta Torre do Tom- 
bo, « collacloiiHdo coui olla pelo Sr. Tedro d' Azevedo, l.» coasetviuior do mesmo 
eetabeleciíiieiilo, e por mim. 

* Na margem esquerda lé-ec em teltra moderna: hU: PhU: 30t | fhhula 
jSCiopi I tn Litigtiâ I.U' I liianá | . Cyro Itfj/ de Vtriia. E mais a baixo: TVxifwIa- 
ftir 1 1 Õreco in \ Uitin. \ . 



rABULARIO rORTIIfiOÊS 



quall foz eattí liuro um grcguo, o úeima foy trelladado de g^gno om 
latino do búu ssabedor cbaoiado Uromulú. AquostoKxopo no primeiro 
anno do prcdícto rrey Ciro sse comta ijao fossG morto do maa morte 
per em veja. 

Kstc Kxopo em aqucste sseu litiro põem ' mujUs estorias íTromo- 
aas d'aDÍmaIias, de homccs e de aues c de outras consas, scgtimdo 
em cllo vcrcdoH, polias quaaes ell nus ctnsiuaua como os liomSes do 
rattmdo deuem de viucr virtaosamemte c guardar-sae áoa malea. 

K asãcmelha eeto sseu ^uro a liQu orto ao quall estam tlorea 
6 ' * fíraytos: pellas frores sse emtemdom as estorí&s, e pollo fruyto sse ' [FI-1*t.] 
emtende a scnitença da cstoria; e conivida os Uumcos e amuesia-oa qne 
Tenham a colher das frores c do fruytu \ Ainda compara este saca 
liuro * aa noz, que ha dura easca, c haos ^ pioliúocs, que demtro teem 
ascomdído o meolo que be ssaborido: assy este liuro tem em ssy 
escondido muytaa notauccii scmtcnças. 

I. 19 (Alia e n pcdrik precloi»] 

[C]omta-flse que húa vez hún guallo, amdamdo em húa cauala- 
rica escaruando por achar algúa cousa pêra comer, ' achou húa muy 
frcmosa pedra preciosa; e mara\illiou sse e disse: 

— Õ gema preciosa e nobilisima, a quall jazes em aqueste vill 
luguar: tu uom fazes a mym nbuu ^ prouoyto; mais sse te a ty achasse 
outra perssoa * qne conhoi;esse o teu nobre esplamdor, tu sserias 
posta em aigúu loguar artetícioso e nobre. Çerto tu nom ea compri- 
doyra a mym, nem eu a ty *. Eu swria mays ledo sse achasse bua 
pouca do bisca porá comer, que achar ty. 



Per aquesta bestoria rreprchenidc este auctor os ssamdeos o ho> 
mSes de pouco emtendcr, os quaaes nom curam nem querem curar 
por a !i<;icnt;)a quamdo podem; c quanido achan algúa cousa que lho 
aseria proueytosa, iia dfspre'vãm e m»m curam d'ella, c ao depois 
ase rrepemdem: assy que pollo gualo sae emtcndc o ssandcu, e i^ella 
I>edra preciosa " sse emteudo a graça da ssapiemçia, a quall nom he 
coahoçida dos samdcos, mais be conboçida dos sabedores. 



[FI.2.r.J 



s Itf(>ete-*u I! lio oouieço dit pigifiH. 

9 A «éU iiiiKg^m alludtí O dt^iienho (A pennft) no cotucfo do prologo, 

* S4>gti« BB i{ ri sendo. 

A Kr>lc)idM-M; "ttiMB, depviid«iiU( àv compara. 

* rttrgii«^ DD um t. fjue pireee eitiir liscado. De fkoto, nlo f«i •eatída. 
) L«ia-Be iirm hiíu uu rii-A.*M, 

* No m*. ;m«cxi, com |t curtudo nu prnia. 

■ Sobre d /y vâ an utn lil lum Imito túmido). Foi euguno por influencia do 
mfm pTKVtníruln. ialo í niy (-um lil. Lo)jo « b«ixo o ini. tKin noiíiialiiiKute Ijf. 

^* No lOB. j/çioia. Acium porém eati preçioêa. 



•[Pt- Sr.] 



U. {• l*li« e o e«rdciro] 

[C]omta-8se qa& o lobo bebia bua rez em liOti rribeyro, da parte 
de çínia. o o c^^rdeyro bebia em aquell inedês rribeiro, da {larte de 
fumào. Disse o lobo ao cordeyro: 

— Porqne me laxas a au^aa o dapnas este rribeyro? 
E o cordeyro rrespomdoo e disse Lomildosamcmte: 

— Kii nom te fa>;o eoijaria, nem luxo o rrto, porque a augua 
corre comira mym, e a angna be muy clara; e pêro ase a íiqÍscsc 
aboluor, iiom poderia. 

Outra Tcz o llobo braada forte c diz: 

— Nom t« auunda qnc lu me fazes cmjuria c dapno, e ajmda 
me ameaças? 

K o eurdcyro outra vez Immíldosamcmte rrcspoodeo: 

— Noni te ameaço, ' maia cu me escuso com boa rraxom. 
£ o lobo rcspouidco uiitra vez: 

— Ajmda me «nieaçaa? Já ssemclbauyll * jmjuria me fczcst^i tu 
O t€n padre, f^som já bem sscis meses. 

O cordejTo diase; 

— Ó ladrom, eu nom cy tanto tempo! 
¥* o liobo jroso dlsae; 

— Oo maao rrapaz, ajmda onsaa de falar? 
E foy-sao a cU c matou-ho e comê'-o '. 



Em aquesta bcstoria rroprehomdo este autor os ssoberbosos e oa 
arrogamtOK homêcs do mumdo. oa quaacs comtra os bomildosoa jgno- 
çeuites ase esforçam de buKCdr cajum comtra rra/.om, por que sscm 
rrazom [ns] fiossam oflemdcr e fAzcr-lbe maas obras. B i^tllu lobo sse 
emtend^mj * 03 atrogtiantes e maai*» boiíiées, o pollo cordeyro os ho- 
mildosoa o íguoçemlvs. K como est« lubo mata eatc cordeyro sseui 
rrazom, assy ho maao liomeui faz mall ao boo ssem lU'o merecer. 

111. (O rat», a rã e o mlnhot*] 

• [PI. 8 r.] • [C]onita-sse que bua rrato, amdando asen caminho porá emde- 
rençar b»ous ncguoçios, aco arriba de bua augiia, a quall ell nom podia 
passar. E estando a$$y cuydoso arriba da augua, veo a ell húa rrãa 
e disse-lbe : 

— Sse to pruuuor, ea te ajudarcy a passar esta augna. 



I No tns. êrtafilutffl; Di ính. zsxiv por esUiiisci («iauyU, 

■ =coiDeo-o. No 019. cvmto I'oilÍH ttinibvin transcrever-sc comeo-', e wpw* 

lbaat«inc»t« «t paluvr.m hhhIi^'»* (jiir appikrcrfin ndritiiie- 

' KiHA [mlKviii VQ tfitv vtfU) «m fitn de linliM, e pcrr isto, et^pinHn a ntgra 

dai tiHsaea (vid. ] iilroducvâoj, devi» tor c. ma» o til aio it p«rL-cbr ; kò adoNtite, 

e cm cima, bn am ponto. 



fJtBULAiUO POBTDOnfiS 



11 



R o Trato rrcspomdoo quo lho {>razia G qae IVo a?railci;ÍH muy- 
to. E a rrâa fazia esto per» cinijaiiar o rrato, e disse-lhe: 

— Aniiguu, legcmos ' lifta linha no pcc ton c meu, o ssubo cm 
cima de roym. 

R o trato fexo o assy. K depois que forom ao nico da angua, a 
rrãa disse ao rratâ: 

— Dom velbaco, aqui luorrcredes maa morte. 

K a rrâa liraua fiera fuudo, pcra afnguri-lo de so a aueua ; e bo 
trato tiraua ytr& çíiua. K estamdo cui esta batalba, vi'-o8 * buu uii* 
nboto qne andaim voamdo pcllo aar, c toinou-os com as bunbas o 
coinè'o8 ' ambos. 



Em aquesta liestoria eitte doutor rrcprobcmde os bomccs. os 
quacs com boas palauras e doçe-s, de querer íar^r proll c liomrra a 
sseu próximo. <CfL> * emganosamentc ]be<C8!> ^ fazem maas obras, 
porque ali dl/.em cum as liniguoas c ali tcem nos sscus CHFa(;õocfl. 

E esto ssQ demijstra \*çv a rrâa. a qtiall dizia que queria passar 
o rraio. e tijolia nu 8seu coraçnm prepofiito de bo afoguar e matar, 
como dicto bc em cima <*. 



n^^ 



' heiu-BK Uçtiemoi. 

t ^vfo-oi. N'o ms. vioÊ, 

' ^coineo-OH. No uii. cvmtvi. 

' (i e chtÁ de iiiaÍR, po«toi)U4 ua« trxioii nnligoB o uso de e. nilo s^js teuipre 
rígOroK). Foi atjui talves eBcrilo jmr ínfliíeiiciíi do « eegitinte. 

" FMperkr-*<->hÍM Ifir, por s« reffrir x próximo; niRt no wpirílo du «nctor 
ou no do copiem ii Íilt-iu de Aomm, qtic 8pp«n!c« no comfiço do period», iilternou 
com R (Ib pn^iimo, e o lAe loi icfi-rido « vil». 

* No deretdio ú pcnnii, illiiílrutivo da fnbulH i]uh aralm do M lraniercv«r, 
lÊ-M adeaute db bico da ftv« : tjryo vioviovio, o i|ue traduz « To> d'ella. 



lã 



FiSCLAUO POKTDClt&S 



IV. (O rân que citm o carneira cm juls»; 



'[FI.3-T.I * [Cjomta-ssc qao foy búa vez grãm demamda amtre o cato e 
o caroeyro. 

E o cam fez citar o caraeyro por diamte o corregedor, 6 deman- 
dou ]lio quo lhe desse certo trijguo que lhe emprestara; e o carneyro, 
quo d*aqnelo nom ssabia parte, neg:uou lb'o * com rrazom, e defen- 
dia-sse o milhor que podia, dizomdo qiie Itie nom prestara consa. O 
cam malicioso * presscmtou testemunhas ' per diante o dlcto corre- 
gedor, as quaacs eram falsas o do maa faina, -s- o nualiot^, a abiiter 
e a lobo. As qnaaes teatcmunhas depois qne forom examinadas, visto 
ho dizer delias, fi»y dada a scniteiiça comtra ho carneyro, e fwy-lbe 
mandado quo paguaase a dieta ssoma do trijguo ao dicto cam. 

K o c&rnoyrci, voeudu que noin avia per bu paguar. niandaron- 
Ihe que vcmdessc a llãa, li^ as$y n fez; e o frio era grande, o i>or 
mingua da lãa o carneyro morrco de frio. Depois que murreo, veo lio 

[Fi. 4 r.] cam com as testem u'n lias e comerom ho caraeyro. 



Em esta bestoria estô doutor rreprebemde os maaos, os quaaes 
pronam as mintiras com falsas t^^stomunlias * c afoj^uam a verdade; 
e rrcproliomde ajnda o juiz, o quall nom he auisado de coaboçer as 
falsas testemunhas \ e dá ssua semtcnça falsamente. K palio " cam 
sse entemdc lio maao homem, o pollo '' carneyro ho boom e homil- 
doeo. 



V. [O CÃO e m iiosta de rarnel 



[Cjomtasse que bua vez húu cam furtou bua posta de carne; e 
fagindo com ela passaua per bua pomtc, o memtrea quo passaua, 
guardou na augaa, o vio a ssoombra da carne que leuaua na boca, a 



1 Ko ms. neyuotítQ. 1 umbem podiíi eDt«ailer-se ntyou-4h'o ; «f. rugotilAo Dou- 
tro [MtML 

* No uoLmaiiçÕio. O til repreeentii o í. 

> A fi No mB., ori tt coai tiJ (cfr. lut. ttstia, pt. (eat«a}, ors por cxteit- 
•o, como esorevú. . 

' ■ No ma. pUo, com U cortados. 



FABtnjRlO PORTUGCIÍS 



Kl 



(inal ssoombrft parecia a cite qae era duas ^ tamt« carne qoe aqneDa 
íjnc ' olle Icnaiia na bnira. E veomilo a ssnombra. deytoiísso na * «nffaa, 
cujrdamdo tomar a outra carne, c abrin a buca; c abrimdo a boca pêra 
tomar a ssooinbra que lhe sscmclliana carne, cayo-ltic a carne qac 
leuaua na boca: c assy perdão liúa e a outra. 



[PL4-T.1 



Eoi aquesta hestoría bo douctor rrepreliemde ha * aqaelles que 
Icixam as cousas çcrtaa pellas jroçcrtas, e querem teixar as ssuas 
eooaas por cobijç& de cobrar as alheas, assy como fez e«t6 cam, que 
leíxou perder a carne que leuaua na boca, por cobrar a sscooibra que 
Ibe parecia mayor. 



VI. [O IrÃo 4iie v*i eon «utroii «nlinaca m «^CA] 

[G]onita-88e qae bua vez estas antmalias prcdictas ' fezerom to- . 
das companhia com esta comdiçorn: que todas jnmtamente fossem aa 
caça, o quaoito íUUascm, assy a gramdc como a pequena ^ partiscm 
ifcoalmcníe cm tal) cruysa, que cada bCiu ouucsse ssua dcrejta '^ part«. 
K forom a ssua caça, * e a poucos passos o liom achou bQu çoruo, e * [Ft& t.] 
como o rio, logno o enicalçuu, e flthouho o fez dcUe quatro partes, 
e disso: 

— Ea mamdo que ssc faça d'este çeruo asej: ca ssoo ^ Uerdeyro 
da primcyra parte, porque cu douo de ssccr prymeyramentti homr- 
rado; a ssef!:umda parte deuo de aaer, porqoe ho ' ãlhcy; a terceira 
parto deuo d' ancr, porque litliey mayor afam ' cm ho tomar qao 
nhúu de uós; a quarta parte qacro pcra mym,— e ssc algúu de nós he- 
que m'ã queyra tolher, nom será. meu amiguo. 

K per csu guisa o leom ouue todo ho çetuo, e sseus parceiros 
nom ouuorom nhõa cousa. 



* Isto é : dtuu vete» tanta eartir.. 

* Dapoit d« qHç está riscada ■ palavra pottta. 

* =0. Podi» IrHDBcrcver-EU Inmbpm : haatpiella. 

* O A. empr«^ft n «xpri'iaio prfdirtae, porque iio come^ da ^bula devia 
haver am titulo com uuik iMiUmpa repreDcuUiíva da sc^lo; e Bff«otivaineDtc no 
ma. licwi eips^o i?iu brauco para itao. (At|ut m estaiiipa dovia ir ao oomefo t uÍo 
no fím. coma nb fubuts iii; pois no fim não hu vapavo)- 

A t?ab«ntvnd(i-»u m^, p«Uvni dita pnuco autea. 

* No nis. djui^ com r sobre o>,' oa fab. lx por exteaeo dereyUt. 
T Talvee por atth; cf noom na fab, Xf. « «om (ttom) ooutnu. 

* Bcfere-se ao cerra 

* No ma. lê ae molbor a/om (aio afan) quB afam. Na fab. zu <^fan b úffam. 



Em atiQCsta bcstoría asto douctor rrcprefactndc os homécs peqae* 
□os e de pequena comdiçom qac tomam companliia i;om »s ^amdee 
e poderosos, — o ' porque ho bomem poderoso pôde fazer força ao ho- 
mem do pcqnena comdíçom, e nom Ibe podem comtradizer: como fez o 
Icom a sseas companbeyros. 



VII, [O eABMmrato do ladrAo e o do sol] 



'[ri,6-¥.i • [F]oy bua vez buu ladrom, o qa}D-sBe casar com bua molber. 
o de foclo * casou se com ella. K oa vczinbos c amiguos fczcrom ^râmde 
festa. Húu homem ssabedor, o quall moraua em aqnella rrua, chamon 
08 vcziufaos o disse I lie este eiuxemjilo: 

— Húa vez o ssoll quis tomar molhar, e a terra queixoo-sse 
multo an dcns Jouis, dixerado Ifao qtie, sso o ssol tomasso oatra mo- 
Iher, faria outros tílíios, que sseriam ssolles e dariam tamta qneen- 
tora de ssy, que nhúa criatura nooi poderia víucr cm olla. E assy 
fará este ladrom: fará iilbos. c farà-o& ladrOoes assy como ssy, K ora 
teemos em cllo bun maao vczinho, o depois torremos macios. 



Em aquesta cstoria este donctor * nos demo.<ttra que nos nom 
deuemos d^alegrar da bem anemturamça dos maaos homécs. os qnaacs 
sscmpro Tazom mull; e nunca os deuemos de ajudar, porque quanto 
maia ajuda c bem llio fazemos, mais poderio Ibc damos do mall obrar: 
como fez obUí ladrom, que sse fazia poderoso de filhos pêra poder 
mayto mais furtar. 



VUI. [O lobo e A «TU»] 

' [Fl. e-r.] • [C]omta-8sc que bua vez húa lobo avia * gramde fame, e achon 
carniija que auia iiiuytos ossos. E comendo com gramde prwsa da 
dieta i-arniça, atreu(is.soH-seIbe buu osso na guarguamta, pella quall 
rrazom o llobo estaua em pomto de morte; c amdana bu-scamdo phi- 
BÍeo que lho tirasse o osso, e achou a g:rua e rrogon-lhe aficadamento 



• lato A: e iito. 

' No aií.fZco. Creio que devu tmiiscrevwr-M /fcío, « nio/ucJo. 

s No ta*, liòuctor. Apcur do u e do e, bii AÍnd» til (de certo por eqmvo«o). 

* ABsim ae li^ no mi. por auia. Ha outnia irregut&ridftdee samlhaiites. 



VABIIUBIQ POSTDeDS* 



U 



qae lhe tírasfo o dicto osso, proractemdo lhe qne, sse ho déue ssaão, 
qae lhe fana miiyto algiio. 

R a gma, onvimdo sscn prometimento, promcteo de lhe dar ssatide 
e dÍ8se: 

— Abre a boca. 

E o Uobo abrio a boca, e a grua Ibe tirou o ossn qao trazia na 
goargauita tranessado. Depois a ^iia lhe rrogou qae lhe désso o qne 
lho iironictera; e ho ' ' lobo Ibe disse: 

— Eu fize a (y mayor graça que tu fezesto a mym, porque ca dey 
a rida a ty, ca cu te poderá talhar bo coUo com os meus demtcs 
guando tn meteste a cabeia e o teu collo na minha boca, e nom. Ce 
quyfl matar: iiscja descomtamciito do scruiço que tu me fczeste. 

K per esta guysa ficou emguaoada a grua. 



Per cata heatoria ho dooctor nos demostra que nós onm dcuemott 
d'aiudar os maaos ' homvB '. porque ns maaos nnm agradecem nem 
ssora conboçcmtos do bom serui^o i^ue lhe outrem faz, mais miiylas 
vezes dam maao grado a quem lho faz bom soriúi^o. Xo omxcfflplo * diz 
qne ha ^ cmgratidõoe sséca a fointe da piedade. 



in.6-r.J 



IX (A radelin quo pcdltt « casm m oatm] 

• [Clomta-sse que hõa eadella prenhe, queremdn parir o nom 
avemdo casa, disse a outra cadcUa, que era mnyto «sua amigua, a 
quall tijnha hfia fremosa easa; 

— Rrogo-tc, amigua, que me emprestes a tua casa ataa que cu 
p^yra meus fi[lbo.s] ". 

A cadella rrcspomdeo qne lh'a queria emprestar de boamente. K 
lenou baa ' dieta radolla prenhe pcra ssaa casa, e leixon-lhc a casa 
ataa que parisse. 

Esta cadella prenhe pario o fez esons filhos. E d^hi a hún certo 
tempo tornou a luidella cuja era a casa, e rrogou aa outra cadella que 
lhe desembargasse ssua casa. K a radella muyto birosa ssayo fora 
com sseus lilLos; ' compeçarom a dizer uiuytas maas palauras e mor- 
der todos na cadolla, dizcmdo: 

— Falsa rritialda, nom ssabcmos que dizes, ca esta casa be nossa. 



[Fl. T-r.J 



Ka 1.* linha du fl. 6 v. repete-te: e o. 

No IDH. mãaoê. 

No ma. homét por kamétã. A palavra eilA era 6in d« Uoiw. 

No luB. rjc° (pur ãf), perto da fim d» linba. 

«j a (art)f^>). 

O que poiítin entre colcltntct atk detido no DUiutumto. 

= aa (prepofitjlu e artigo). 

t&qul Mu talvee e. 1'ot compeçarom o mê. tein comptcarotn. 



16 



PABULARIO PORTCeiTES 



E vecmdo a cadella que sse nom piidia dcfomdcr da madre c dos 
Alhos, fugto o lefxou-lbe a casa. 



Km aqucsU hcatoría ho dooctor nos dá emsinainento e diz qoe 
DÕ8 nnni dcucmos creer aqudles qac nos qaorcm ctnguaiiar com fal- 
sas e doces palauras. Ca maytas vozes acooitei^e que muytos bomcGS 
DO mando ssom emgaanados com omgnanos de palanras doçcs. K esto 
ase entemde d'aquelcs que bua palaura dizem pella buca, e oatra teem 
no coraçom *. 



X. [O vIllAo qur recolhe a «erpentel 

(PI. 7-v.] " [CJomta-sse qae no tempo do jmuorno húa sserpemto muy fro- 
mosa jazia arriba dbua anga corremte. e jazia tamto fria com o rre- 
rclado, qno nom ssabia de ss; parte. E bún villãao, passamdo por o 
dicto rribeyro. vio a dí<:ta serpente mayto fremosa com mnjttfl diner* 
sas colores, o onne doo d'clla, porque ha tia assy morta de frio, e 
touiou-ba G nieteo ba no sco. K lenouba a ssua casa, e mandou fazer 
nmy gramde fogno, o tirou ba scrpemto do sco c posse ba açerqua 
d'eUe, e aqueemtaiia-a o milbor que elle podia; e quando a serpcmte 
foy bem queerate, vio-ssc poderosa e leuamtou sso em pee comtra bo 
viiiãao. deytamdo comtra elle pe(;ouUa [»ella boca, e queria'bo mor- 
der. K o villnão, vcemd» esto, te?, quanto pode ataa que a lam^ou 
fors de casa com gram t[r]abalÍio ^ 



[Fl.a-r] ' Em aquesta entoria o doctor nos cmsina que nom dcucmos aju* 

dar os maaos * bomccs qnamdo os voemos cm algúus príjgos S por- 
que, ssc algfiu bem lhe fazemo», ssemprc d*ellcs aneremos maaoe me- 
recimentos, como fez esta coobra, que deu maao gaalardom Ãquol ' 
que a liuron do príjgo ^ da morte. 



XI. [O anno e o pereo] 

[C]omta-Bsc que bua vez búu asno encontrou com húa porco moa- 
tSs, e ssaudamdo-o disse com boo * cora^om: 



No mt. eorawm. 

No ma. qría. 

"Ho nu. taòalho, Bem einal algnin de abrerUturs. 

No iii«. m&ao». 

No ou- pijgot cooi r tobre o p. Por extenso prifgUM na fkb. zlti. 

No ms. aquelt (e^ aaqneUj. 

No oia. pijgo, com r sobre o p. Cfr. ooU 9. 

No mi. alterna boo (e booa) com bÕo e hom. 



PABCLiRIO POBTUeOtS 



— Dens te asaluo, eenbor porco. Compre-te de tnym alguu seroiço ? 
Eo prestes ssoom pcra vosso mamdado. 

R o porco rrogtíbco aa doços palanras por cmjuria, e ameaçamdo 
com a cabeça, disse: 

— (juoni * os til, vililao, qiic ás tamta audácia quo me ^samlas? 
Se nom lossc porqac ' nom quero luxar o tneu fremoso demtc ua tua 
Til * persoa, eu te adubaria como tu mereges! 

É o aano, ouuiodo estas palauras, partío-sso com gram temor. 



• [F1.8-T.] 



Em aquosta ticstoria bo autor oos emsiaa qnc nos nom deaemos 
de assanhar (]'algija cousa que nos sscia dieta por bem e jior foi- 
gamça. E ajmda nos cmsina mais quo, sse nos alijem ssanda, que aos 
som assanbcmos ', postoquo a persoa prouc ssoja, e que nom despre- 
zemos os proucs, porque dlio *■ rrlco ao proue ha gram comparaçom: 
ca ho rrico muytan vezes escarnece ao proue, o ooni úh graças a 
Doua da mercê qac lhe Deus fez. 



Xn. [O ralo da ridade e o da aldeia) 



[Olomta-sse que hm vez húu rrato que moraua em liúa çidado, 
•mdando a hOa ahlca omdc moraua outro rrato sseu amiguo, quamdo 
este rrato da cidade chegou aa aldeã omde morana, este rrato sseu 
amigo ouue com cllc gramdc prazer, e dcy-lbo a comer fauas e 
trijgno e er^uanços ' com outros mamjares. 

E depois que assaz comerom, o rrato da cidade deu muytas gra- 
ças ao rrato da aldeã, de quamta cortesia lhe fczera, e rrogou-lbe que 
vÍD!vsc aa çidado ^ com cllc aa casa omdc moraua, que aly lho omtem- 
dya de dar muytas dclioa'las biguarias. Tamto o rrogou, que o dicto 
rrato &se uco com l<11 &a ijdado. 

E Icuou-ho a húa cozinha omdc clle moraua, na qual avia muy- 
tas galliobas ' e carne de porco, com outros boos comeres; e rrogon- 
Ihe que comesse aa sua vomtadc. K estaiiido ellcs assy comendo sse- 
guros a sseu talamte, chegou u cozinheiro ' e abrio ' a porta da ca- 



• [PI. 9.r.j 



* A t^iiir eilá tt riicado. 

* "Ho Dts, repole-ee porque pot UDgaao. 

■ Parte d'eslA paUvrs esli •tvbr« Ictirai ritcndiu de HttprfÇfmoÊ. 

* =::: do. Pninrirntitpnt« Mcrevcuoc Ao,- <Í«]ioia d por dniu, A eaquerda. 

" A pagina coi»«^ por K eniançttf B]>cBar de nu antecedenls JK fiitar ttr-, 

* No ma. eidade. 
'• Ko m*. y»(. 

* No tustõ pvr lapão ccmAMmAcjrro fcf. cMtnAityro infra). loB. de oonAooer e 
do nA •efrointe. 

* u«poú do abrio faa ama lottri riscada. 

8 



IS 



FiBtruiuo poxTcanu 



zínhn; c o rrito da çfdado, qne ssabia o cnstarao da casa, fb^n lo^o, 
G lio outro rrato, puniue nom ssabia o custume, ficoa. E o MKÍnbeyro, 
amdaodo em p<is oU com hiia paao na maâo ' pêra o matar, ferJ'-o ' 
niuy uiall; empero fuifio-lhe, e partio-sse muy oiall ferido. 

E o rrato da cidade, veemdo-o, cbamou-ho, qae outra vez vies- 
8e<Cni>- ' a comer com clle, e nom ouaesse ' medo; e o outro rrato 
lUerespomdeo: 

— Amiguo meu. ora fosse en jajamn " do comvite que me fezeatel 
 mjnn praz mais de comer trijguo. f&uas e Iicruamços em paz, que 
1. 9'V.3 galHiiLas ^ e eapdoes com temor e prijtruu de morte. 'A paz, a quall 
eu ssompre leulio comiguo. me faz a myoi os moas comeres sseerem de- 
licados. E porem teus comeres ^arda-os pcra ty, ca ou me coutemto 
do que liey. 

E, as palauras dietas, partirom-sse. 



Em aquceta cstoría o doctor louna a proveza, e diz que quamdo 
a probeza sse toma com alegria de cora<;om, nom sae deue chamar 
probcza, mas rríqneza, poniue a probeza be a maya ssegara rousa 
que uu muudo ^seja; que uiilbor be a provcza que a rríqueza, a qual 
rriqueza ssompre faz viuer o homem com gram t«mor : e u probc que 
8M comtenta da ssua proveza mais rrico he '' que ho rrico que nom 
ase comtcmta, mais sscmprc e numca be farto. 



XIII. [A ABiii» <ine urrebntA o filho da rapoiía] 

*[Pl,10-r.] * [C}omta-8sc que Ima voz a a^ia, andamdo buscamdo caça pêra 
sseus lllbos, achou os fillios da rraposa, o tomou h os e leuou-bos a búu 
ninho hu ostauam sscus filIios, o (jueria hos matar o dar lb'oa a comer. 
Em esto cstamdo, chegou a rraposa ao poe da aruor omdo a 
agU3'a tijnba ssous tilbos, e rogana com du(;es palauras que lhe dcs- 
8e<m> * sscus filhos; e a agnya Ibe rrespomdeo que lb'03 nom quo* 
ria dar. 



I No mt. maao, 

I BaftrÍ0'0. No ma. /«rio. 

' No tos. IA-86 vifuem com todss as letlraa, mas date eer vmjm, como M 
■noilra do oom^/s» (U ora^ilo 8i.-(niiti(e. O -m resultou da inãueiicia d» Heui de ■doia 
ratMn qtift e»tava na nietit<! àe qnem escreven. 

* No ms, ouHvetK. 

* Assim ctCá, e uioJQjSa, coroo aerta de esperar. 

* No ras. gu. 

' líffpoii d)' tfut lia iimn letlm riscada, 

" Quem cMrevfu pcm por eqntToco duMm, pensando talret na agnia o iioa 
Elboa, mas v6-ae da sequcacis das ideias quo o sujeito da oraçiio é só ayuia. 



VABUC.ARIO POBTCOrtS 



19 



E a rrapo«a, como be mayto maldçíosa, carretou mayla leaba o 
palba e estopa, e põ-la d'arredar tia aruor domde a aguya LÍjnlia sseua 
fiilios, c foy t>i>r liiiu tiçom e acemdeo o foguo e fez tam i^ainde fu> 
geyra que os fillios d'at?uia ' cstanam cm pornto do morte; e a agaya 
começuQ a rroguar e a braadar aa rraposa qae aom fezesfie mays fo- 
g^Qo c que llio queria dar sscus tillma. K per e^ta.jpiisB a rraposa co- 
rroa aseos fillios. 



Km esta cstoria o doui^tnr àk enaíiiaoienito * aos grutodea lio- 
mccs que uom ssejam cui tudu cra^MM, c& oa peqnenoa homSes de 
pequena comdií^om podem mnytos vczea enpoc^cr aos gramdea, e sse 
lhe Doui poderôin empeeçer, líie podem fazer prouoyto. 



XIV. [Jk «(uIa c m enK&do] 

* [0]ointa>Ft8C que húa rez liua aguya Icuaua húu riguado, com '[FlJO-v.] 
oa pces, DO baar, e nom ssabia como o coiiipssc. E ussy estamdo, 
asaltou pcramto ella búa gralba e disse aa dita aguta: 

—Queres que te dê húa bum cotnssclho? Alouamta-tc-trera em cima 
ao aar e abre as buubas e Jcixa cayr esse c&guado: e cair& eui terra, 
G quobramtar-sse-ba, o omtom o poderás comer, ca be muy saaborosu 
de comer. 

E a águia feze-o assy. K pella limgnoa da gralba morreo bo cá- 
gaado. 



Em aqucsta bestoria o doutor ameestra os bomSes, que deaem 

temperar ssuas lingaoas, 6 nom as deuem toer ssem Creo, poUas quaaes 

púdc proceder dapno c escamdalo a sseu próximo, porque da Hmgnoa 

ino nom he temperada ase ãseguem arroydos e mortes de bomces e 

outros jm^uidos males. E bHu proborbio diz: 



A limguoa nom ha oaio, 
MaU rrorapo o doato. 



XV. (O carro e n a^ulit] 



* [Fjoy tina vez búu como qno estaiia cm rima de búa amor, o "[PI U-t.j 
tíjolta butt pedaço de qaeyjo ua boca pcra conior. E em esto estamdo, 



* A^oi eetá qut riicido ; o cavríba pú-to poc eugrai», cm rírtude do ;ik 

•egointe. 



»0 



PABtTLARIO POBTCGTrtS 



obeg^on per hi a rraposs. c vio que o coruo tljoba o queyjo na boca, 
e oomoçnuho nmyto de louuar. e dizia: 

— Ho coruo, tu es búa fremosa aoe, — braraco e nobrel Sse ta 
ouuesRCs assy fremnsa voz cntuo tu bas as sâimilidúoes do ten corpo, 
tu serias a mays fremosa ave do mundo! T5ogo-te, ó amy^no, qae 
tamtes húu pooeo, ca muyto eubijço de te ouuyr camtar... 

E o coroo, onviodo asnas iialanras, começou de camtar; c cayo- 
Ihe o queyjo da boca íC a rraiiosa o IJlhnu luny asiuba, e comè'-o \ e 
escarueçemdo do coroo, dízía-lhe que era velhaco, c astrosa aue. « 
negro, e que o sscu camtar era nmyto poor. Pola qnal rrazom o coroo 
foy muyto oojoso polo escambo que a rraposa d'elle fazia. 



Em aqoesta estoria o doctor nos cmsina que nós notn deocmos 
crccr polias palaiiras mcygnas, porque muytas vezes omgaDom os bo- 
mêes, e os bomces quedam om ycrgomça, ca: 

Muytw vezes o mell 
Sse mistura oom IToll. 



XVL [9 leio velbv, • lumo, • touro e o porro] 

■(PUl.v.j • [Crjorata-sse que húu leom era tam velbo que sse nora podia 
mouer; o emcomtrou com Lúu asoo e oom buu touro e com búu porco. 
Vcemdo estes que o leom per vdhií;o nom sse podia ' mouer, díserom 
anttre ssy: 

— Ora ho tempo qoo ftlbemos vimjçuataça d'e8te treedor, que ma- 
tou nossos paremte-s e fez [a] muytos mal '. 

E Itn asno lho dou dotis couces, o o porco com os domtcs o o 
touro com os cornos. E o leom ehorana e bradaua, dizemdo: 

— Tempo fuy que eu vcroçia todas as alimalias! E ora todalas ani- 
malias vemçem a mym! E eu |>erdoey a muytos, e estes oom perdoam 
a mym! 

Per esta guisa o leooi ficou eboramdo. 



Em aqnesta bcstoria o doctor diz que nas nosas bem avomtaran- 

ças dcuemos fazer muyto pêra avcrmos amigues e nom jmijgos, ca 

*[Fi.i2<,] 08 * buos amiguos ajudam os bomces nas seoas pressas, e os emUgos 



' ■■ cc>ti]€O'0. No ma. «wnw. 

* Aqui fsbí ffi ríicadft, pois a« tinha eccHto tales podiam, 

' No mê. : fiz muiíot mat. 



fazem todo polo contra.vro. Ãjrada diz que o bomcm oom deuc fazer a 
ODtrem aquello que Dom (laeda que fosse fecto & elle. 



XVII. [O brAnchple, o «eu s«nh«r r a «anoj 

[CJomtft-Me que foy bOu senhor que tijnha húu bramchote muy 
fremoso, com o qual moytas vezes brincana; e o braiiiclieto o mordia 
com a boca a o arranbaua com aa maàoâ, como fazem os càaes qnam- 
do trcbclbam com ssen senhor. E bún asno, veemdo quo trebelhauam 
assy per maytas rezes, cnydoii em sseo eoraçom e disse; 

— Kn todo o dia trabalbo, o CRtc meu senhor sscmprc me mal 
diz e fere-me! Per vcnitura o faz porque «om trebolho com elle, como 
faz ostc bramcheto, <^nero vecr *80 hi; assy. •[PLl2«v.] 

K loguo começou de ssaltar amtc sseu sseubor e lamçoa-lbe es 
brai;o8 no pescoço c começou de o abraçar u morder com os demtes; 
e o Menbor começou de braadar. e os ssens aettiydores veerom a elle 
com paaos e deram (amtaa paamcadas ao asno quo o fezcruui fugir 
com in^mde sseu dapúo. 



Em CRta hcstoria o dontor cmssina aaqucltos que nom ssom prom- 
ptos s fazer as cousas e trabaiham-sse de as fazer: que o homem 
nom sso deuc de trabalhar da cousa do que uom he meestre, ca sse 
o faz, mais asinha pode cayr em vergomça ca em honirra. E diz que 
ho ssamdoo coyda * de fazer niuytas vezos bem c faz mall. Ajmda 
diz que o ssamdeii faz muytas ssamdicea, escarneçeuido de ssy pcra 
fazer prazer a outrem. 



* [P]om este doutor cmxemplo, o diz que hQu velho estana ao *[FLl3r.l 
BSoU CUI1I a cabeça ' calua c descoberta, e húa mosca o mordia na calua; 
e quaujdo o uclbo queria dar na uiusca, daua na calua. E a mosca 
tornaua a morder o ueltio ua calua, e u caluo ssompre ilaua em ssy 
com a mâao e nom podia dar na mosca. K assy fez pe[r] * muytas uezes. 
O aelho lhe disso: 

— Tu cuydas a brincar comigao. e escarneces de mym qoaodo 
eu dou com a minha mãao na calua! Gn te di^o que por dar dez 



' 111 aqui um borrlo OU mAocha 00 mi. ; tnai vt-as sinils parte do y. 

' No mil. eabeea. 

* No ou. pe {esqueceu corur op). 



uezes n& mynba MiaB nmti ma dá. nada, ca mo oom dooo; mays sse 
bua ae/. te der, ta morrerás: pcro aae ssião e farás de tna proU. 
A mosca ouuo modo c parcio-sse do ucibo. 



Per e«te einxcmplo este doutor nos amostra que a emjnria c ner- 
gonça nom he d'aqiiell quo a rre(;cbe, mays Ue d'aquel]o que a fast, e 
nliuu QOm deue briut-ar cxim alguém ssem ssua voomudc, ca rrazom 
mostra qac rrc^eba inal aqu<.']l (|ue com outrem quer trubelbar coiutra 
sseu talainto, pois o trebelbo noui Ibe praz. 



*[Pl.L8*r.1 * [P]om este poeta doutor emxcmplo, e àiz quo húa rraposa con- 
vidou a çegoDba que jamtasse com ella; e a (;eg:oDba rreçebeo o com* 
vito. K quando foru laseentadoa na mesa. a rraposa moteo a vianda 
cm bua vaxelo muy larguo: o este comer era miiy augaçemtu, e 
• çegonba o nom podia tomar co'o bico, porquo o tem longao, e a 
rraposa lanbia todo com a linguoa, e por fazer escambo coavidaua a 
cegonha que comcsc, c a (:.ogonha avia ^am pesar, porque avia fámc, 
e auia vert^onça, porque scaroeçiam d'ella. Depois que acabarum sseu 
jantar, a çegouba lingio que nom emtenOia o cscarnlio que Ibu fezera 
a rraposa, mays dcu-lbe muytas graças do jamtar quo Ibe dera. 

D'aly a pouciMí dias ba ^egouba comvídou a rraposa iiera jantar 
com ella, c aa rrajiosa prouue muyto. K quando furom asseenlados na 
tiicsa, a çegonba pos a viamda em bfia grainde rredoma. À çegoulia 
meteo o bico e o collo domtro, e comia e dizia aa rraposa: 
— Amigua, comede *. Vedes quo nobro viamda esta bel 
à rraposa queria meter a cabeça demtro e nom podia e andana 
lambendo d'arrodor; e lanbcnido nom lhe prestaua nada o tomaaa 
gram nojo. K partio-sae com vergooça. 



'[Fl. í4-rj. • Per este emxemplo este doutor nos amoesta que os bomées nom 
deneiii a lazer a outrem o quo elles nom queriam que a elles fezea- 
sem, mays douem-sso trabalhar do faxer soruiço c prazer a toda jcmto, 
assy aos estraubos como aos amigos, ca muytas vezes de petiueno ser- 
uiço rreçebe o homem boo gaalardom. E pêro diz húu emxemplo: 

A todo homem sorviráa; 

 quem err&rús, d'ell te guardarás *. 



* No tiHi. ydara», cihh lil »ubr« h> pnin«Ínu trua l«t(riJ(. Cfr. ]iQr «xlcuso 
ffuardate e guardtmai na fab. xili). 



FÀBtJLABIO POSTUaOeS 



S3 



XX. [O lobo e a cabes» ^^ hoMent morto] 

[Pjom ^te poeta emxomplo o diz qae bOu bbo aindando aaea 
eaminba aclum Ima cabeça de ' boiíiHui luort»; e esto lúbu coiiiiÉtíÇoa-a 
a rronelner com as pocs. Falando dizia: 

— A boca asem voz! á cabeça sseiii eintendimento'! E vejo bem 
que qnando ' desfalece a alma fremoaa e preciosa, logiio o corpo pcrdo l*^-J<-vi 
BSiia virtude c frciuusura, pêro qim a íremuttura da alma be aqucUa 
que afremosenta o corpo: e como a alma desfalece, o corpo sso toroa 
no clamcQto da terra de que foy criado. 



Per este emxcmplo este doutor aos amostra que as cousas d'este 
muado oom ssom estauees, e os homcea que em esto mundo pocm 
BSQa flpcraaiga ficam emgauados. ca a ayda d'cste mundo noui be du- 
ranyll \ porque oje ssomos viuos e eras mortos: ssolameotc a alma 
do homem lie aqnella que bc duraujil *, porque nom pôde morrer, ca 
bo fecta ^ aa ssiniildom de Deus ^ K a alma be aquolla qne afrcmosenta 
o corpo; e quaudo sso parte, fica o corpo terra. Assy como be a alma 
rracionaay) ^ qac rrei^a no bomcm, aasy be da alma vogetatiua que 
rreigoB nas cruas o nas aruores, qne tamto eslam em saoa froU quan- 
to tem a alma em ssy; e dopojs que perdem a alma^ ficam nada e tor- 
uam-âso em terra. 



XX]. [O corvo cafcUado com um pcnnnx do piivAo] 

*fP]om esto poeta e áh este emxemplo: que as aues fejterom *[FLl5-r.] 
indo booirra aos pâaos por a fremosura d'elle8. Ho como, veemdo 
neato, ouuo gram pesar e emveja, c foy-s»e a buscar e acbou tuuytas 
penas do pâaoa e vistio-sse muy bem delias o meteo sae em coopa* 
ubia dos outros pãaos muy ssaborusamente. Os p.~iBos, veemdu ba nia- 
li^ia do oorui), tomarooi-iio amtre ssy, fazcmdo Ibe muyto mall o de- 
peoarom-no todo. EU depenado partio-sse, e os outros coruoa scarno- 
^iauí d'ell, porque o viam tam mall trautado. 



' No m», do (L é d'<o>)lo«5). 
» d=.iihí.. 

> • \o ins. duramt. Vid. fiib. II, not» I. 
^ Nu iD». feia ou /ceu, coto til yot úa%. 

* Mo DA. Dtt MUI o • prolongndo rui fórota do curva; mu Deut por estenao 
Bft íiib. n. 

^ No mt. rracioHai^ Vtil. porém ftb. II, oota L 



•■" - 



- -* 



S4 



f ABCLAKIO POBTCõirea 



Per cstG omxcmplo o doutor nos amostra qao dos oom atciianto- 
mos inays alto qac o que nos compre, porque &qacll&9 qac cm alto 
querem ssobir, mays qae o que llied compro, muitas vezes caem em 
terra e nom sse poilcm Icaamtar E diz que o cayr be cousa ligeyra, 
mays o loaamtar lio mays graue. K cada húu deue eíttar (wmtentc da 
mcrçce que Ibe Deus faz, c nos uom deuemos de tremeter das cousas: 
quo nos podem toraar cm vergonça e dapno, como fez o coruo. 



XXII. IO «xemol. h lavsra e ■ niulji] 

■[PL15-T.1 • [p]om este poeta exemplo e diz que huu azemell fazia correr 
bua mua. K búa mosca mordia esta mua c dizia-lhc: 

— Corre liffciramcnto. astros», ca eu ssom aquolla que te pnnguo 
o fai;i) nojo comtra tua vúotadc. 

A mua Ibo rcspondco cortcsameoto: 

— Tu falas altamente, como sse tu fossos muy poderosa! Ca en 
Dom temo ty, mays temo este azcmell que me atormeuta e faz em mym 
quauto mall quer. 



Per este cmxcmplo o doutor nos amocsta e diz que o homem de 
vill comdiçom nom íia audácia de falar comtra o poderoso. K esto 
procede de vileza de coraçom, ca o coraçom uill be aqucU que faz ho- 
mem ssccr pcra pouco. 



XXIll. [A C«rtnÍB« e m uioacs] 

•(fi. i6.r.] • [pjom este poeta emxemplo, e diz que a mosca achou húa * for- 
miga, e CODpeçou*-ha a desonrrar do maas palauras, dizendo: 

— Tu, formiga mi/qiiiQha, ssempre moras nas eouas da terra, e 
eu' moro ' nas nobres moi-adas omde me praz; tu nom comes sse* 
nom trijgno, c eu como uiandas nobres, e como nas mesas dos rreis e 
dos senhores; ta bebes aogua na terra, c cu bebo com taças o copas 
dVarii prcriosas; ta andas com os pccs na lama, c eu amdo pellos 
rrosiros dos rreys o dos senliore», e como e bobo ua camará dos rreys 
e d(is ftscnboiws: c rrcynbas e donizcllas nom sso podem de mym dc- 
femder, pêro que, quaudo be meu talaute, no sseu rrostro alimpo * 
06 meus pccs. Mas r.(»mo ja te di»30, tu es estrosa cousa: pêro guarda- 
te de my (l'aqui adiaute em * uom participar comiguo. 



• No rod. Alio. 

' No ma. mnpfcou. 

' Nd ms. inora. 

* Nu m». aíitRpa. 
' No mft. e, por ?. 



A fortnifnía oscu; tou muy bõiu, e depois quo a mosca disse ssea 
aermoiu, lhe rrcspODílco com palauras escatlniosas e disso: 

— Tu, Diosca ucllia, ca me dizes qne eu moro nas couas da terra, 
aasy lie uerdado como tu dizes: mais eu te digno que as tuas ve- 
lhacas alUs Qumca liam rropouso; c cu nic comteutú à<3 pouco tríjgo, 
e ta uom te ootiitentas de muitas ' cousas; ha ' minha petiuena coua 
sse alççTB comiguo, mas as casas doa rreís o ssonhores sse anojam 
" comtipuo; eu me comtento maj's do meu gráo qne tu nom to com- 'I^llfi-v^ 
tentas das rríquezaa do« rreís; c o trijg^uo ijue cu como, guauço-o per 
meu trahalUo, e tu furtas o que comes; eu como o nicu trijfçiio em 
paz, tu comos o teu com temor; ca eomo o mQutrijguu UmpamouEo, 
o ta comes o teu lixosamcnte; eu nom faço nojo a nhúa persoa, maia 
toda jemte i>se anoja coaitiguo; da minha riuemda todos tomam boo 
emxcmpln, e tu dás de ty euxcmplo liiosso e maao; ta descias viuer 
per ' comer, e ou deseio comer por ^ viuer; ubúa persoa uom dá a 
myiB molesta, mas toda gcmta te lamça de ssy com nojo que de ty 
ham; tn cuidas sseopre no comer, e por ello perdoa a uida, c quando 
cuydas bohcr boo ninho, bebes a pc^ouba e a morte, o sse as tuas aas 
Dom ssom bem prestes pcra fugir quando o abauador te dá, Icixas-te 
cayr morta, c sse per auentura scapas o uerâao, do jmvemo nom po- 
des escapar que uom mouras. E por tanto está muda, aatrosa fedemt«j 
ca to nom compre mnyto íallar. 



Per este cmxemplo este poeta nos dá ensinamento que uos 
guardemos de dizer paíauras enjuriosaa a ubúa persoa, porque sse o 
homem diz a alguém paíauras enjuríosas, comvcm que paíauras enju- 

riosas rrei;eh8 ; e as palauran cnijuriosaa fazem n homem mudar do 

boo emtemdimoDtOj • edas luaas palanras procedem mortts d"om6os, e «[PLlT-r.) 
daa maas paíauras procedem arroidos, batalhas e outros muytos males. 



XXIV. [O Isbo i|ac armstt a rnpvKu itcranlc • botla] 

fP]om este poeta cmxemplo c diz que o lobo acuson a rraposa 
d'auamie o bogio: ijue lhe deuia muytos ttinboíro8^ A rraposa sse es* 
cnsana quanto podia. Vcemdo o bogio a escusa da rraposa, conboçeo 
que o lobo a dcmamdaua e acusaua ssem rrazom, e disse ao lobo: 

— Tu demandas o qoe nom deues comtra rrazom^ e tu mereces 
pena. 



> No mi. utava poutíu que foi riscndo, ejcrevutido-M por cÍídk muitas 

" =«. 

' No ma, pr, com p cortado. 

' Ko tna. asBÍni por externo. 

• No tna Mti «111 l)T«vtí: drr^ê, com rr (por^/). 



S6 



PABtTLA&IO PORTU00È3 



Ho IoIjo sso partio comfnso, e o bngio começou a olhar a rraposa 
e escuâá-la, dizemdo que era jaocente do que ho lobo a acusava. 



i.*|Fti7-r.i * Per este emxeuiplo este poeU rrcprobomdo aqaollc» que de- 
mandam algija cousa a sseu próximo contra rrazom. E diz quo aqao- 
lea que 88om compridos de malii^ias, o lni.<iam snciiipro em cilas, nom 
as podem de ssy tirar; e aqucll que lie Imsciro c ' a fazer e iiiucr cora 
emgaDos, ssompre deseia d^engaaar aqucll que pôde; c qtiaado enig^ana 
aliem, todo ase gloria no sseti maao faxer. 



XXV. {A doninha e • homeail 

[P]om este doutor cmxeinplo o diz qao bQa doncziaba fazia gram 
dapno em casa de bOu bouiem bOo. Kstc homem Itic armou búa laço 
e tomon-ba. A donozinlia, uccndossc em pressa, rrogaua an homem 
qne lhe Dom fezesse mall, e prometia-lbe de guardar bem tuda ssua 
caaa, qiio os rratoa nom lhe fezcsseni dapoo. 
♦lPLI8-r.] lio ho"mem * lhe rrespomdeo e disse: 

— Tu, toda nmu maliciosa, ssempre dizes doi^s palaiiras c ' fazes 
qaamto mall podes; quando ta me podias fazer bem, tiom m'o quiseste 
fazer, e fazias comlrayro. Mas sse os rratos me faziam dapoo d'búa 
parte, tu iii'o fazias da outra tuuyto peor: e em fazeuido luall, ont^uor- 
daste com gramde uijuba perda. Pêro morrerás, e saorcy sseguro de ty. 

£ dietas ' as palauras, matou-ba. 



?om este poeta este emxemplo e diz qae o seruiço que sse faz 
de aoomtade, aqiicUe bo bem fecto ^ E o sseruiço que sso faz per íorça, 
nuuca be bem fecto ^ Ssulamente a boa roomtade he aquella (|ue ador- 
na o bou seruiço; e nom sse dcue tamto d'osn:uardar ao prnucyto do 
seruiço, quanto sse deue loQuar a boa emtençom d'aquell que o faz. 



' Este f, eopquBnco em certn modo pndi^aie jaslificnr-ee ajntActicaineote, 
tftlves porêiu aqui tvjA de tnsis, por iDãiiencís do r que vem ntleuote. 

> No cotnoço d& tí. 18 r«pcte-sc o ho' da antecedente ; a linb« comcfu poÍ« 
por komtm. 

> U nis. tem a ijor r. Como uh ti to em portiiguda ae ii<mm eocoutnii em cer- 
tos OBCM a o r, bAo Weitci i'tn tuser neato caao a aukMli Inicio. 

* 4 t ij(,m ( iibrevJatui» «ovtuinaâa. 



XXVI. (Arfieabol] 

• fP]oai enuemplo este doator e diz qno hún boy, amdamdo a be- ^E^.18•T.J 
ber, pose o pee em (.-íraa de búo tiJbo ã'bna rrãa. E a rrãa, vecndo Mto, 
assanhimssc luayto: conpiTçou-sso niiiyto fortomcnte de jmcbar, c quo' 
rfa-sso fazer tam grandu como era o boy, pêra sse matar coro dl. 
O filbo Ibe dÍ88o: 

— Madro, nom faças *, ca ta es muy |>eqneDa cousa a rrcspeyto 
d'e8te boy. 

A rrãa, poU> ^ain pesar ()tte aiiia, octra vez mayto mays conpe- 
çoa de jnifbar. O filbo a rroprehomdia, ilizomtlo: 

— jladre, noni te esforces de te jmcbar tanto, ca poderias arrebem- 
tar; e ajuida qae te jncbes quanto poderes, nuuca serãu taiuauba como 
o boy. 

A torcoira vez a rrúa sse jmcboa tamto, que arrcbcmtou pollo 
nemtre e morroo. 



Pom este poeta ciiixcmplo o diz que o bomeni que bc [)cqHeDO 
o de pequena comdíçom num se deuc d'eáforrar c querer Hsccr £n'ai"Jo 
cni fcctos ^ o ctri palaiiras, mays detie tenpurar o sseu coruçoiíi, sscguD* 
do Bscu estado rrcquoro. K a pequena fnri;a nom s.se deue comtcstar 
com a grande: e s^e n faz, be mingua de' cm tem dfm em to. Por a quall 
rrazom boos bom&es ' caem em grandes vergont^as c dapnos. 



XXVII. [O Ic&o c D pautar que me llrn am p4 naia eaptnttA} 

* [Pjom ciiixeniplo este doutor e diz que, amdamdo búu-lleom saea *[F1.ld-r.] 
camynbo, entroii-lbe húa esplnba no pee; e esto Hom, amdando may 
tributado com esta cítpiaha pella mata, eucontroa-sse com búu pastor 
quo guardaua guaado. Ho pastor ouue gram medo quando vyo o lleom, 
e tooiõu buu carneiro o posõ*o d'auaate o lleom: bo lleom nom lb'0 
qnys tnmar. o inostrauallie hu pcp ttmile tijnim a r.spinlia, e rrogaua 
ao pastor que Ih 'a tirasse. JC o pastor tomou bua ssouella. e tirou-lbe 
a espinha o mayto uurm* quo ja trazia. Ho Icom lanbJa a mâao a 
este pastor- 

Dtipoyt! que o Ileam sso sseotio ssaao, asenpro o acompanbon; o 
quando avia tulamte de comer, auidaua a eã';ar das alimária» aa ssilua; 
o como auia sacu mautjjmento, tornaua-sse au pastur. £m toll guysa 



' J. é: nom faça» «ío. 

' Com « sbrcviatUfK du coHtumc. 

<* Nv um. homeet. 



S8 



PABITLAIUO POBTinsnt» 



Ibe guardaua sacu gaado, que llobo nem outra enymalia notn llio fazia 
dapnoi Q com todo esto o Icom esopreiíeo ' muy bem oo asca cora<;om 
o seniiço qae lhe o pastor fezera. 

E d'cmde a poucos dias Quy tomado aquele liom em húu laço e 
foy posto em Hroma com outros liõocs. D'aly a çcrto tempo o pastor 
fez l^úu malcfido; e mamdou a jusUça que o metessem com os liOoea, 
■[FI.I9-T.1 que o matassem : e ffoj posto amtre elles. * O leam a que ell tirAra 
a espiaba ho oooboçoo o chegou sso a ollc o andaua-o lanlicndo e de* 
fondia-o dos oatros Ueõoes que lhe nom fezcssem mall. Vccmdo os 
senadores ' esta maravilha, forom muyto espantados, c por esto per* 
doarom a morte ao pastor. 



Em este enixempl') este poeta n<^s d^ emnsiDamoaito que per pe* 
queno nem p^ram tempo nom nos deucm d'c8qnocçer os scruiços rrc- 
çebydos, raays ssenpre os deuemos teer no coraíom e dar bom ffua- 
lardoni aarnipllcs (\aQ nos boos scrniços fezorom. .Mas aquell que boo 
he, assy fiaz; o que niaao be, depoys que rrcçelic o scruiço, nom ase 
quer lenbrar d'aquc11 do qnc ' rroçcbcu boas obras. Mas o leom, 
porqne he nobre, leubrou-sse da bua obra que lhe o pastor fezera, e 
dea lhe boo galardom. 



XXVnt [O caTMlIo e o leA* iiae se flncin tncdlc*) 

'[Fl.30-r.] * [Pjom cnxemplo esto poeta e diz que húu cauallo amdaua cm 

faúu prado a pascer, o oco húu Ueom e disse ao cavalo: 

— Porque comes essa hcrua? 

O cavalo lhe disso que a comia por meezinha, c& era muyto 
doemte. 

£ o leom lhe disse: 

— Irmãao, asabe por certo que eu ssom gram phisiío: poro lelxa- 
me tocar teu pnlsso c darey-te meezinha. que loguo sserás ssãao. 

O cavaUo cotihcçeo que o leom dizia esto maliijiosamente pêra o 
matar, e cnydou em sseu coraçom ^ outra matiçia c disse: 

— Mestre amigue, eu traguo bua espinha iio pee: rroguo-te que 
m'a llrcs. • 

O leom acostou-Eso ao canalo por de trás pêra ueer a capinha, o 
o cauallo lhe deu hm par de coaçes na cabeça que o deytou cm terra 



* o ma. tem tt4T}u<o com iídhI de Bbrevlftttira sobre o p. Também poderia 
Iramcrever-H aerpítKo. 

S No mi. S*"- Creio <]ue nau é êenhora. 
I Aqni CBl riscwlB « paluvra o. 

* No ms. coraopm. 



qaasy morto. Kntremcntes qac o * Icom ass? jazia, o caaallo fnfcto |>era 
casa do ssoii seolior, o o ]oom acordúo c aobou-ssc eGcaniido. 



Per este emxemplo o ssabodor pooU noa amostra quo nos [nom] ' 
devemos fazer aijnelles qac nom ssomos, mas deueinos * dizer a verda- 
de, quem q6s ssoiuus, [icrquo eiu dizciudo a uerdade o liouiem 
Dom ]iij'ie ssor rrepreliondiJo, e dizendo a mentira p6de auer vcrgon- 
ça e tuaa fama. 



XXIX. [O mnmo v • rnvnilo lonrfi*) 

* [KJm e«te emxenplo o poeta diz, dando a nós enxemjilo, c '[Fl.SO-v.] 
comta qne tiflit asno andaua per húu camyobo eatreyto carregoado, e 
eocontron com liúu cavallo iiiuy fremoso, o quall andaua ]oui;.ãao, por- 
que trazia muy fremoso freo, ssella, rretramcas e peytorall. 

O asno disse ao caaalo: 

— Senhor, Dcos te mantenha! 

O caaalo com grande ssoborba conpc^oa a dizer mnyta vilania 
ao asno, dizendo: 

— O astroso uilãao, como ás tu tanto ardir do fallar c de te pa- 
raros no camyohn per nmde oy-d'amdar? Tn cada dia carretas vinbo 
e lentia e outras cousas lixosas em cima dos teus lonlina. e trazes al- 
barda: c eu trago o meu senlior hoorradamente era cima de mym, e 
traguu sulla dourada, freo, rrctrancas * muy prcçadas. Èu te diguo qao, 
ase nom ffosse que eu nom quero cm ty laxar m meus couces, que eu 
te faria que * nunca onuesscs ardimonto do fallar a tam nobre cauallo ^Fi. '2i-r.| 
como CO ssom I Vay, e nom te ucja ou uiays passar per omdc cu es- , 

toaorl 

Ho asno nom onsaua de falar, o partlo-sae com vorgonça. D'a]j 
a pouco temjio o caaalo euiag^cçeo, o o sseu senhor o meleu aa car- 
reta; o pello grande afam que o cauallo durana, veo a sseer miiy ma- 
gro. £ buo dia aquell asno o encontrou no camynho o eonhoçeo-bo 
mny bem e djsse-lbe: 

— ó caaalo, rrogo-te quo me digas omde he a tua ssella e o tea 
fremoso guaruimento? Tu ssoyas sseer muy gnordo! Ora te uejo muy 
magro! 



t Aqui etti riscada a palavra eawaUo. 

* Falta cadentemente nom, que fiupon por enusa da TitiDhançB do no», 
C|ua cOQMÇa p«las nieiuiai tettraii. O aeiitido é : (iiuo deveuios liugir que «otuos 
quem ttA reihHdadc aia «omAS». 

' Xo iDB. diiemot (por influcnoift do rfwer seguiaie), com t enMndftda em t-, 
e plica oo I, 

* Aqui ha tuna IcUra riscada. 



96 



riBOLARio ponTiroirÊs 



R per estas palanras esMrneçia o asno do eanalo. O caualo, pela 

graiu vergonha que auia. uuiu falaua, e i^artio-ssâ com vergonha. 



Per este emxeniplo este poeta dos amostra qac nOa nom ajamos 
ife Dom C8i>crHni;a nas iiãas glorias d'cste nmndo, iiorquc num som 
estaueeft; e lit>iiiem qnc está em [>roai>cridaiIo cm este mamdo nom 
dcno * estmrncf^or do niinguadu, porqac, qitaadu ssc nom percatar ', 
eltc pode vTir em miasería, o o minf^ado om prosperidade, sscgundo 
vectDOs cada dia. 



XXX. IBtttiUIin raArf bh Avon e ah naijnAllaal 

•(FJ.ai-T.) • [E]m esto cmxcmplo este ponta nns amostra e diz que foi híía 
g^ram batalba antre as aucs t; aQiuial[j]as ', e foy assigoado húu dia 
certo, que d'aiibaIaK partes viessem aa batalha. A águia ordoouu asnas 
aazes, ssegiiado viu qae cuQpria; o Içam outros.v as ssnas. 

Postas as aazeii d'ânbalas partes, o morçeguo, que vio tanta mul- 
tidom d'ammalias, e qae dauam tam grandes vozes, onac gram temor, 
e partio-ssc das anos. o num qais tocr da biia pane ucm da outra. 

Km esto foy fccta a batalba uiuyto cruell; e daub&las partes 
forom muytos mortos e feridos. Fioalmcnte as aues vençcrom por 
ssiias ligeyriçes. e pella ' gram vertndc da aguya, que ssoube mny bom 
'[Fl.ss^r.] bor'denar ssuas aazcs. 

Depois que todas forom assenbradas, e a batalha võQ<;Ída, foy 

dicto aa agoia que o morçegua fozera treyçom c fugira o leixára aseu 

seoiíor DO campD: a agia o fez chamar, e ' ssabida a verdade, feze-o 

todo depenar, e inandou-lho qno nom voasse ssenom do noutc, por 

* pena do mal que ffezera. 



Fer este cmxomplo esto doutor nos amostra e diz que nom be 
boo aasaalo nem 6cU amígao aqncll qao ao tempo da neçesskiade ' 
leixa sscu sscnhor no príigo ^ e foge, ca o bomem nom pode bom 



1 Ko m& deiitm. 

* No ma, peatar. coni a bute do p cortadm perp«tidicalann«nl4 por um Uft* 
ço, abreviktu» que (l'Di(Iiiiai-io no nrtuo ena. rei^fncuu per. EsU («sto tem tom- 
bem : erpança (coto p corudo) =-- L-epermuçu ; provpitÍa4e «com p eortado) » pnia- 
peridadv. mu logo em aeguidii pr<tfptridadr fior eiten»o. 

■ No ma. oniMOiat, nia« iiuiitrii jiauú, lago nbaiiô, auimaliat. 

* No m>. plia com os li corUdoa. 

* Ant«a (1« w escffTcr e, «Bcr«v«u*M úotra lettra que foi rúcada. 

* Aqoi estÂo rincadoa doía u. O auanueaae i« a escrever woi. 

* No mi. p^o. 



rib^i 



FABULARTO POnTTOrltS 



31 



MernjT a ' doas senhores; e tal como e«te merece de aner mall e pooa 
de trocdor, porqtio doscnpara saca senhor, catrcucodo-ssc om oJl, e 
Ibe foge. 

XXXI. {O cH«i4>o f! o r«nxli»*ll 

• [PJom esto poota este cmiomplo, o diz qae estando húu rroos- -[FLâS-v.] 
sinoU caoundo do sseu niobo. omdc tijoba s^ciis âlbos, veo búQ ga- 
niam c tomou-lbe húu dos filhos dn nínbo. K este rruussinoll lio rro- 
gatia, quatttu [ludia, que Ibe désae o sseu íilbo e noni ibe fc/esise mall. 
e qae sseinpre faria sscu seruigo. O gauiam lhe disse: 

— Sse qucr«s teu âlbo. camta o mays doi;emeote que ta ssabes. 

O rroussinoll começou de cantar o milbor que ssabia, e bem que 
eamtaaa com a boca, cborana de coraçoni. K depoya qae eamtoo, o 
gaaiaoi 8carae^'ia d'ell, di%emju que lho nuu) pareda bem aquoll ' 
camto; e daaaate a ssua ojadre lhe comeo bo filho. 

E depois eate gauiauí voou em húa aruor nnidc ariuauam aas 
aaes com ho visco, e eoviacou-Rso: e o passarejro o t^^moa e matou ho. 
£ o rronasinol vjo matar o gauiam. e prouue-lbe d'eUo muyto. 



Per arte cmxcmplo o poeta nos demostra e dÍ7. qno oa homSos 
jnicos o (íriíces, qnc ssemprc persseueram cm mall, di^na cousa hc 
que façam maa fim, c mortes maas mouram. assy como sscffl piedade 
derom porte aos jnoçemtís, saem aseus merecimentos. 



XrCXn. [O lobo. o tMtdr c a TApoon] 

• [Plom este poeta emieraplo. o diz que bún lobo furtou húa 'tPi-23-r.] 
bodo o leuou-bo a húu fçram ssiluado e al^' o comia a ssea gram ssa- 
b >r. £ a rraposa, que todo e^to muy bem vío, foi-ase pêra eúe e ssau- 
dou-ho o disse: 

— Deus " te mamtenba. mea compadre 1 Gram tempo faz que ea 
nom TOS vyl Prazcr-m'-ia de mo rrazoar o ffalar húa pouco comvosco 
cousas que me muyto comprem. 

Hu lulio lhe rrojipomdco: 

— Tu, ffalasa comadre, me cnydas d'cnganar com tnas doces pa- 
lanras, por eomeroa iromiguo d'eate cabram muy ssaborido! Por certo 
d'e8ta aez tu uom me emgaauarâs! 



1 Aqui etíío riaciidofl doii u, príneipi(> de tmhoftí, que se segue. 

* Nu ma. oql voiii / cnrtnilu (ciii Gni du linb»). 

* No tas. Dt* (ftbr<vta.tur«j. Mu n* fab. xi, Dtm por esteoao. 



-^ ^-^ 



^^ 



3S 



rABiTLAKto poKTnore« 



A rraposa, vcendo que o oom podia eme-anar. ffoy>3se ao qao 
gQsrdaua o gaado, u aoiHoii o lobo, dizomdo aqiielle lugar oudc ' acíia- 
ria o lobu que lUõ ffurtára o bode e lh'o jazia bi comendo. Ho guar- 
dador do gaado IToy c achou o lobn no Rylluado, assy como a rrapOM 
Ibe dissera, e matoa-bo. 

A rrapusa loy porá comer a carne do cabrom qao flcaua do lobo, 
e bo paator a tuatoa. 

E por esta guyaa morreo o lobo e a rraposa. 



Este poeta, qaeretDdonos atnaestrar, pom este emxemplo aaaso 
dicto, o diz que nós [oom] ' dcuomos vlnor de rrapina, porque aquell 
qao de rrapina viue, mnytas vezes Ibe acootei;e que perde o corpo. 
•(FI.2S.V.1 Diz ajmda que rauytos perdera o corpo poliu dapuo • (i'outreiu. Diz ajm- 
da mays, que bo bomem que ffaz farto be perdido, e pollo comtrayro 
aquell que per saou trabalho nyiic tic ssaluo, porquo per mii^sn traba- 
lho mandou Deus ' que viucsacmoa, e ssaluariamos nossas almas. 



XXXIII. [O r«rv* e •» «caa aalhos] 

[P|om esto poeta cate emxempto, e diz que estamdo húu cento 
bebendo em bua fomtc mny clara, vio os sseos comoa qno* lhe paro- 
diam muy rrcmoHOs, c toiíiaua por ende grande prazer e nâa gloria; 
er esguardou espelbamdo sse na fomtc o vio os saens peca que oraai 
■[F1.24-r.] muy dolgnados c ffeos. o tomou gram noju. K estando-sse aasy ' es- 
pelbamdo naquela Ifomtc, vieram 03 caçadores com muytos cãacs. E 
o ç-eruo. quamdo os vio, i!oriieçou de tingir, e rrogaua aas peruas qne 
o ajudassem, c ellas o ajudauam quanto podiam; cm Lall guisa o aju- 
darom, que escapou dos cavadores. Aasy que sseemdo o çoruo esca- 
pado, deu gram louuor bus pernas; * brasfamou muyto os cornos que 
lhe dauam grande estorua quando ffugia. 



Qacremdo-nos este poeta amostrar, pom este emxemplo sanso 
dicto, e diz que dós nom dcuomos despregar aquelas cousas que nos 
ssom proueytosas, posto que ffeas ssciaiu: ncni dcnemos louuar as 
cousas que nom ssom proueytosas, posto que f^rcitiosas sseiam: mas 
deaemos amar mays as cousas que nos ssom proucytosos, ajmda quo 
ffeas asejam, que as fromosas que uom proueytam. 



1 No mi. eitií o riecudo junto de acharia. 

s No ma. falta nom. Podia tainbeia auppor.io que cat& tii» por nom, mai é 
uísi* confonne coin o etty\o do auctor quti «:ii(ivi?sao not uom, 

* No ms. Dtt tabrcvinlara). Vid. uma da« uotai ai)t«c«dei)to«. 

* Proravelmcste aqui falta e. 



PASCUBIO P0iiTt;ont8 



33 



XXXIV. ;a Ttmvn « * NlraM«l 

' !P]iim bo pflcta esto Gmxcmplo c diz quo liúa niullier tijnba '[P).34-r.| 
hún sscu marido, o quall clU dizia que amaua ssobro todalas cousas 
dn iiiuiiidn. 

Auco t^r 0380 (jiio lhe morreo este marido e fToy ssoterrado 
em liÚB ermida, [)uul'u fora da viUa, quassy inoa * logaoa. Aqiiesla 
sana molher lomon grarn nnjo c fuysise a esta ssepnltura cuni ^nm 
cbant'!. e sulu' í-Hta S94>]iiiltui-a dizia que queria vluer c morrer ', e 
nom Ifazia ssenoni chorar^ [ladrc ocni madre nctn paremtc ttom a po< 
diani d'8l,v tirar. 

Acomtcçco qnc buo ladrom, liomem de Krnmdea ivtrcmtes, ffoy 
ctn aqaell dia (!mrt>ri^adu aijerqiia iaquclla jniiida. e S«iy dado om 
(çnarda ao alt-ayde i"«rqne o riofii ffurtassern de nfiyl*^ sseus paromtcs 
da foioa. {lorqitQ r^ll ttr>í<se ciiixcin[dn aos iiutros mall fiíctores ^; e o 
senliiir disse ao Hlt^aydc que ssc Íb*i> furUsscm per snub maa ^arda, 
que âmrurcaríauí * ell 

E cstandn este a o ^u^dar, uunc furando sacde e niandnu aoa sscus 
qoe o suardasscra liem. ca ell queria bir beber aa(|Uella hermida by 
a(;crqua. ouido parc(;ra hiiu pnucii de fug^iiu. E em meutre^ que ell neo 
aaquella liirmida. os sseuR sse adormemtarom. c fToy furtado o emfur- 
cado, nom ct^sabenido o alcayde parte d'eI]o. Quando o alcaide cbeg:on 
aa birmida, derom Ibe da atii^ua a beber. Dopoya qac bcbeo, prei^mtou 
porque cboraua aquela mulher. K foy-Ibo dícto porque lho ' uiorreo IKl.Sô r.i 
ora aquy húu sseu mb[ri]du * que ella amava mays que o sseu 
corfaçom] ". O alcayde lho disse qne ella nom tom[assel ' nojo por aquella 
couBa que cila nom podia cobrar por nhebúa rrcui do mundo; ella disse 
que ania muy i;rum rrazom do chorar ca ela nom poderia ja nunca 
achar homem quo a tamto amasse como sscu marido Tazia, bo alcaydo 
Ibe disse que era homem (|ue a amaria e seniyria tamto o mays que 
ell, e que era tam rico o tam de proU como ell. E tacto lhe asoube 
dizer com doges palauras, qnc já nom rboraua, o namorou-8SO do ai 
ctyde. e rreeebê'-o * por sseu marido. Depoya tornou ell aa forca e 
acbOH qnc lhe furtarom o eiiiforrado. e s-seus homêcs erarti fugidos, e 
ele tornou logno aaquella molher e dissc-lbe como lhe furtarem o em- 
forcado c que flso temia que o senhor o faria omforcar. A dona, quo 
ja d'cll era namorada muito, lhe disse: 



1 Nri Hl», mà. L'fr. nfo «ineiu» ■)■ fmb. iii. 

) Isto L' : dixu <]xie queria nv«r c morrer aobre mtA sepultiini. 

■ No U18, faartt ou /'■:toret, com til sobro a priuii-ira metmtJo d» («lavra. 

* No mit rn/vrcarià. Poclrrin parwer i|ii« o til wJ-ia itng«iit>, c. que fufor- 
faria Icris por »iiJnto f^rimniMUcal o lilcAide; fnfereariã fU cerrMpoadn a (O «n- 
forv»riaiii- = *ierÍK c>ifotCH<)o>. 

^ * T O ins. cata roto noa logAfi^í nnác pnnho colchclcs. 

' No HiB. rr^ff^o s: ri«i-clieo o (Tnmbctii |>wÍ«rÍR Uaiueievct^M *i»iui: 
rreetíteo-'). 



PABVUUll FOBTUOlTfiS 



— Amfgtto, Dom tnmeilcs Dojo aetn pcrcadcs por omde a terra; 
mas nós tomemos cato men marido o poohamo lo n» foion e eu vollo 
ajudaroy a enfuroar: c u goiule cu.vdaria quo hu o «iiie fnriannu. 

E asa}' ú fczerom, o viaorum anbos casados cm ssaas vidas. 



•IFI.25-V.I ■* Pom o poeta este emxemplo sauso dicto pêra |a]ar' emsayoa- 
mento a nós. e dix qwo nom dc[Q]oiuos ^ creot nem sin^oyr ' aa room- 
tadc da mulhor. por<iuo o ssgu emceudimeatu nom he catauyll, mus mu- 
da-ssQ iiiilytas vezes no dia. e Snalainaiij Ji/.: ffemjfmt it"f<i Iwa, qttya 
Ur muliHnr im ura. Diz sjmda: jidUCds uezus ak:atia coiiaa que cum- 
pe^e; a mollier be iiaso do deiuonio qiio iraz coi ssy Itúa do^e |iei;o- 
ntiA; a molbor fuy aquella qno ciiií^anou Adam com outros g^rarudcs 
sâabedoTús; a mulljer lie húu armazcUú do demónio, e assy como o 
pcsoador posca os peixes com o artriiizollo. assy a molhcr posca osho- 
mães e maada-os ao Inferno breuemeate; passa de ssabedor aquelle 
que ase d*oIa pode guardar; a Virf^em Maria tloy aqnclla ssolamente 
rjue fi>y líoitiprJda de todas lioodadcs e fuy coroa de ludalas boas mo* 
Ibcrcs. 

XXXV. A rnmeiru Twydn «-' o mnnvriM] 

'[FLiíb-r.l * [P]om bo poeta esto omxeDpIo o diz que bua ' molbcr puta, 
qnc ania nome Tayda, muy frcmosa, com ssuas doges polauraa enga- 
nava mnybis boniécs. 

Esta ptita j:se namoron d'liúu bomem man<;ebo, e busando com 
cll, lleuoii d'cll tifia 8snma do dinheiros; c ell ksoiiIío sse d'ella cniga- 
nado, e aparton-síio o nom cnraiia mays d'ella. Veendo Tflyda que cll 
nom ossnna cmit cila coma ssoya. niuiidcm por cll e dÍ!íse-Uiu que ti 
amava, o que Ibc oferecia ssou corpo ssem nbúu ^ preço. lio mãçobo 
Ibe rrespomdoo qno ell a diiiaua, ma» que nom queria mays convera- 
sar com cila, porque ja búa vez o encanara, c nom queria que o mays 
enganasse. 



Per este emxemplo o«t« poeta nos amostra quo polas cousas pas- 
sadas douemos a cnteoidor as que bamde uyr, e diz ajmda quo o ho- 
mem nom deue comvcrs^ar com aquelas persoas que iiscjTaa ssom 
d'enganar aquellcs quo ciiiganar podem ; poro que aquoll que engana * 
húa ue2 lio bomem, cobtj^ do o enganar ontra. 



■ On4« púnlio oflIvIíeleB o m», cilA roto. 
No tuB. triffiijfra, osundo mcadu o a. 
No iiifl. Amo. 

L«iii-Bc ntAuu ou nem hítu. 
O 00)>Í8t» tiulm navrito ei^anam, e dvpoti riecDa o m. 



PABCT1.ABI0 PORTOUDÍS 



35 



Dentamos [tomar] ' emienipln da Aue que aigúa vez eonm ilo bua 
fruyto ijno lia nome taxo, que atoarda uiuyi'>; e a aue. desiniis que o 
come bOa vez. nun>:a o ooinc mays, ' [itirquc i» acha muytn ainarguoso; '[Fl. 
e este frayto sso pode cumiiarar aa puta que pareço do^e, e no partir 
ani&r|i;a. ca ella nom ama o liomom sseanm a UmIu ssen proueytu, o 
pêra Icuai' d'ell quaotu púdc. 



XXXVI. ;^o fiiuip*iii'ti o o iillioj 

[P]um bo poeta euixemplo e diz que búa ffilbo dé bOa burgèa 
ssenpre fazia comtrayro do que Ibe ssou padre omssyDaua. 

O padre nom bo podia castigar, e bua dia tomou bún paao ssom 
porquê, o fírio búu sseu scnin na prcascoça do sscu lillm. O ftilbo, 
vecodo iam ssem porquê espaaocar este ssetuo tam cruel Imcm te, ca- 
tana nom gram medo. Depoys proguntarnm ao biirçójj porqno • feria '(PL: 
o serno sâeiii :<eu merecer; disse o burgé:> (qne era bomeni amtijçao 
c d!si!rctn) qoc o boy itcqiicna aprende de arar do gramdc, o quem 
quer castij^ o leom ffere o cam : — e por tarato eu nom quero íferir meu 
ftlbo, poniun ja por fforiílas nom bo posso castiguar. uiays Ifery o meu 
9erao, porque ellc aja medo e tome emxemplo. 



Per este emxemplo o poeta nos amostra e diz que nós deuemos 
auer maneira com discrlçom nos nossos CDisí<yno8 o ca.«tiçamentos: o 
o padre deue castiguar sseua ãlltos com palauras e boos eiuxeuplos, 
quando vec que com feridas bo nom p6de rastisnar, e que o pequeno 
deue tomar emxemplo do gramde. E elle ffuy d'e11o lounado. 



XXXVir. [A vlhorn f n limai 

" fP]om este poeta emxemplo e diz que biia bibera entrou em •tPi.í7-?<; 
casa de liúu Iforn^yn) porá eonicr al^ua cousa, e nom acbon em ella 
saenom biia Haia daceyro. Ha bibera comeijou-ha a rwer com os dem- 
tes, e nom lhe podia empee^-er; ba lima ffaluu aa bibera c dizia: 

-"Tu, bibera, quamto rrocs em mym, todo bo nada; tu dapnts 
os teus demto.â, c a mym nom cnpeeçes Ku ssom de tamiu poder, quo 
do fferro fa^-o poo, assy como aso fosso farínba, o nom ba fferro no 



' N» niB. li^Bf ; dturmot rmxtmpta da auf. PaIU tonar oti outra 
aokioga. Cfr. -o pct^ucuo deve tontar etniQinplo do i^rwide* nu fabuUi XXXV (no 
6id). 



Ira pHkavni 
XXXV 



'-a 



36 - PABULAaiO POETCiíDÊS 



mondo assy forte que ho eu nom Efaça fazer poo e talbar per meo : 
pêro eu to consselho que to uom tomes comiguo, porque quanto rao 
tu mays rroes, eu luays escarneço de ty. Tu cuydas ffazer mall a roym, 
o fázcllo a ty. 



Per este cmxemplo este poeta nos amostra e diz que o homem 
forte deue sseer misurado, e o bomem débille e fraco nuiu deue con- 
trastar com o poderoso, porque pôde d'eUo auer uergonça e dapDo. 



. XXXVin. [0« lobos c am oveltaaM] 

•iFi.28A.r.] * [CJomta este poeta emxemplo pêra nos amostrar, e diz que os 
lobos faziam cada dia gram dapno a búu fato d'ouelhas; e porque 
quando os cãacs bi eram nom podiam fazer daptio, porque Ibe defen- 
diam o gaado, e quando os lobos vijaham pêra tomar as ouelhas os 
cãaes as defemdiam ^ e cada uez os lobos leuauam a peor, e tornauan- 
sse com vergomça e dapno, veendo os lobos que Ibe nom podiam en- 
peeçer,' mandarom raissegcytus aas ovelhas, dlzcjido que queriam 
fazer paz. 

Aas ouelhas prouue muyto de fazer a paz. Em esta paz íFoy acor- 
dado que as ouelhas mandassem aos Uobos os càaes por arrefêes, e 
os lobos mandassem ' sseus tilbos aas ouelhas outrossy por arrefees. 
E assy o fezerom. 

Hún dia os lobiobos compeçarom de nyuar muy fortemente. Os 
lobos os ouuirom e correrem allá, e conpeçarom a comer das ouelhas 
a sseu talamte; e sse os lob<is bem matauam, nom mataaam menos os 
filhos. E per esta gaisa sse quebrantauam as treguoas, e d'aly anante 
ssempre viuerom c viuem em guerra. 



■IPI.28A-T.] * Per este emxemplo este doutor nos amostra e diz que o homem 
que nom está sseguro de ssous jmijgos ssempre deue teer defenssores 
que o defendam, porque, nom auendo defenssores, ligeyramente sseas 
jmijgos o podem ofemder, cumo entreneo aas ouelhas que, depoys que 
08 cãaes nom as defemderom, os lobos sseus jmijgos faziam d^elas 
maao pesar a sseu talamte. 



• Em vez do m hii uin borrão uo ms. 

' Depois d'eBta palavra está riscado /u»er. 



¥' 



_.j'rl 



FABULABIO POBTUQDtB 37 



XXXTX. [O macbado e • bcsqpae] 

. [C]omta o poeta este enxemplo porá ' nos amostrar, e diz que 
búu machado oom auia manguo, e foy-sse a huD inato e cortês memte ' 
lhe rrogou (loc lhe desse húu paao pêra huu mango: " ho mato lh'o*[Fi.28B.r.i 
deu de boa mente '. 

Ho vilaão, depoys que pos o manguo ao macbado, tornou aa mata 
e compeçou a talhar das aruores quanto lhe prazia; c fazia-lhe muyto 
dapno. A mata sse anojaua muyto c dizia: 

— Ay mizquynha! ca eu ssom culpada d'este dapno que me este 
machado faz, ca sse lhe cu nom dera o manguo, ell nom avia poder 
de me fazer o dapno que me faz! Bem empreguado sseja em inym, 
ca eu fuy cajom de meu mall e dapno quç rreçebo! 



Per este emxemplo este doutor nos amostra e diz que dós nom 
denemos dar ajuda nem comsselho aos nossos emijgos, porque quanto 
nossos jniijgofl forem mays fortes, tamto averam mayor audácia sso- 
bre o sseu jniijgno, e dando-lhe ajuda e comsselho, ell medes he cajom 
de ssua morte ou desonhorra *: 



XL. [O lobo e o efto n«ili*] 

* [P]om o poeta esteemxemplo por noso araoestramento, e dizque*tFi-28*-v.i 
andando húu lobo sscu camyoho, encontrou com JiQn cam. Ho lobo bo 
ssaudou e mostrou-lbe boo sscnbramtc, e disse que queria ser sseu 
companheyro. O cam disse que lhe prazia d'elo muyto. 

Andando anbos de conipantia, o lobo compeçou de olhar o cam, 
e disse lhe: 

— Como tu estás guordo e fremoso?! 
Ho cam lhe rrespondeo : 

— Porque de nniitc cu guardo a i?asa de húu senhor ctm que 
vino, e DOD leixo acheguar a ella uhrin ^ ladrom. E por tamto meu se- 
nhor me ama uiuyto, e dáme de comer e de beber quanto me faz 
mester. 

Diz o lobo: 

— Eu me quero víjr com tiguo **, porque me faças poer na graça 
do teu ssenhor. 



' Xo me. pn, tendo linvido CFqiíPciínciito de cortiir o p. 

* No inB., em Bejmrado coiíí» mfntf, como transcrevo ; hoje cortrimentf. 
^ No ma. tiii EepuTHdo Loa mniU, 

* Sic. 

B Leia-ee iifhSu (ou tietn hSu). 

* No mF. cem tiguo em duas palftTrsi. 



o cam diaso que Ibe prazia dello muyto. 

Âmdando assy anbiks. o lloho usgtianlon e vin que o earti avia n 
poBCoço pelado, e prcgiinton-Ilio * por qiio avia o pescoço pelado. O catn 
lhe dj$9C que o sscu scnbor o tijnha legnad^^ o dya porque Dum mor- 
desse a E^eintC, c aa nontu bu Icixaua andar »!to]tu, por lho ^aordar a 
i<a8B. Quando n lolio nuii.To qnc Icjcanauí o csm do illa, dissu: 

— Nom qpero hir eom tiguu. A mym praz niavs víuer em myaha 
•jPl. S9-r.i Ubcrdado c comer * mall, quo bem íomer c stseer * aempro sonio. 

K loguo sse parlio do cam. 

E este emxeinpllo s&c concorda com eatc vcsso qne diz: Ne Sf^tft 
alierius. 



Diz esto poeta per este emxemplo, querendo-nos amaestrar, que 
o homem prouo que viae om ssoa liberdade be mays rrico que o trieo 
quando viue c be scruo albeu. \i o bomem que seruo he nittti be ssc- 
nbor de ssy roeesiuo, nem beaeubor do que lem; ho homem que lie em 
ssna liberdade, e em ella viuo. nom |>óde onbrar sscmelbamte tesouro; 
e quem seroo ssc fa:^. esperando de saecr rrii.*o. tal como este se pode 
chamar proue. Ha liberdade nom sse pôde comprar por todo o aiier 
do mundo; ba li bordado he húa graça cclcslriall, a quall passa todalas 
rriquczas do mundo. 



XI.I. [Os iniMobros do rurpo e o vcnire] 

•[FI.29-V.] • [Cjomta este poeía este cmiomplo c diz que os pees o as mãaos 
acnsarom o ucntrc, dizcmdo: 

— NAs ssenpre ssoateemoa grande afam em andando de cá e de 
liá em muytos trabalhos: c todo dos este oemUe come. e nnmca ase 
farta nem i>.omicnia; e ello está oc<;ioso c nom faz nem dura trabalho. 
Nom lhe domos de comer I 

E as5y o fezerom. Ho uemtrc com&^on a auer fame, c disse aas 
muaos e aos pees; 

— Amygos, dadc me do comer, ajudade-me, ca ca mouro com 
ffame. 

\9 maãos o os pees disorom que lb*o oom queriam dar, o di- 
ziau-lbe: 

-~Sse tu queres comer, toma aRum, assr ctmiu nó.s fuzemoa; 
d'0Dtra gnysa, num queremos que * comas quauto uóa trahalbamus. 



» So n»., i»r «ilciico, prrgtmicv, »ein • JtlrM^iitlurH uauwl. 

' No ma , p'ir (■iii^Ano, nfwiwr, pohi re<ln|ilicHçAo lín fcyllaha. 

'* No n)>. Ii''^ «r: i'iiixti qnorumoo iff ''-o t^iX" vuinui'- VJ> «v aa« o vopisfn \^ 
n fuii i-vci q^f r^mue, t-scrnvi-iido priínririiineiilc »ó que r», e pariuido ; mas rfiwtíii 
i/Ht adeHiile, e escreveu cowai por iiileiro. 



FA3CLARI0 PORTUÚUftS 39 



Em esta perSa esteuorono per espaço de dias, tanto qae os peos 
começarom de enfraquecer, e outrossy as mãaos. 

E 08 pees diserom : 

— Nom podemos andar. 

E as mâaos diserom : 

— Nom podemos trabalhar. 

Veemdo esto as mãaos, tomarem do pom para dai-lo aa boca; e 
a boca e o corpo eram ja postos cm tamta fraqueza, que os demtcs 
da boca nom sse poderom abrir. E per esta pcrfía o corpo morreo: e 
elle morto morrerem C3 pees e as mãaos com todolos outros nembros. 



* Pom este poeta emxemplo per nosso amaeatramento e diz *, rre- '[Pl.30-r.i 
prebeadendo os auaros, os qiiaaes nora querem ajudar o sseu próximo 
nas Bsuaa necessidades. Ajnda diz que nhúu homem sse dene rrepu- 
tar d'atanto, por muy poderoso e rrico que sseia, que algúas vezes 
nom lhe faça mester o seruiço d'outrem e d'outras que ssom de muy 
mays pequena condiçom que ell, porque húu amyguo ssenpre lhe 
conpre seruiço d'outros: húu amyguo seruo o outro amiguo. Outrossy 
diz que, bem que o ^ homem sseja tanto maao ' que nom queyra perdoar 
a outrem, deue perdoar assy medes, por nom sseer rreputado cruell 
e maao. 



XLII. [A. bugia que pede á raposa um pedaço da cauda] 

* [C]omta este poeta este emxeuiplo e diz que hOa bugia fazia '[Pi.SO-v.] 
gram queixume aas outras animaliaa, porque nom tijnba rrabo pêra 

cobrir ssua vergonça; e foy-sse aa rraposa e disse-lhe: 

— -Amigua, u6s teenidos muy grando rrabo, e uay sse-uos rro- 
jando pello cbãao e luxa-sso muyto; outrossy dá-uos muyto trabalho, 
ca vos peja muyto c empacha-uos o anidar: porem vos rroguo, coma- 
dre amjgua, que me dees liGu pequeno d'elle pêra cobrir estas iny- 
nhas nadcguas, que me metem em gramde vergonça. A u6s nom fará 
myngua, e a mym fará proueito. 
à rraposa lhe disse: 

— Comadre bugia *, a mym " parece que este meu rrabo he muy 
fremoso e muj leue, e pareçe-me muy pequeno: pêro tomade cuydado 
de nós, e nom o toniedes do meu rrabo. A mym ^ praz mays que elle 

1 O rigor dii synt»xti pedia pnra dh compti^menlo directo, que mui pótie Ecr 
fxemplo. dito antes; iniie o mictor cnu fundiu -ao. e OBcrevcu rtprfhfndfudo em vez 
de quf. reprekftidi; ou OBOrevi;» inutilineitte e dtz. 

* As pftlavnis hv qo eatào cm entre- liiih». 
3 Por engano màao. 

* bugia «at!t em entre-linhas. 

* » No ms. my (falta o til). 



40 FABOLABÍO PORTUGUÊS 



jhore ' pelo cbãao, que uós cobrirdes d'ele as vossas velhacas nade- 
gaas. 

E assy sse partio ha bugia da rraposa. 



Pom o poeta este einscmplo, pello qiiall nos dá amostram ento 
que nom deucmos sseer avaros ao dosso próximo, porque o auaro nom 
•;Fl.3i-r.] faz bem a ssy nem a outrem. Ho auarerato ssempre 'cree que as cou- 
sas pequenas ssejam grandes. Ho auaro be seruo dos jdolos s • dos 
dinheiros ': que quem some aod dinheiros * serue aos jdolos. Ho aua- 
rento faz tesouro, e nom ssabe pcra quem o guarda, e morre e viue miz- 
quynho. 

XLIII. [O vlllão que vac coui o atino á feira] 

[Ejste poeta aos dá este emxemplo c diz quo húu vilãao trazia 
búu asno com ssua cárregua de mercadaria pêra vender na feyra, e 
dizia ao asno que andasse agynha. Este asno com perfia nom queria 
andar e dizia: 

— Antes quero que me mates, que viuer comtiguo em tanto tra- 
'iFiaJ-v.] balho; ca" cada dia leuo carrega, e tu ssenpre me vaas ferindo de 
trás; cada dia me ameaças e cada dia me feres. Por certo eu nom 
quero padecer tamto mall e tanta vergomça! Amtes quero morrer! 

Ho senhor lhe deu tamtas paamcadas, que o matou. E esfolou-ho 
e uendeo o coyro. 



Pom este poeta emxemplo pêra nos amostrar, e diz que nós nom 
deuemos deseiar a morte per tribulaçom que ajamos, porque ho homem 
cree a auer avautagem por rreçeber morte, c ell pejora, porque, de- 
poys que o homem morrer, comem-bo os vermêes, e a alma outrossy 
sse vay ao Inferno, e pejora, ca muyto peor pona he aquela do In- 
ferno quo a pena d'este mundo; sse a alma vay em parayso, e o corpo 
rreçebe marteyro por o de Deus ', a alma está benta; mays o corpo 
sse torna terra. Porem toda cousa sse dene padecer por nom padecer 
morte. 



' Si.:. 

* =8i;iliciit. 

" * No ms. dn-^s com rr [por jr?). 

' leto é: por o marteyro de Deiu. 



: >*- - 



XI.IV fO r«rvo « cm b«l*1 

• fE}8tc imota nos dA esto emxomplo, o diz (lac búu çcrno fn^a '[Fl,8a-r.| 
porqpe os cãaes corriam em tr»s ell : e com pressa oiie o çcruo avia, 
foy-8se meter em liúa catialariça do boys, qne o» càaea num o virum. 

Ho çcrurt rrogoa aos boys íi«c o Mcondesaem «mtre ssy. Os boys 
Itic dÍ.soniiii itue iH&ya sHifguro .st^eria em aigúa mata, que estar aly, 
ou sso fff^ssc as.'ft[iidor fui alírini rrio; 

— Púrqiie aqiiotl que Wis t;uarda e noa dá. de i»)mcr Qerrá logao 
a poDca d'ora aquy, o ase te vir. matar-t'À. 

O çeruo Ibe rroçou que o esctmdosscm. VI os boyfa o cobrirom 
eoni pa)lia. 

A poQca d*ora VBo o mangebu do Sonbor e deu de comer aos 
boya e tornoa-fise a casa. O voruo tomou ç:ram prazer, cnydando ja 
ssecr fora do [)rij»;uoo '. a daua muytas graf;as aos boya. Uúu dus boys 
Ibe disse qae ajnda auia de vT)r o sseu seabor a necr com» estauam, 
o qoall avia nome Ãrg:ua, e avia cera olhos, e sso * d'aqucUa ' podia es- 
capar, era ssejturo. 

Estando cm estas palauras. clieifon Argua e conpo<;itu dV-sguar- 
dar estes boys, e uoo<llics apostando sseu comer; e esgnardaudo com 
diligcm^a fiscus boys, vio oa oornos do çeruo e matuu-bo. 



* Pnm ho poeta este oaixcoplOt rroprobcmdemdo os húiacos que *tPi-8S-v.i 
Dom asouQ âees, e Inova os homêes sabedores e discretos, os quacs 
hani cura com diliscnria de ssuas lazcmdas. K este Arguu, o qual 
avia cento olho», ssiffniticana o ssenbor, que deue auer <;ento olbtis a 
ueer ssua fazcmia. IO quaudo o elle pôde fazer per sey, uom as * faça ^ 
fazer per outrem, ca diz biiu proacrbio: 

STaladante he aqucli 
Qae ssGU avcr uom reo. 

Oa o Renbor que be bom avisado, milUor voe sseas foctos ' qne 
o seroo que ssc cura muy pouco, como fez Arguo, que vio o çeruo, o 
o sseu sertiidur num o vyo. ca nom avia taoto cuydadu como &»cii 
doDo avia cuja ba ^ cousa era. 



uBim 



JSU. 

O lo^fV oorreiponilent^i aos m ckIà um Utiitn eiiliorretefldo. 

luto é: a'tqneua (.'1. ii'aq-irlla ai^tétMrít, d'aquf!la /t\ia. Ainda tioj« le dii 

lalo v: a» fattnttat.—A *ynlNi« neste período tsfíA um Unto Itreijular. 
No itiB. féco». 



PAfiCLABIO PORTUUITftS 



XI.V. lO Juilcu. o rflruilolr* e ns pcrdl^pni 

ffi.aa-r.] • [CJomtA o doutor ' esto emxenplo, o diz que búa jadea qtiería 
passar polia terra de buii rrcy com muytu avor que c.om.s.tiinio Icua- 
va; e rr<}f!:ou a cl-rrcv que lho ãitsse Uúu de ssua cflsa que <i acoo* 
panliasfie ssotcuru, ataa que pa^susíse sseu iTe3'gno. Kl rrey Ibe deil 
btin s$cu sctictcyro, dn quall se liars mnrto; c mandou llic que a(!om- 
pauliasse este judeu bem o ãiclliticute, atua que o pa^Ha^^c eiu sHaiuQ 
fora de ssua terra. 

K quando este judeu foy em bua maca, o escadoyro Urou fora de 
ssua espada pêra o matar e rroubar-lbc sseu avor; e ho judeu Ibe 
dfsse: 

— KoiD me matos, porque, sse me matas, aquollas perdiKes que 
estam em aquolla aruor to sr-usarom a ton scubor, e maudar-fá matar. 

O escudoyro cscaroeçeo do que o judeu dizia, e matoií-ho, e to- 
mou-lbu todo »seu aver quo curnsAr^o leuaua. 

E d'8ly a pouío tempo prcssemtarom a este rrcy perdizes, ssceodo 
a jantar. Esto sseu scndeyro cortaiia amtc ell; e «orno a Deus pronue, 
compeçrÉii este esí-udeyro de rryr, e nam sse podia leur nem fartar de 
rrjT. Kll-rrey sscendo aa iii«sa nom Uie disse nada, c depoys que jan- 
tou cbamou-o a do parte, o porque rria tam furtcmonto aa mesa ' que 
lho disscKsc a verdade. Ho cscudeyru nom lli'o qticria dizer, quo sse 
■(FI.33.V.] temya Elrrey '^ * amtre afaaguos e ameaijas iwoube d'ell a verdade, 
em como matara aqiiell judeu e ibe tomara todo sseu aucr, e que o 
judeu, amtea quo o matasse, Ibe disera que as perdizes que estauam 
na aruor |n a^jiisariam ' a elle, c que o mandaria matar. KIrrey to- 
muu d'eIo gram nnjo, porque amaua muyto o escudeyro: 

— For certo as perdizes te aawarum! 

Depoys ouue consselho coui ssous eomssclheyros: 

— O que mLTei;ia este "scudeyro ? 

K acordarem todos quo morresse na forra. 

K as»y foy o escudeyro enfon-ado pelo mull que fezera. 



Pe[r] ^ este emxemplo n poeta nos amostra que nom façamos bumo- 
(idlo, nem farto, nem outro grauo pecado por cobijça de dinheiros ', 
nem cscondidaraento, nem manjfcMtamonitc, ca do mal qno bninem faz, 
sse em esto mundo nom ba pcemd6n(;a, ba-a no bõulro de Deus. qno 



«Ma. 



A»iai e»lit, por «ttetiso, 00 origtoal. 

T«lvt'C êfjn »e jtfrguHl&u- He por()iie ele.', com pooto R vlrgtiU di«|>fliii di* 

No cooit^çí» áh )Mi:ntia n-petc ac EUrrjf, mas tò tom um r. 
O qnv pjiilio PDir»' rotcbfllu» e»là rola, 
fl int tio loK»r do r vAx tato, 
No nn. drr^. 



r&fiULAUti PUaTOODfcB 



13 



bo suprema justiça, jiuw * as mays de vezes lia petíitulc'ii(;a cm esto 
tmindi» '. [mniiie ninu Iic nhúa <íonsa tanto C8C')mtlÍila niie sso notn 
sBayLba L>iu al^u tempo; o no Avanvellio úiz^: KidiiU occuUnm qtiud 
non rrttitdetuy *. 

Aquell que faz ouii^Min c furtos ti outrcf pecados granes, que 
noDi ba temor de Detis que no» oriun c en\ cujo poder sâom<>s, nom 
Ije ctiriátãao ^ nom 8e púJe iihaniar, ca nom viue a " ley (l'liomciii, 
mai» viue eoiou díaboo du Inferuu, que seapre faz e cuyda em mall. 



JCI.VI [O leA» e o rato) 

' \D]y/. que foy húa voz linu lotmi quo jazia cni liúu mato de so 'tP'-**-'-J 
bua fremosa verdura. F. os rratos ssoblam por cima d'ellc pêra cscar- 
nei,-ercm d'cllt); e clle tomoo a bfia o qucría-ho matar. K o rnito lho 
rroífou que Ibo nom fezesse inall, ca nnni seria ssa bninrra, di- 
zeih^do q]ue [em] ' uigúu tempo llie poderia faxer alífuu bou sferviço] *. 
K n Icoiii o leixou, 8 oom Ibo fez mall. (G hoj rntto lhe dcii mnyias 
graças. 

E d'bf a [pouco] tempo eayo o leom em btiu lai^i que Ibc feze- 
rom oa caçadores i^era o Slbar: c o leom comerou do braadar altas 
vozes. E e8t« rrato. a que oll piirdoAra a UKirie, lhe disso: 

— Qaamtos leões nu mundo ssom uom te podem d"aq«y linrar! 
Maya eu, que ssom a mais vill alimalia do mundo, pella ^ra^ q bom 
que me íu/^oste, te quero liurur. 

E loguo sstiblo c rroco ha corda que tijnhi on pescoço e lliiron- 



' PoAtoque rifst« lo^ar m IvLIrn e»trj* ara pou«o apagNdtl, «ê-«C qu^ i mai, 
m nio mai» ((• muilo ihrnpH majftl. Dv fa*,-(o no me. nlterni mnt cum maú fmaj/t}; 
< f fab. 11X111, (D"riiliila'l<^: •"ini ilfiivini» nmiti mnyoi, ntiói- me dA a coíncideni;>« 
ili\ coqio aqui, A roiijiiixC'1'* "''*< concorrer roín o nrlverbio moy*. 

' Ab diiHB primctrHB pcrnag 4o m estio rotaa> 

' q'«ln£ fiilt>r éf «nie» O*- dit, 

* No in«. yn&rf e uoh ei>tiio em )i)>rovt«lura 

^ N[> in«. xpãfío, ftbreMni^um hkuhI iia iiiudH inutliii ifV'^Xfi^' '^O- 

^ Aqui n ô pr-jimviçjk». 

'' 'A* leltrHM ()iiK [)(>iihi> entfe colclM*t«H, iti|ui « m*,\» adeanl^, f«Ilain, |>i>rqae 
o má. Pkfá roto- ('••in rtrUrAo n rm, notarei uito luío t: luniru ci-r(u (|iiit ps»i [mU' 
vr4 rBl<.'ja no mt, laoli n íiíniiH rt, poí* tia \í tiinn soiitbfH que Unto p'i<]|^ cvr c, 
cornu wiiipiírii imttichk; fxjjiviíi iin int>rKlÍi)Hdv l^--»e tm alyuit Umfto,'^-ft iaiu <:oii> 
firma a raieitda que faço (o aurloi repi'U; iituilas v*-in na inoralídixíe, corno ja 
teino# viato, ce'titr DiiinvrMB <)il fn^iiU). 

* O m*. csiH rolo; todaviít itcjxiís flfl 6o/i td«ffl se rtwtoi lie uida leltra que 
pwle «*r », e qiir iiikTpnrru |iur h |)riin«irii <Je ê*rviçn, ea«(i(o wii tbicvinlurM. 
ro<iK> noiílroB luf^nrcii. A pnlratrA «rrir/çn, aue ats !(• im moraliiiii(t<f, routiriuit fiia 
wlvrjtnlaçto. AgIis 80 u nicíinii eiproriíio bom nrviçv, por exauiplo, ii« Tiib. viii, 
nornliilKfle (no mi. nllcrna òoo com /wo e /om). 



[ho] ' d'aquolle prijguo *. K a leom veeniido]-3s' em " Hberiladc. ilea 
muytas graras ao rrato, b foy-sse asou caniolio. 



Em e«ta liestoria ' o doutor einssJDa os grandes ' boinSes do 
miimdo c os poderasns. qne nom àes\iTQi;cm os pcqncDos que liam |io- 
•IKI.34 v.j queno poder, ca ooaj hc nhú i homem de tam ' pequeim poder que nom 
pnssH sccr pri>nc>yti)So cm alguii tcmpri aa()UOll <\x\r. hc gramdc> e po- 
deroso. Tall .ieriilt:o lhe pòdc fazer Uriu homem poqncno, qnclli'onot 
pude faiter buu graiiitif!. 



XLVII, [O inluliulv doente] ^ 

|Clnmta-as8e qoe liún vez búii tninboto foy docmtc o rragou a 
88ua madre que rruçuase aos dcusíesj ' que lhe dcasem. iMftude ; e a 
inadru lhe rrcaporiidco: 

— Filhn, tu assanhaste oa deoses com us teua pecado:» que ta f&* 
'/.este: fisciiiprc amdauas furUmdo em tall guysa que <>» doi)se6 le dam 
pecmdemça; quamdo tu fazias mall, deuéras a auer medo e denèras 
de busar de piedade e num de crueldade. Ora es piadosu porque Dom 
I>ode» m«ys fa:«er. 

E o uiiubuto Scuu muy triste o cuydoso com sauu emferniidado. 



'[Pi.85-r.i * Km aquostft cstoria o doutor • nnà eius-sina que nom deuemos es- 

perar de fazer lienj pent qoatndo formos doemtes ou velb'>s, pêra nos 
arrepeemiloniios, <-a nitiytas vexes acomteçc que qaaindo n homem sse 
quer arrepcemdor nom pôde. 

Pêro qnaindu saumos mami;4tbos o fortes, dciicmofi de fazer bem, 
pêra depn!-- anetoios hum gualuníom, c rrc-pcmdermo-no9 dos pccadea 
que auemus fectus *, c uum dizeruius: «stio ojc uoui fczerrues bem, 



I Ainda le p«tri:tilM} • pttrív *u]>eiior d» h- 
' Aqwi, prijírv (xr fsftiâo, e nSti coni h «hrrvUitura imu«I, 
' O tiifl. f«iá iKli', I- »'■ liiKlitiK" i"*r>,.)ii>. , xr^tninito-tir »nr *» nn<t trifOB 
que sA podem repreveutar «» «■itipntidadca «iiprrioreK de « c n. 

• 1'odería tniiibein \er w hfttorta, purque n lettra que parece t nSo é 
lM>in niCid»; todavia o iiHitfil no int. á hulnrui. 

^ Kf!*l« togar o mi. «tlA on tnntA drlido, tnu« drpni» ái nnMtna dictiii^ 
Cf gfkún 'O til nl)iau(ri> o n v •> 4) A tfttnrA o* vi*""*'^* vvutttttia »r |>ltMinincutC 
(-■OU) 11 «JtIi1VB£ÍKr tjraiidt t padriotrr ijU4? se li- iiinis uhnixOi 

• ('uiro ■bHÍxo sv 1»? rfftiffí. tiU[>pi'tilto que deut b<]UÍ {> erro por dtvtrt. Como 
M tC, alterna no mi. firu*[r»], oom v, C (ifOitÊ, com t>. 

' No me. |)or etlraeo. 

• No ma «in abrevialura. f/e>a-ap /«ío*. 



FABULARIO PORTUOUÊS 45 

faze Io emos ãc manhãa», que tal] ora cuydaremos â'acliar misericór- 
dia, e nom a podemos aiier. 

XLVni. [O lavrador e n ADdorlnhik] 

[C]omta-8se que húu laiirador sscmcou linho em húii campo. E a 
amdorinlia, quamdo esto vio, fez ajttmtamento com quamtas aues pôde 
auer e disse-lhe: 

— Ueedes oós este linho que aquy he ssemeado? Elle será aazo 
de nossa morte. Vós fazede [e]m ^ tall guysa (Jestroyr a ssememte am- 
tea que ' naça, ca este vilãao quer fazer d'aqueste linho rredes e la- '[PI.35-T. 
ços pêra nos tomar om elles; e esto ssey cu porque durmo em ssua 
casa, e nom sse guarda de mym, e diz esto. 

E as outras aves ouueromna por ssamdia, e escarneciam d'ella. 

Depois a pouco tempo, o lioho começou de ereçer. E a amdori- 
nha chamou outra vez as aues e disse lhe que, pois nom quyserom 
comer a ssememte, que cm toda guisa lio fossem dapnar com os pces 
amte que mays cregesse. E as aues outra vez cscarDcçcrom d'ella c 
nom o qu3'serom fazer. 

Depoya que o linho foy gramde, fez' d'elle rredes e laços, e to- 
maua mnytas aues. Depoys as aues sso rrecordarom do comsselho da 
amdorinha, e diziam: 

— Myzquynhas! Nós nora quisemos creer ao bõo comsselho da 
amdorinba ! 



Em aquesta estoria o doutor nos emsina que [ajuemos' sseer auy- 
sados do tempo quo ha d[e] uTjr *, o nom deuemos de despreçar o bõo 
comsselho de nhúa perssoa ', por pequena que sseia; outrossy nom 
deuemos estar sseguros das cousas que ssom prijgosas, que aqueles 
que muyto sse fiam, aigúas vezes fícam cmguanados. 



XLIX. [Oa Atlicniensuti que elegem uui rei] 

" [Em] a cidade de Athenas foy húu tempo inuy poborada e rri- '[F1.36-r] 
qua e poderosa, e viujam em gram paz. E fezerom húu dia búu gram 
comsselho no quall líuraram a auer hiiu rrey que os rregesse e guo- 
iiernasse como aviam muytas outras provemçias: e assy foy fecto *. 



* Goto o ma. no logar do e. 

I O eujeito grammaticiil ó u Invrador. 

^ No tiiB. está roto o lo(;ar do a. 

* Da expreseito ha de. vvjr, só aa percebe hud. jr, com parte <Ju k e o til. 

* No ms. punoa, tom o p cortado na hasti; {:^per). 

* Leift-se feito. 



íii ■ 46 FABULABIO PORTUQDÈg 

'i ■ 



E depois que ouuerom o rrej' na cidade, derom-lhe comprido po- 
der que tezesso todo aqucllo que qiiysese. l"^ [este] ^ rrey começou de 
fazer cruell jiistir;a: a Iiuus cmforeaua, a outros tiortaua as cabeças, a 
outros fazia tirar os ollios. K o poboo, veemdo aquosto, começaua de 
braadar c chorar, dizcmdo: «Mal fezemos! Que niílbor viujamos da 
primeyra que aguora!». 



I 



•[F1.36-V.3 • Em esta estoria o doutor emssina aaquelles que bem estara, 
que sso nom dcuein de mudar, porque muytas vezes o homem cuyda 
de melhorar, c pejora; e o homem que hc em ssua liberdade oom sse 
deue subjuguar, sse liure pôde viucr, ca uo mumdo nom ha moor tho- 
souro que a liberdade e ssande. 



].. [\m rãtt que pedem um Henhor a «love] 

•lFi.37-r.] * [C]omtasse que hún tenipo as rrãas viviam em gramde liber- 

dade, e muyto a sseu talemte, e com sse comtentauam doesta boa vida ; 
forom-sse ao<;s> deus Jouis e rrogarom no que lhe desse húu senhor: 
e o dicto Jouis rryo e escarneçeo d^ellas, e fez que as nom oavía. 

E outra vez tornarom a ell, e o<;s>- deus Jouis fez deytar húa 
traue em a augua, c ellas ouuerom gram medo e csteuerom quedas e 
meterem aa. cabeças do fumdo da augua; c depois que perderom ' & 
medo, alçarom iis cabeças e virora esta traue e acheguarom-sse a ella 
e ssobiromsse em cima d'olIa: e veemdo que nom falaua nem sse mo- 
via, -eacarncçiam d'ella. 

Tornarom ao deus Jouis, rrogamdo que lhe desse mjlhor ' se- 
nhor: e o deus Jouis com gramde ssanha lhe mamdou húa gramde 
coobra que as comia cada húu dia. E estas rrãas pidiam misericór- 
dia ^ ao deus Jouis, que as líurasse da boca d'esta ser[{ie]mte '^; e poaco 
llie prestaua pidir misericórdia ', ca o de[us] Jo[uis] nom as queria 
ouuir nem liarar. 



Em aquesta estoria o doutor nos emsína c diz que ssom algúas 
persoas ^ que nom conhoçem e bem quamdo o ham, mays amtes ho 



1 o me, tistá roto aqui; todavíx vêein-stí restos de letlras que suppouho 
serem «, e por isao transcrevi por Míe e tiilo por O (talvez ate estivesse em 
abreviatura, j. ó, est', — como noutros muitos logiirus: o eepuço faz suppôr isso). 

* Aqui eetii riecada a palavra em. 

^ A linha termina no meio da palavra: mj-, 

* Em abreviatura: ma. 

^ No logar de pe o ma. está roto. O iiicâmo siiceede com relação í» palavras 
que adiante poubo entre colchetes. 

^ Tuinbem mía em abreviatura, como acima. 
^ No ms. psoas com o p cortado na liaste. 



- w »■ ... 



dcspreçam. K o homem nom conboçc o bem nem o doço sseoam quam- 

do ísúblsi bu am[ar^lJ|; pcro ((Uauido o bumeu bs boa anomtiirani^B, 

' doue lia eouborer. Mehun ^ que está om liberdade noiíi sacTsça seruo, IPt-ST-v.] 

como (ezorom os iTÚas. 



Li. [Jkm |ii»tnlinB, o gnx In» « o mlnhuto} 

[C]omta-5se qtio as itoomhas bún vez tomarutii u gaviam por rc- 
nhor pcra as dcfouidcr da batalha do mynbotu: o o KAVJam deíem* 
dia-as líioylí» bem ; c depois que as dctbmdo'!, tumava d'cllaa e coraia-as. 
E esto qaamta8 cil qiioria. E ii^s ii|'.,i injlmM ', vociinio taiiito iiiall, ci>- 
nieçauam de braadar e diziam que inilhor Ibea ura avcr guerra com 
o inyoboto ca morto seom batallia. 



Km aqucsta ostoria o dotttor tios omssiDa quo deuomos sseor sa- 
bedores ti eíguardar a tim d'aqaeno qtie fazemoit, porque me[IU]or ' 
he SRofrcr jiouuo raall qtiu mii}'to mall. 

* E esta bestotia comcorda com as outras doas amto dietas- '[Fi.au-r.j 



I.II. [O ladra» <• o cãi>] 

[C]oiiitasse que foy húa vox húu ladrom qac queria de nuato 
rroiibar liúa casa. a quall ^uardaiia búii cam: e o ladrom chamaua o 
cam, [c| * que[ri]a lho * dar do pam; o o cam disMi: 

— Tu me queres dar este )mm [-or tall qno nom htdro, e queres 
rronbar esta [casa)**, que licm ssuy quo este pam quu mu tu queres 
[djar ' tem peçouba ascomdida. Eu oom ra[ço codiJcÍi?o ' amizade, ca ou 
amo niays meu penhor que noni a ty; e sse tu aom te partes d'aquy, 
ca b[raaldarey " alltns vozes. 

E o ladrom quis " procii[rar] " * de filhar o que cstaua em "(fias-v,] 
casa: e o cam começou fortemente de ladrar, e o ladrotn fnglo com 
tomor. 



* Pot «xtvato: nnMTw, o que conãrmii o i|ii« m diiae supr», oa nota 1 dm 
fftb. t c lmul^>* lo^r#e. Cf. nhfhSÍ<t n» ÍAh. ssnv. 

' ' '> tos. está nno oikí»' iniubo coU-Iíetcs- 

* rftub<\r f»li% fi>nl (ttbtinclA; •'uta opApiilo. 

' ' A|j"p«lo o i|in.' (w>fiho «nlre citlelir-ifK ; i/ufra esti wn nlin: viu tara. 
' Ilotit <> '\»K piiiihii I iitic f-l^lif ícH. Nii fab, i,t lia tnnibem òráattar. 
** O uií. CBt^ iii]iii iiiti UdU) a|i!i^nda, iniia, «■zamiuAndo-» coin iiiidatlo, vé-M , 
HUC «. fwiHKtí*» piilavra « r«aImeHto çmu, « nilo matt, colmo tainbvoi |>odcrIa pa- 
recer. 

" O ou. Mtá rotQ ODde pouho colcbetct. 



48 



rABOUftlD PORTItODfiS 



Km eaU estoria o doutor etnssina os b^mCes que denem sseer ssa- 
bedores^ quiiQilo (illiani aisfús * cnurarrotros o * senii^os, c ssompre 
deaem dVssíaatdar os] * que lhe dam estes do<;es, ca muytos do^^ sse 
d&m pêra cmi;uaiiareiii os ofíçiaacs: c sscmclIiaDti^nieDt^ os hotnScB, 
quando oferecem e dam al^tia cnasa a sIgOas porsoas \ (tetiein es- 
gu[a]rdar ^ a qiiam as dnii). Ajiiida noa oste doutfor onsinja '' que nos 
deoemos í;:uard«i- do [aicijo' de ii^arf^aiiitoiçc. 



Lllt. [% porm prcaho e a l«k*} 

*iri.39-r.] * iCJomta-aso ^^ve húa porca era preube e esperaua o tempo do 
partu, ]e emcouitnju] ' com liãu lubo; e o lobo Ibc mandou cui [ssjou 
gesto niuytas mesura» e tiortesía. e dísse-lbe que queria &se[õr ssen 
c]omiiadi'e o guardar sschb ttlhfts i|<iaudo iiarisse; e ba '" pon^a Ibe Jon 
irtuytas graças, disemdo-llje que Ibe nom compria sscu aeruiço, mays '* 
dÍ8se-lbe: 

— Guarda te beo» qno te nom chefíues aos meus [filhos], ca eu 
uutn queria que so " eíipe<;ia de bem fa/.er tii fezc!:i8C8 itiall aos meus 
fllbos! 

O lobo, onaindo tacos pBJanraK. emtondco qno a porca cmtemdU 
o mall que ell queria fazer, c partio-sse d'clla 3.<icm coiutcinda. 



Per esto emicmplo o poeta nos amocsta qae nom deoemos creor 
cni quanitBH palauras nos dizem, porque uns tiomét!» rreígnam muytae 
maldades e fíiri^iianos, c miiyias |ial»(ur]a3 8sc dizem m»ia por em- 
guaoareui os b<':m|êos que p[or] outra cnutia. K porem sse diz: «Quem 
noyçiamcnte cree, oeyçio ho chamado e neyçiaracntc " pécai. 



* o Cl». eulA iitn laiitu ii|>a^u(k> no lo^sr dVitat duna paUvraí. 
> A»iin, « iiáo ati/iíii». A imlavra ó u ultima da linht. 

^ micttrrfjfOí e pouco di»tiiiciiiiiitMtU% 

* Ap>i|;a(Io ij (gitn purilio eiitrii riiiclu* «•- 
^ f*oat entn p corUdo i^in liaixo. 

^ ' * Rolo o que ponho etitre colclietev. 

<* Noa sitíos em qne ponho valvbele§ o [wpfil eelã delido ou roto. 

•* «Baíartipo), 

■1 riiiij/« viite {ipUiiioderiiHCotijuiiccJU> «mai»; •« foese adverbio, a conatruccXa 
do ruatO da phtaae seria thr dUtf, 

*' Tamtwui w púdc kr t» tm vvi do lo. 

13 A piilavrn uryt^amrntr ^«tii utn Unto diflicil d« ae iè.t, inaa C C«Tta. Cflr. II 
•4>ittcDva hprpaiiliMa •Quíen nfiamfutt pcfH, DffíaaititiUi M va ai lufR-rDu* om 
Umuúii Nuni-s. Hfjtanea o prvii:ritio$, Lcmlii HÍ2I, H, tOÍ>-r,, a qual coniiimn ub- 
9oloUin«ute a luittira que proponho. 



LIV- [A trrrn qnc iinrp um rAt«] 

• [P]om emxcniplo ' este poeta c diz que búa vez a terra iracliou, •[Fl-3i'-*-l 
e aigúus vilãaos qno li>' estauam açctqua ouucrom ^ram temor c fu- 
girom hy açpfíiua; c logo a poiíea • dora a terra [►arí':» lifiu rrato, e os 
vilãaoa que esto ticoí víam sscg^ararou ssc o ouaorom graiu [[irã^cr]\ 



Per cate cmxomplo o poeta nnn amostra <ine nnm dcncmos temer 
ss-vocvcu, porque ssom muytos bomècs qiio hain iiiayg palauras que 
obras. Ajnila diz tine liúa pequena anicat^a faz a tniiytus homêee ftucr 
gTRin mcdú. K di£ tiúu cmxcmplu: «Cam qiic mnyto ladra, poucas vezes 
murdc». 

LY- (A cardelrn que |tiure e o l»li*] 

' |P]om emxeaiplo este poeta e diz que andanido húu cordoyro'iFllOAT. 
a paçer com outroa cordcyroa, a madre d'estc cordeyro cmeomcndoa 
aseu lillio a liCía cabra. Poaco cstaDdo, voo o lobo e chamou este cor- 
deyro dizemdo ; 

— Filbo, nem aqaò, qne aqai está tua madre que te traz as ma- 
mas clicas do loytc; c Icixa cslar essa cabra fedemte. 

E ho cordeyro rresifondeo : 

— Eu nom quero bir a ty, uom fazer teu nianidado; m&s quero 
estar com esta cabra, a quall me ama como taz uiadro lilba. e dá ma 
do asen leytc quauto me compre. En amo mays estar com esta cabra, 
o nuer segura, que viner a teu mandameotu, que ssey que mo que- 
res matar e i^omrr. 

Ouvindo esto o lobo, partiosse c foy-sse ssoa caminho. 



Per eete emxcmplo este poeta nos amostra c d!z que a mayor 
rriqucza qne no muud|o| sse b[a] * he víuer ho homem ssegnro; e no 



1 No oi». ínempfc, irin nt ou til. por piigano. A rígra í com m ou lil. 
' Também se podem l£r paueti, puie a tns c-aUL mjiií inAitclinilo ; inaa tu £tb. 
uv lí M* (.'larHtDente pouea d'ora. 

* Ai|iii Q tn* eiU dflulii, v li pnliivTH n2o *«< diatlnga* |M«; ma* qnsr p«lo 
(!>•- *'^llu, qiirr pelo M-ntidn, i|1Iit itorqiie «•iii PabiilHO Uií*im mrdlcvnrfl iiua 
c ' LI) n ttila oi-corr* ivmt c mw (I. IlrTvievi, I^» /nhulitUt lnHf, íl', 

* Como eoix iit]i)i um fx-ílav" à* folba rolo, » [•hoto^rnjiliiit u2o ddx* ffirpor 
completo» [lalitvFa i]ue fitlu -. m^a diatingo rostos de leltr&j ^ii« podem cotren- 
poouer a ue k, peto que tranacrcTo tem faentaçSo $$e ha (=3 «bo lem»). 



fe 



60 



FABcusio roariTflCM 



muodo Dom ka major proneza qao o bomom seer rrico e vJacr ssom^ 
pro em ssospoyçom e meão. Ajinda diz qac nom ha no mundo maj 
nobre <:ou8a que lio boo artieestramento, ca lio boiuem qoe tnall aaiaes- 
trado Iic, sciii|irc viuc em rroíodades. 



LVI. [• svnfaor o « '.*ã* velh«) 

"lFi.4tM-T.j ♦ [PJora emxcmplo este dontor poeta e diz iino huii senhor tijnUa 
liúu c«m muytu pregado e iiiuy valcuite, e tamtu ho amaua que cooi* 
sigo f) tijuha muytas \tzch na cama. 

Esto cam veo a eiivelLet^ei. E liua vex o saen senhor o leuou 
com sigilo^ aaeaça e iQostrõu|lhe]' hú[a] Icbro: e este cam nom a pôde 
tomar. O sseu seiíhur uuue ^ram nojo, o tomuD búu paao e começou 
a ferir ' este cara enieueliiieuti! * Depoys que o ferio, o cam faluu e 
disse: 

— Quando cu ora nono, caça nbua ^ nom cacapana da minha 
boca; ora que ssom velho, tu me denias perdoar e devlas-tc lembrar 

*tFl.40ii-r4do boo soraiço qao ea to fiz quando ora qouo. tlntom me * prcf;aiias 
tu muyto; ora que som velho, me dospreças o nom te nembras do 
boo seruiço qne de my rroçebf»to. 



Per ostc omxomplõ ostfí poeta nos demostra qno o amor dos 
maaos homécs tamto dura qnamto dnra o soruiço que o homem lho 
faz. K aquell que sprue os msaos ponto o seraii,o, por que aquell que 
maao senbur bc, som ha om say dtscre^om pcra rrcmuDcrar fiseus ser- 
oidores do seruiçu que d'cUcs rreijebco ao tempo que lhe conprira. 



LVII. [Am lebreM e «• rãM) 

IP]om emxomplo este poeta c diz que eiu húa mata jaziam muy- 
tas lebres; e búu gram vomto daua pcllas amores, e faziam " gramdo 



1 No tna. rom tiguo, uto duu pHlAvnii. 
I Í}oáv [loiílwi i-AÍcheteii, o m*. ■■■(ii roto. 

' No ms. U--Kt eom^ou aafrrir. E' pravKruI C|Ui! o Bef^undo a MJn vBgKtia 
t nio coDklitua cura /mV uuia palavra n/erir. \vna/rnr (• fre(|UGute nu ml. 

* No lita. iTttftfmntie: O líl i|tM> vobrv iir« reprctetil» f oii í. A* f<)nnm» 
r.ruevtl o erurvU niu rouliucídas em [lurlugitiii miUirn; o uotáQ ms. lotn iinutro lug'«r 
crtifuef* \hb. xzii). (juhiiCo« escolher 'U ou •<', '.> tioseo Bu., u tvtu niaHi^U {= C9- 
l&rilf Dl fnb. xKiv, T«in riarll (-> cível) na fab. lk. 

* Lcín te vê itii'1 ou -r/iíta, 

* U sojoico grauimatioal é art»reè. 



rite 



MToyd[o| '. • As Ichre» onnerom grimde temor, e compeçarora âe fa •íFl.40tv.i 
gir R fogiuida ctiegaroai a liutt lago (i'au^ua oiiiUo cstauani mujrtas 
rrús; e sscmtiodo as rrãao que as Icbree) fanfiam. ouucrain gram te- 
mor o liomeçaroiii todaa do fugir e de.vEBrom uso aa augaa. 

Húa d'e9ta{< Icbros, vcendo fagir as rrãts ssem pnrftnê, disse: 
— Nófi fugimos cin vãaol ea tall Ue o uosso medo como* o medo 
d'c8ta8 rrãas que fogem por nada. Gatamos quedas, e ^amos boa ea- 
I>erauça ' ò rejamos que i-uusa nos fez fugir. 

E A3sy estando, virara quo fogiam ssem porquâ. 



Per este emxemplo este doutor nos amoestra que, pnr uhúa jçrani 
tribulaçom qae o homem aja, nom deuo perder a ct:pnran<;a, porque 
ft esperança Uo aquella que mantém n bíimcm qm- ofstAj om (trjibn- 
laçom: e aqncll que perde a esperança. lige^Tamente sse dcspera. 
Ajmda diz que muytos liomées forom no mando em prigao de morte, 
e ouuorom esperança d'escapar, e eseaparom. 



LVlll. {A cabra, • Ilibo v o loba] 

* [P]om emxemplo este poeta e diz que búa cabra leixoo ssou *(n.4l-r.i 
filho em ssua casa, e (,'arrou a purtx e manduu-lbe que ssa nom par- 
iie^Q nem abrisse a porta u uhúa ' pert^oa ^ ataa quu ella viesse. E eomo 
Uio disse esto, fnjr-sse a cabra a paçer. 

E buu pouco estando, veo o" lobo e bateo aa porta, e começou de 
falar como sso foesc cabra, dizemdo que lhe abrisse a porta. 

A cabrita disse: 

— Saae-to d'squi, falso ladroro, e nom te aclicf^nes aqui! |ca tu 
noni]^ es a mynlia madre, mas falsamente tu arremedas a uoz d'eUa; 
o pella fendcdura da porta vejo eu bem que tu es llobo. 

K o lobo vcmdo que o conboçia. foy*8ae sscu camiobo. 



1 Tudo o qae nesta fabula punbo entre w^chetes falu nomr.,poreateeet«r 
rolo. 

' A pho<A(*raphik apresenta aqní nm traço, que corre^iwnde a ama dobra 
do tuB., d« mudo riae adeante de eom in m vú parta ua lettra se^ninte, que creio 
wr o. 

I No Tiie. têpanfi, »em Irafo no p. Xos logaro* tcgnintee, ora eom trafo, ont 
por eit«ii»o. 

* Lfift.jf nrhiía ou itêhiía. 

* No ma. p*oa, lundu i-eqaefido cortar a hattc do p. 
' Dr|M>Í> d« r ha iim ttm;o tein «ignificaç&O. 

'' Onde poitbo colcbeteH, MA roto o m*. 



' 53 FABULAEIO PORTUãDÊS 

Per este emxemplo este poeta nos amoesta que os âlbos âeaem 

'•IP1.41-V.J de sseer obidiemtes aos mandamentos do padre e da madre; e * * diz 

) qae como os filhos som bem aventurados, obeedeçemão ao padre e aa 

1 madre, assy pelo comtrayro ' os que nom obedecem a sseus mandados. 



\ 



LIX. [O vilão que acutllou a cobra] 



t [P]om emxemplo este poeta e diz que bua vilãao criou buu coobra 

í per espaço de tempo. Húu dia deu este vilãao bua cuitelada na ca> 

' beça aa cobra: fiigio * d'elle, e o vilãao afaagaua-a, que sse tornasse 

pêra ell, e pedio-lbe perdom, c a coobra lhe disse: 

', — Eu te perdoo *, mas nom quero mays viuer com tigrao, ca ssetn- 

pre me temeria d'aquy avamte de ty que me desses outra tal ferida ; 

[*Fl.42-r.] e ja com tiguo noui viueria ssegura: pois me * nom foste lleall pmigao, 

ja nunca auerey fiúza em ty. 

E dietas as palauras, a cobra sse partio d'elle. 



Fer este emxemplo este poeta nos amoesta que nós nom deuemos 
comfiar d'aqucllcs que nos húa vez emganam, 'porque assy como nos 
emgauam húa uez, assy uaam cuidando d[e njos ^ emgaanar outra, ca 
ho bem que nos faz o bomcm que nom hc ãell nom se deue chamar 
■bem», mas «mall». 



liX [O cervo e o cabrão] 

[Pjoni emxemplo este doutor o diz que húu çeruo domamdou a 
húu cabram húu raoyo de trijguo, que dizia que lhe emprestara, pe- 
ramtc o lobo ^: c o cabram per medo do lobo lh'o comfessou, e o lobo 
lhe deu certo termo a que lh'o pagasse. 

Acabado o [q]ual ^ o çeruo lhe pidio o dicto trijguo. Ho eabram 



* Kepete-se e no começo da pagina. 
I leto ú: assim aão pelo coutrario. 

' Talvez falte a coobra (sujeito), por equivoco com a palavra anterior; to- 
davia ha outros exemplos análogo» de ntnísttto de sujeito. 

* Passa aqui unia dobia, de modo que d'esta palavra só se v£ poo (estando 
cortada a haste do j)). Nào era perdoo, pois iiào ha vestígios de til. Noutros caec* 
o ms. tem perdnar, sem tii. 

o Onde poiílio folchetes o ins. está roto. 

* Peramle o hJm depttiide de demandou- 

'' O jogar a (pio coricipoiíde q está roto. U mesuio Guccede coin relaçilo &a 
outras lettras que ponho infra entre colchetes. 






pásaijtuo POBTDonto 



53 



di^sae] que nora lh*o queria dar e qu» o comfcsso qu[e} * ' ell fexera *(Fl.43-v.l 
Dom era valioso, porque o fezera com medo do lobo: o es cousas quo 
com medo prometetii * nom ^isom valioBas, so^iindu deruyto da loy. 

K vccndo o jui% » alegaçom, !(Soubã a nordade, e assolueo o ca- 
bram iÍo comfeso que fezcra per mcdu. 



Per est« cmxcmplo este poeta nos amostra qno nom doaomos 
cõoslramgor ' nliúa * pcrssoa que digiia nhúa ^ cousa per fon.-a nem 
per medo. porquo & comlíâsom íecta i>cr medo o temor nnm vali »o- 
gamdo dcrcjto * cauooico e çiuell. nem ssegarodo Deus, o quall bc 
tbedor de todalas cousas. 



LXI. [O viiqurlra que r«wl»iilt> |i«r veu •enlior] 

' [Cjonita o doutor este emxemplo c diz que húu canaleyro, fa- ■[P1.43- 
milfar d'hviu rrey. oonlioçia hííu homem velho que nom «via filbos o 
era ja muyío velho e desapossado e era niiiyto rrico, ca ell ssempre 
fora e era oâçíall d'e/-rrejr, que avia curado sseus caualeyros. 

Rete «anaJp.vro J6e avia grande emvoja, porqtio era nico '. e ban- 
cava t*8da dia uiBDtíyra em como Jlic f<iniasse o que tjjolia; c ffoy-sse 
a cl rrey o acusou íio ilizeuido que quanto ell tijnlia. todo furtara a 
el-rrey, e que de furto era assy rrico. dizendo d'ell moyto mal, e que 
era ladram e homoni de maa condiçom: e qu^ esto jjie queria prouar 
em húu cami>n com a espada ua mãao. 

El-rrey fez chamar o velho, c mandou-Iv^ Quo aso escusasse ou 
entrasse em campo com ell; e sse com ell nom s^c câtrcues^e do com- 
bater, qno buscasse ontrem que sse c»m ell combatesse cm sseu nome. 

O caualeyro era muy valemtc em armas. K o velho rreçeaus do 
Bse combater com clle, ca o canaleyro era muy umnçebo, e cllo era 
mny velho e umy desapossado: e aoidaua rrogando parcmtcffi ca]ffiy- 
gos ' a qne dl Ja fezcra niuytaa boas obras, e nom podia achar quem 
qny[sc{a9Q " tomar a avcmtura por ell, ca sse temiam do canaleyro. 
Kate velho 390 qacrclaua e dizia: 



* Kepcte-M fur na eotncçfl du pBgioií. 
' Uu fidtii te |>(|ue com medo t«r promf tem*),, oii frromflfn, por oatar OO 

plural, esj>rÍD»e uqui por ri tá • impenoiíalidiidi; (Nào tp põd« l^r promtíc- 
mot). 

1 K' diflieil (l«t-t<ltr m no mw, nlí c3*ãtramfer oo como escrevo. 

' * Lcta-ee nrhãa ou n^ iffu. 

f No iiiB Hflo com lil lobre o f (qii« nio lera ponto). M««iupr<!, (lorexLãnBO, 

O Bojaito smoiintillcal i o tvlhn. 
' Onde poulio colclicte» o n*. «»U roto. 

* No ttiM. lâ-sa p«r L-Dgano ^nj/ne- 



— Muytos ajiidoy ao tempo de saeus niest^ros, essy a paremU» 
*[F|.4a.v.l como anij*gos, o ora nom aclio jiaronite nem amj-ffuol Quaindii * " s 

fiirtiioa lie conitra o bomeiíi, todolos pareintes úogem d'c)), corao ora 
laiíem do mym! 

E este velho tijnla Lúu sseu [lastor qae lhe fruarriAna ssen gaaado. 
£ veemdo o pastor sseu ssonttnr aindar tara triste, ouuc fiedailc d'ell, 
e pre^Dtoalho' |)ori|iic andaua cnni tanta tristura. O iidho llic com* 
toa todo 89CU negocio. O pastor, que ntiuc d'cllc doo, lhe disse: 

— Meu ssenhor. ea quero tomar esta avcmttira em vosso nome. 
O uelhrt Ilio deri muytas ^rat.*a8 '. 

Ho nutro dia, do cimi)>ate, inandnu csio i>astor bem armado ao 
campo a combater sso com cate caualeyro. (guando o caualoyro vyo 
ostâ vaqueyro, dissD que a ell seria gram vergomga sac sse muyto 
amdasso combatemdo com este vaqueyro, ma.s que logtio o emtendya 
de TCmçer: e ciiuijieçuu tirar e dar com S3ua espada ^ratiides golpes 
no vaquoyro. Ho uaqueyro cobria-sae o leixaua o bem canissar, e ai* 
gúas vczGs esquyvava os guolpe^ do eaualcyro: esto fazia ell iwr o 
ieiíar bom canssar. O i^aaleyro maiçinaua que 6S6 nom ()odia defcro- 
der o uaqueyro, c cada uea o desprcçaua mais. O caaaleyro tomou 
húu asodairo, e onxaçaoa bo rrostro. porque sãuava. Ho vaqueyro ase 
achegou a e]l. o deu lhe liúa golpe no cotonclo do braço dercíto S que 
o caualeyro iierdeo a força do braço, o arredou ase iK>r do tna, e 
pu8so-8»e a a»eor; e o uaqueyro <o>' * outrossy shí assecmtou no 
*lFL44-r.] caoipo. Uo Qaquoyro * disso ao eaualcyro que sue leuantasse; ho ca* 
uaieyro disse que iium queria. í) uaqueyro, veuodo que o «taualeyro 
nom 8S0 queria leuaiitar, pct^se-ssu outra vez a (ií>eer uu campo. 

Aaqucate combate estava pressemte cl-rrcy com outros muytos 
barOoes * pêra o ueer; e veendo-os 8uibo« sseer, toda a gemto compd- 
çou d'c8carD04;cr. EU-Hey maodou-lboa dizer que sse combatessem. Ho 
missigejTO diase ao uaqueyro que sse al^iaaso ^ e aso combatesse oa «se 
dosso pur vccnçudo; lio uaqueyi-u disso: 

— Eu nom me dou por vemçidu, maa eu ssom vencedor, ca oa 
uom quero dar no homem que s8co asseonitado; mas ssc o eaua- 
lcyro sse quiser aleuantar em pec, eu ssom prestes de me combater 
com olle. 

à gemte essarueçia. Uo uaqueyro foy-sse ao caualeyro e diaae 



1 No pv ÓH ptLgiíM, entr« ornuU», lé-M como rcclumo otl oliunitda «A ftir- 
tDtiiif, i|u« é B expitieaâo que i'oini!^'M. » noVM pHciuiL 

> Km prtgunlou it •yllmlw prf- e6tA *m nVeviíthir», qu« A ÍKUsl, por ox., h 
A» priíiipin Dvllnlifi áe prfçioia, prraJtmte ctc; por ímo transcrevi a ayl\a>hií por 
pTf- c iiSo por ptr-. 

' No ma. gracar. 

* Nu tits. ijlo euni lil bobr» ;'; miu nouttoe In^ruu, (lor i-xleuM, dtrtjlo. 

' Eali dv idhí» o; mIh Mtim é u ultiinn t]*. linlm. O ««iteventD m decerto 
it ««rrevft- outro, ma* piHOu a paIftTra toda piim a linha seguinte, nma ríecmr o. 

I No ma. batvofJt 

( No ms. aieia4te. 



mayu vllaoii, porqae sse nom qncria leiuiiUr; ho cAitaloyto rrogoii 
«o paâtur qQC ]be pcrdoaBSõ, e iiue sso fosse com Dous \ ca cll sso 
daiia por veu<;i(lo. 

Uu imqucyro ase partio do canpo com g^Miide bouirra, e com 
t^&m (irazer; u uelho rulgon majto, c fezeo licrdcyro de t^dos sscos 
bces. É Dom loy luays vaiiao>To. 



Pom o poeta osto cmxcmplo e dix qac nliúii ' nnm dcnc abusar 
nem fazer niall a outrem ssum rrewni, portine quando comfiam ven- 
cer algua batalha, conitiando mays do 8«eu iwdcr t|tic ao podor de 
Dens. perde ". porqne shoo Vqms liu juiz di>n>jco * e defemdedor da 
rrazuoi, e-, poucas vczus púdo o lioiuem • empeetitír aa rrazyui; u muy- *[Fl.4l-¥.] 
las vezes acomteçe iiaa batalUas c|ue os poucos venii;eiri os * mnytos 
quando conbatcm coui rrazcnj. Ajnda diz que nas pcospcridadeã ooui 
UB foulioçem * oa amyg:nos, mas conbuçem-sse nas avcrtsidadea; mos 
ora om este tempo uoiu as« acbani sscoom pcra leuar-)Ue o s&eu, e do 
fiscu noui dar nada: c taaes cuuiu estes num ssum amigos, uma ssom 
lobos rrabazes. E porem diz Saeneca: ilh iísÍ vera amiácki quv mm 
qHctit ex mbits amici/ nieif sollnm bí-iif/t^otemçintn ^. 



LXii. (O r«»pn«f t» i^nriito « « «eu «eattor] 

* [Cjonta noa bo poeta este emxenipllt) e diz fine bún senhor avia |'FI.4ft-r,j 
buu capam may j^uordo e muy fremoâo; e quando o capam sâcmtia 
que esic senhor Tijoha pêra casa. o capam sse escomdia cm lugar 
qae o * senhor nom o visse. 

Húii gatiyam d'cstc senhor progumtou a este capam porque Ui^u 
coando vijoba sseu senhor, o dl ' nom faceia nom avia medo d^elle, 



* ytestPi caao a nos seguíntAH a paJarra eirtí nhrevinds f'di); nu, como na 
f*b. xt Tcm J>em por extt-nto, tranHcre»n Nfsim lninb(.'m «ijiii oom u, e tiio com o. 

' No ini. Id M /wrde, iiu tiii|Ç-> porque o A. txm m iMoAe h Aiit«nor pit- 
Uvm nAiTn, e eUe rxpnaiâ t ímpArÃonalidÁde om com MKH pkluvrk, ora com o 
verbo ao ptuml XiLu Inll&ri lil, poJa a pulurra ii2o oMá do fiut dá linluL, uma pur- 
lu do voinwço (wS na úm kc um ger«lnwiile til). Tudu ficKiia corr^ute, >e, eis vex 
de fomfian aa perde, KarivesM T.omfia mi perdem. 

^ Vid. suprii, uotH... » pai;.... 

> Aqui eiil/i ríncadH > piájavra pauoo», qu« liaba aído «*«iU por «iigana 

• ít o de flt mi& fftlmrrritífciio. 
^ Nesta •4>uti>Df >i , xnte» áv > k y tin «c tutof - Na ]mlHvra facMyiio/rniTinM o es- 

i^Crlba havia poeto (, tna» ri§oou-o. Vc ac qac tOIc snhtn quu ; uilo ora lAltra lutina. 
■ ttftA ritwiiia a palavra cajMj eacríla por encano em ve> dii palarru ò'"*! 
qntt £u poata wn cuUc^linha. 
' Sc o gavíAo. 



mas amte tomaaa muyto prazer quando ria o saea scDbor. Ho capam 

disse: 

— Este nosso ssenhnr fez mat-ar uiuytoa mens irmílaoíi e comeo.'B ', 
e por tamto mo temo t]'eU. ca 6u cy medu qitc fa^^a a uiyiii como fez 
a meus iniiãaos. Esto meu sscobor bc tiraoo e uuni ama ssenom ho- 
mies cruees, e por elle amar ty nom lio marauilha, ca ta es cruell 
como ell cotntra aves, mas cu 8som bomildoao o paçicmtc, e por tanto 
cllõ nom me ama; c esta Ue a rrazom porque fu^o ', a me temo que 
me mande matar. 



P«m o poeta este enxenplo e diz que ohúu ' deuo morar na 
terra ilo tirano, [lorque tiom Im ao mundo mayor prijgno qae viuur 
6sob tiranya, ca os tiranos todos ssom maaoa e oom amam asenom os 
maaos e cruees, os quaaes Iio[8| * coiiisâolbam cajadam do fazer mall 
aaqucles que boos ssom c bem viucm; c quando ucc * aigúu boo que 
lho despraza d» mal, nom o amam de coraçom, mas muytas vezes íbe 
buscam a morto ssem porqné. 



LXIU. [O pastor i- o l«b*l 

*CFLlâ-v.l *[C]omta-Q08 este poeta este emxemplo e diz que liúu pastor 
rrogon ao lobo que morasse com ell e lhe guardasse aseu gaado e lhe 
fosso bcin tiell. Ho lobo disse que o faria de bom talemte com esta 
condiçom, que lau^aíiso ^ fora todolos cáacs, porque antre cUes ' e os 
cãaes ania mortal guerra, e noni pudia sseer paz nem boo amorlo; 
pêro sse quví^ãeiiâe que oU o sernisse bem e lealmente e tbe guorilasso 
may bem ssea " gaado, lançasse fora todolos sseus cãaes, o-u ell era 
poderoso de lhe guardar sseu guaado. Ho lobo dizia esto com gram 



1 Nd m». ú<meo9. Pod)> também tnutterever-se eomi'-ot. 

* Le\»'»e fujo. 

' he\n-íe Hcltuu ou nríiitu. 

* No ina. ho, itiHt «mondo era &0», porqu* O prononie r«r«»>so m (íraas* 
nencdotiRila ante»; o anrlar oo o eaeriht t«ve Uivet ii« memUi o tírano da eonlça 
d» muraJltliulfl, e por ia»o oquivoDOU w. 

> No m». vef. Nilo deve snppor-*« fjne o uiiclor on o escriba teve nn iivfiaM 
o Urano áo coinôço. » qu« UIvoz referiu ha, cotoo vimos na nota «ntccedeiite; por 
isBO deve uee emendai De em uê% i. é, ««mi. o <|ub «e cODfinna coin o fnelo d« 
OB verbos Btr^uihtCB catnKHti tumliem no plurnl, ruferídoa « Uranot. O Vir tantu 
yòÚnB a«r aiiiifuliir t-umv plur&i. 

■ I*ríau>irci haviti-ne eacrilo l«nç>u»em, mu ú m foi dapoia rÍ6e«do. 

' 8c. (u lobot- 

* Depois de »tu hit g, ulrima l«ttr« d* liuit»: o csrribk i« * cacrcvor godlò, 
DiBi passou uUpiiUvrK paru « Unlii wgutntc, Bvm ríscM o g. Cf. iim facto utslogo 
■apra, pog. litt, nota b. 



PABULARIO PORTUGUÊS 57 



malícia pêra comer* do guaado quanto lhe abastasse, e temya-sse dos .[n. 4G-v.] 
cãaes. 

Ho pastor, cuydamdo que o dizia por fazer bem, laofou de ssy todolos 
cãaes. Ho lobo emtrava ao fato sseguro * e nom temya oada. 

Uuu dia o pastor sse partio e leixou o guaado na guarda do lobo, 
e o lobo chamou outros lobos, e matarom o guaado e comerom quanto 
quiserom e parljrom-sse. Quando o pastor tornou e achou tamto raall 
fecto*, foy muy triste. 



Comla-nos hu poeta esta hultima estoria e diz que per afaagos que 
Qos façam nom deuemos leixar as cousas que nos ssom compridoyras 
e de nosso proueylo, e nom deuemos tomar nem buscar aquelas cousas 
peitas quaaes podemos aver dapno ou uergon^a. AJmda diz que os afaa- 
guos que sse fazem malipiosamente empecçem mays que pefunha. 






npucn líber bxopv cum alegorijs. dso gracias. 

Ffmito libro, ssil laux', gloria Cbristo. 
Scriptor* est talís demoalrat litra' qualis^. 



' leto é: entrava scgtiro ao fato. 

* Leia-Bc/rào. 

3 Para o verso ficar completo falta aqui et, mas assim eatá no origiual. 

* No ma. êcptor com r sobre a 2." c 3.* letras. 

^ Esperar-ee-hia demonttrat liUera ou lilera; mas assim está uo manuscrito. 

* Ho fim, para completar a liuha, ha um ornato iusiguificaute. 



ki^v^ kvnto Çit-rtR\ría/pr- V^te»»»j 



•<nMci»-' 



:<**! 



^ivgnOmkA^^cift^^^tffyitSoQ^io l 



t<tnyn.yfA 



ct^tvtiao A4>^%*o nviktiv» vT%^ 
^ ^^SKÃ. cycidox /frnTrho.i &>^w**p^vm»A 

dWT%U»n<> «HAU&ev^i/ftun «JtT;^i^^«M4e 



■fái 












VOCABULÁRIO 



No presente Vocabulário collijo apenas vocábulos das seguintes 
espécies: 

i) aquellcs que cstiío hoje completamente fóra de uso, por cx. : 
guarnimaiio ; 

2) aquellcs que, com quanto não estejam totalmente fóra de uso, 
tem porem uso rcstricto, por cx.: falante; 

3) aquellcs que são formas archalcas de vocábulos ainda vÍvos^, 
por ex. ; coobra; 

4) aquellcs que icm alguma significação ou emprego syntactico, 
diversos dos da actualidade, por ex.: atrar: 

5) aquellcs que apresentam panícularidades orthographicas que 
possam induzir em erro de ptonúncia, pur ex.: rví^nar. 

Pois que o meu intuito não é sá tornar inielHgivel de todos os 
leitores o texto das fabulas, mas lambcm contribuir para o vo- 
cabulário geral da Ungoa portuguesa com alguns elementos, não 
hesitei em juntar frequentemente aos vocábulos notas lexicacs e 
ctymologicas. 

Os algarismos romanos referem-se aos números que tem as fa- 
bulas; os algarismos arábicos ás linhas de cada fabula, posto que 
estas não estejam numeradas no texto' (não os faço referir ás linhas 
de cnda pagina, para facilitar a separata que tiro d'este artigo, pois 
que cila ha Je levar paginação nova). 

Como, por um lado, a orthographia do texto é bastante variável, 
pois ahi se Ic, por ex. hesioria e esíoria, se e sse, llobo e lobo, comta 



' Os leitores qui.- quiserem seguir com attcnçSo o tjue digo no Vocafovilnrío 
devem numerar ns linhns das fiibul.ns (de 5 cm 5, por cxomplo) 



6o 



PABUlJ\RtO PORIDGUl^S 



e conta, ssiluado e syluado; e, por outro lado, não havia vantagem 
cm conservar na ordem alphabccica estes archaismos orihographi- 
coK, que não revelam difTcrença de pronúncias, e são só para os 
olhos: uniformizo a onhographia dos vocábulos segundo as regras 
usuaes, e Índico entre piírenthcsis, adeanic dos respectivos números, 
a orthograpliia originaria. 



aa, asa: xxm, 3o. Aliema com ala. Os aa são etymologicos: 
lat. ala. 

aar, ar: iit, i5; xiv, a (haar), 5.— Os aa poderão ser etymo- 
lógicos: lat. ne r c. 

aaz.Vid. a\. 

aaxo. occasião, causa: xi.viu, 4. Os aa podem ser ctymoto- 
gicos. A respeito do eivmo vid. Kíiriing, Lal.-rom. Wb., 2.* ed., 

S 164- 

alianailftr, abano para enxotar as moscas: x^iii^ 31. 

al>aKtar, bastar, .ser sufficiente: lxiii, 9. 

ahiilver. revolver a agoa para a turvar: n, 8. 

abúter. f., abuirc: vi, 8. — A ahúter corresponde ahútere (pi. 
ahiiíeres) nas Décadas de Barros: vid. Dicc. da IJng. Port., publi- 
cado pela Academia das Sciencias. Comquanto abutre, nas suas 
differentes formas {ahútere, abuitre, etc), seja masculino nos AA. 
clássicos, aqui é feminino: cfr. abesíru^ ou afesíru:^, que ê também 
masculino e feminino (por intluencia de ave). O facto nada tem 
estranho, se nos lembrarmos que em loiim ha vários nomes de 
animacs que estão nas mesmas circunstancias, como, para só citar 
nomes de aves: acdpiter, anser, perdix, phoenix, ttiríur:vid. Neue, 
Fonnenlehre der Lafentischen Sprache, i (.1877), Õ12, 6i3, 61 5, 
617* Para a adopção do género feminino podia concorrer o cuida- 
rem muitos autores antigos «que estas aves todas são fêmeas, e quei 
sem commcrcio masculino concebem unicamente do vento», como 
diz o P." Manoel Consciência, Academia Unttvrsal, Lisboa 1732, 
p. i33. — A par de abuitre, com as suas variantes, havia tambcm 
era port. are. avuUor, no Canc. da Vatic, n." 32 1 (avuytor). 

acelro, i\,o: xxxvii, 3 (aceyro). 

acerca, perto (adverbio): Liv, 2 (açerqua). Esta accepção ad- 
verbial está hoie antiquada. 

achegar, aproximar: xl, joj l, 8; lxi, 40. 

aod. cá: lv, b (aquo). 

acostar, encostar, chegar: xxviit, i3. 



FABUl.ARIO rOBlUGUÈS 



.idormcalAr, adormecer: xxxn', 19. 

niliibar, arranjar, (ratar: xi, 9 (em sentido ironicQ). 

afaago. afago; xi.v, 21 (afaapuo). Os aa sáa ctjTnoIngicos: cfr. 
hcsp. ant. afuta^iat; mod. hahgar. Origem germânica. 

aDraiianientc, com afinco, encarecidamente: viti, 5. 

arremoMenfar, aformosear: xx, 7, 14. 

agluha, de pressa: xuni, 3 (agyntia). Alterna com asinha. 

ai: 111, 20 (ali), na phrase: »all dizem com as lingoas e ali tcem 
nos seus corações» =^ uma cousa . . outra cousa. 

ala, asa: xxni, 17 (aliai. Alterna com aa. Latinlsmo. 

alft, lá: XXXVIII, 14 (alia). 

aloaldr: xxxiv, ti (alcayde). Nas instituições mcdíevaes era 
o governador de um castello nu provincia. A definição ajuda o ex- 
pressão que se lê na 1. 36: «nem percades por ende a terra». Cfr. 
A. Herculano, Hisí. de Portugal, iv (i.« ed.), i34-i35. 

alilea, aldeia: xii, 2, 3. 

alr^a^om, a]tegi.tção: i.x, 9. 

alevanlar, levantar: xxi, 9 (•nos nom aJeitauíemos'). Alterna 
na mesma fabula^ 12, cora lei>antar (anom sse podem leuamlar»). 

alg*, bem: viii, 7. Propriamente algo i o lat. ai i quod, mas 
no nosso texto tem a significação que indico, i. é: o lobo faria 
muito bem á grua, dar-lhe-hia muito dinheiro, ou outra cousa de 
valor. Algo tequivale a alguma cousa, fazenda, bens>: 
Dicc. da Ling. Pori. de Moraes; receber algo, ib. Em gallego ant. 
«et que gannaua grand' algoo: Cantigas de Aftbnso o Sábio, 11, 
2g6. Hcsp. ant.: «panir sus algos» ^^ sua fazenda: Dicc. da Acad. 
Hesp. — Cfr._;ftrfa/^o filho d'algo. 

aisna, alguma; pussim. 

aigúu. algum; xi, 3. Os uu são ciymotogicos : vid. s. v. i7w. 

alhco, alheio: v, 11: xl, 29. 

allmalla. animalia: xvi, 9; xt.vi, 12. No primeiro passo alterna 
com animalia. A forma antiga mais usual é esta ultima e alimária, 
por cx.: no Leal Cotiselbeiro* c noutos textos. 

alimpar, [impar: xxiii, 10, 

amaoNlramealo, ensino, dou trina mento* xli, 2^. Cfr. o voe. 
seguinte. Alterna com ameestr amento. 

aniarK^rar, ensinar, doutrinar; xxxii, 3o; xl, 27. Alterna com 
amcestrar, amoestar e amostrar. 



< Quando eu cilar o Leal Conselheiro, entenda-s« <jii« sigo a edi^o de J.-I. 
Roqueie, Paris i85^ (comquanto não seja isenta de defeitos). 



62 



rABUtARIO PORTUGUÊS 



amar, desejar: lv, lo, na phrase «eu amo mays». Cfr. fr, j'aime 
micttx. 

amca^^ar fintran.sítivamente), fazer ameaça: xi, b. 

»mvvKÍrnmenín, ensino, educação: i.v, i8. Alterna com 
amaestvametito. Cfr. amosímmento. 

amerilrar. ensinar, educar, doutrinar: xiv, lo; i.v, 18. Cfr. 
amjt'S/;\7r, amoesí^ir e amostrar. 

aniocstarf admoestar, avisar, cnsin.tr>cxhortar: prol.* i5;xix, 
i()l XXII, í). Cfr. amaesirar, amecstrar, amostrar. 

nmorio. cordialidade: i.\iit, 5. 

ainosIraiUFUlo. ensino, exhortação: xui, 17. (^fr. amecstra- 
mcntn c iWtacsframctito. Tambcm em hcsp.: amoslramknto. 

amostrar, ensinar, avisar, mo&irar: xxxiif, 12; xxxvtii, 1; 
XXXIX, li XXXV, 12; xxxvt, 12. Cfr. amoesíar, ameesírar c amaes- 
trar. Em hcsp. are. amostrar no sentido de <'insiruJr ô cnsefíari)^ 
vid. Dicc. da Acad. Hcsp. No Poema de /'entan Got^ale;^ ed. de 
Marden, Baliimorc k)o4, vem demonstrar na mesma accepção, 
estr. 2. — Nas fabulas de Maríc de Krancc cnconlra-sc lambcm 
o correspondente vocábulo mustrer, era correlação com essample 
«exemplo», como nas nossas, mas significa «mostrar», i. contar » : 
tc por essample li mustraj'., prol.; «cest essample vus vueil mwí- 
íreri, iv, i5'. 

aadar, ir: xii, 2 (amdar); xxvr, 1 (id.); xxvii, t (xá.), 11 (id.); 
XXIX, 2, 3. O quarto passo é: «amdava a caçar das alimárias aa 
ssilua ^ ia ao bosque caçar; cfr. no Leal Conselhoh-o, cap. vi, p. 47 : 
ase me vem híja voomtadc de hir a monte ou caça«, onde Air a 
monte, que significa «ir á caça grossa», representa a forma primi- 
tiva da expressão. Km Ítal. andare significa lir»; o Dkc. da Acad. 
Hesp. trar também aw^íar = «in, em accepção familiar. 

anojar, enfadar, molestar: xxin, ii). 

aato. Kmprcga-se: 1) como preposição, e significa — perante, 
deante de: xlv, i<> (amte); a) como adverbio, e significa — anterior- 
mente: u, 10 acomcorda com as outras duas amte dietas**^ e — pelo 
contrário: lxu, 7 (mas amte); 3> fazendo parte de uma locução con- 
junccional, anic que — ^anies que: xi.vin, i3 (amte que). 

antrc, entre: iv, i (amtre); xvi, 4 (id.); xxx, 3. 



i Vid. Die Fabeln der Marte df Frawe, Cil. de KarI Warnke, Hallc 1R9S. 
Cfr. também L. Poulei na Zeitsck./. rom. Philoi., xxix, 3iõ. 

> No ms. está lambcm cm duas palavras, i (oje escrevemos anledicto, conside- 
rando ante- como prefixo, por isso que ante \Á. não se usa como palavra avuha. 



PABULARIO 1'OltTUGURS 



63 



a|»ONt.ir, concertar, compor, dispor: xi.vi, i8. — Km hcsp. are. 
apostar «componur*» «ataviar» ele: vid. Dicc. da Acad. Hesp.— 
Dcriv. do lat. positus'. 

nqnrl. aquelle: x\xi, 9 (aqucll); xxxn, 23 (id.); xxxiv, 1 1 (id.). 

aqucllo. aquillo: iv, S (aquelo)j xvi, 17. 

aqiierniar, aquentar, aquecer: x, 8. Os ee são etymLtlugícos: 
are. acaetiíãf. Deriv. do lat. ca(l)erc. 

aqiie»(a, aquesle. esta, este: passím. Alternam com esía 
e esie, sem diíTcrcnça de significação, como se vè d'este3 exemplos: 
tA^ucstc Hxopo», prol. (5; 'KsU' Kxopo em aqui^te sscu líuro», 
prol. ij\ aF^ assemelha eslc sscu Ijuro, prol. i3. Na moralidade das 
fabulas 1£-se a cada pusso: aPcr aqueztã hestorín», iPcrcs/d esto> 
ria», «Em aquesta hestoria», iKm esía hestoria». O emprego de 
uma ou de outra d'estas formas dependia provavelmente do gosto 
do escriptor, que assim variava o estilo, 

aqiipsto, isto: xux, 8. 

ardlmenío. atrevimento, ousadia, audácia: XXIX, iS.Cfr.art/íV. 

anllr. atrevimento, ousadia, audácia: xxíx, y. Cfr. ardmiaitv. 
A palavra ardir creio que não foi ainda registada nos nossos dic- 
cionarios; pelo menos nSo vem no Elucidário, nem nos Dícciona 
rios da Academia, de Moraes, do Caturra, de Cortesão. Propria- 
mente arãir è verbo, mas está aqui cm acccpçSo de substantivo 
(verbo substantivado). — Cfr. fr. ant. hardir e mod. enharãir; ítal. 
ardire. De origem germânica: cfr. got. hardus «rude», «áspero»; 
ali, hart «duro», «fortcii. 

Arguo. Argo: xuv, iS (Arguu), 17 (id.), 22 (Jd.), 2i) (id.). — 
Vid. a annotação que adeante farei a esta fabula. 

arMWzetIo, armadilha de apanhar peixes, ou mais provavel- 
mente «anzoU: xxxiv, 47, 4S. O segundo passo diz: «o pescador 
pesca os peixes com o armu^eUo»'*. 



■ t>ígo qu£ a palavra vem de p o s 1 1 u s, c não de posta, por causa do he&- 
panhol. Em port. are. ha aposto ng seniiJo de «adciíutidou, por ex. na Lenda 
4e BariaSa <■ Josaphate (jfc), scc. xrv, ed. de Vasconccllos Abreu, p. li: «deo- 
Ihe . . mancebos auios e apostas*-, mas aqui a palavra tem como eiymo o lai. 
apposiius «apropriado*. 

* E&ia palavra è nnn duvida a mesma que anttajtllo, citada por Viterbo, 
Elucidário, s.v. «santeUDa, como vinda nas actits das cortes de LisbOA de i^jl^. 
Rcsia porém saber se é eflectivamcolv ítrmattUo, ou se estará a por u. Consul- 
tando eu sohrc o assumo o Sr. Pedro de Azevedo, Conservador da Torre do 
TfKnbo, respondeu -me o seguinte: «Não encontro as acta^ das cõrlcs de Lisho* 
de 143.1. Mesma ellas nSu foram em Lisboa, mas &im em Leiria e depois em 



64 



PABULARIO PORTUGUÊS 



arrefêefl, reféns: xxxviii, lo^ ii. 

arreppFoder, arrepender: xlvii, ia, i3, 14. Alterna^ ib., i&, 
com rrepemder (.«« iTepemdermo-nos>}. — Os dois ee são ctjTnolo- 
gícus: lat. rcpenitere^^Tc-pene ler(e}. (Km rrepemdeiuno- 
no$ C3crcvcu-sc só um e, talvez porque rrepem | csiá em fim de 
linha no ms.l. 

arriha de (^=a riba de), acerca de: 111, 2; x, 2. — Também 
podia transcrever-sc a rnba de. 

arroldo. ruido, sussurro: tvii, 3 (arroydo); briga: xiv, i3 (id.)i 

XXIII, 40- 

arleOcloMB, artificioso, feito com arte, distincto: 1, 7. 

arvar. arvore: xiti, 4, 9; xv, 1. 

asrondfr, esconder: prol. i8(ascomdidoi;xuv,6(ascomdcr); 
Lii, õ iid.|. Alterna com esconder no prol. 19, e cm xuv, 9. 

asinha, de pressa: xv, lo. — Vid. agivha. 

asserotar, sentar: xix, 3, 12. — Os ee são etymologicos : lat. 
'as-se idi c n ta ne). 

asKírmbrado, reunido: xxx, 13 (assenbradas). 

asai, assim: prol. 18 (assy)^m, 3(id.); tão: xv, 6<assy)^xxxvii, 
8 (id.). 



Snntarem (J. P. RiVicirrt, Memoria sobre as Fontes de Codtga PhHippino Tiãá- 
Memorias de Lillerat. Porí., ii, 8o). D'esta>. curte» ha uma certiJiio de t.ii!.t«ntei 
capítulos no carturía da Camará de Pnrio». Na Rihtiniheca Nacional de l.ísboi, 
secção dos Miinuicritos, existe uttiíi i:õpia das netas das mencionadas cnrtes de 
Santarém, segundo a ciiadn ceriidiío da Cnmora do Pono, meã, num rápido 
exame quu nclla \\t^ niio encontrei lá infeU/menic nenhuma das ròrmas da pa- 
lavra de que ãe triíia. — Esta é possiveC que deiapparecesí-e do uiio geral; pelo 
menos não a encontro no glossário do Estado Actual das Pescas em Portugal, 
de Baldaque da Silva, Lisboa 18.31. No Dicc. áa Ung. Porí. de Fonseca & Ro- 
quctc vem, como palavrii arcuícâ, <:irnuisello (com j), a que se dA a seguinte 
definição: «armadilha nu redL- Jc pesca"; mas provavelmente ÍsCu baseia se no 
Eluciáarin O Caturra, nn Novo Diccioiíario, s. v. •nrninsc/o", repete, resu- 
mindo-o, o tjue diz o Dicc. preciíado; sii nSo uppóe A pnluvra uotu de arcaísmo.— 
Já depois de composto na imprensa o que Uca dito, se publicou outro texto 
em que »e 1€ armujello. no sentido de «anzoU: vid. Rev. Lusil., viii, 247 (lextQ 
do sec. xiv). Em vista de csiu repetição da lòrma arniu^eSlo, com u, é possível 
que o arma^elh do Elucidário seja inexacto, e portanto os armasellos dos díc- 
cionarios que n copiaram. — T.ilvcí armujello derive do lat. ha mus -anzol* 
por cruzamento oní a patavni armar (c armadilha). I n.; ide n temente notare 
que ancinho (variante popular etteinho) me parece rcsu1lr.r do cruzamento de 
hamu.s ou *hamicinus com uncitnis (que vive no it. unriíio), d'onde 
viria •(hianciniis.que explica juntumenle u it. jnrinu. A mesma familia pcr- 
encc anjol, e pertencerá também engafa (giill. angaço, htsp. anga^ói. 



FABUtACIO PORTUGUÊS 



65 



aflsolTcr, absolver: u\, 9. 

!i»<r«t«, de mau agouro, mofino: xv, 11 (id.); xxii^ 3. 

alà qH«, até que: ix, 4 (ataa), 8 (id.); x, 11 (id.). — Os dois 
aj de ii/cM são orthogrophicos (para indicarem a aberto) e não cty- 
mologicos: arab. hatta'; cf. hcsp. are. ata. 

alanto (d'), tanto: xli, 38. Cfr. d'atanto e atonto em O. De- 
nis, Liederbuch, ed. de Lang, vv. 817 e (pS. 

atrevcs^ar (se não ha erro no m*.)» atravessar: vut, 3 (airc- 
uessar). Alterna com írauessado, viii, 12». 

anga, agoa: x, 2; 11, 6 (augun); xxiit, 6 (id.); i.vn, 4 (id.). — 
Kmbora se escreva por ve;>!es augua, soava auga, como o prova x^ 2 
(e é ainda hoje forma popular); -gua é mera representação de -ga. 
Vid. ndeanie a secção da Onhographia, c o vocábulo seguinte. 

aiiiEa<*<!nlo, aguacento, aguado: .xix, 4(augaçemto).VÍd. ãuga. 

av.in^olho, evangelho: xlv, 37. Ainda hoje é forma popular. 

avautagem, vantagem: xtJii, i3. 

avaute (il*). pcrunie: xxiv, 2 (dauamte); xxviii, S idauantc). 

avenlnra (per), por acaso: xxiit, 32 (auentura). 

avemliiran^a (bem), bemestar, prosperidade: vii, 12 
(auemturamça): xvi, i3 (aucmturança.s). 

arer. Vid. harer. 

avrrfthlaile, adversidade: i.xif 69 (auersstdades). 

avir. advir, acontecer: xxxiv, 4 (aueo). 

avondar, bastar; 11, 10 (auonda). ~No mesmo sentido se díz 
ainda hoje na Beíra-Alta bondar. 

az, ala, likira: xxx, 4 (aazcs), 5 (id.). — Em aai;fs os dois aa 
são meramente orthographicos, pois o etymo esta no lut. acie-. 



13 

blbera. vibera; xxxvii, i, 3, 4. 

boglo, bugio: XXIV, 2, 3. Também ib., 7, se lè bugio, com tt, 
como hoje se escreve. 

boo. bõo, bom. Não ha duvida de que estas duas formas da 
mesma palavra alternam entre si. Os exs. de boo são muito nume- 



> Dozy & Engelmann, Gtossaire des Mots Esp. et Port. deriv. dt fArabe, 
Ldden 1869, p. a86. 

I Cnmo em viii, ti, a phrase é na guargamta traufSsaJo, poJería iiipp6r-se 
que Iraitrssado ebtiin;i por atrauesiado, tc-ndo huviJo na escrita fusno ilo prí- 
meiro a com o a final Jf guargamta; todavia Moraes cita travessar, e ha em 
gallego ant. trm'^ssar, em hesp. uit. travesar em fr. Iraverser, etc. 



66 



FABDLAUO POirtC^S 



roaoa: ii, 28; xi, 3, 13; xix, 23; vxm, 3o, 39; xxv, 16; xx\-u, 27, 
3o; XXX, 18; xi^ 3; xlvi, 5; l., 18; lvi, 11, 14; ucn, 20; e no plu- 
ral (hoos): XXVI, 20; XXV7I, 27; Jixx\'i, 14; Lxn, 20. Tal abundância 
de exemplos mosU'a que em boo não falia til, c que pelo contrario 
essa fúrma era viva, como hoje o c ainda no povo, simplificada em 
bá lUeira-Alta); em gallego mod. bó. Kxemplos de Mo. escrito por 
vezes bijom e bom: xxv, 2; iv, 20*, \an, 21, 22; xiv, 4; xxvii, 2O. 
Ha uma fabula, xxvii, em que, como se vê» concorrem boo (duas 
vezes), boos c bom; ha outra, xxv, em que concorrem bóa e boo. 
Os ao são trtymologicos: lai. bo(n)u-. lat. 'bono- ^ bonu-. 
O feminino c sempre boa, que corresponde a boo: n, i3; ih, iK; 
XXVII, 3o; no pi. (boas): xxvu, 29*. 

hraadar. bradar: u, 9; xni, 13; xvn, n. Mas bradar: xvi, S 
(bradauu), sem ser ctn fim de linha; provavelmente escapou umú. 
— Kxemplos de braadar empregado iransítivamentc: xlvi, 9-10 
(ibraadar altas vozesi); ui, 8 («eu b[raa]darey' altaa vozes*). — 
Em braadar os aa sSo eti,'mologicos: cfr. hesp. baladrar, onde se 
mamem o -/• eiymologico que desappareccu cm português. 

branrhete, certo cáo/Jnho: xvit, 1 (bramcheie), 2 (id.), 8 
(id.). — Ksta palavra, que não encontro archivada ainda nos nossos 
léxicos, é sem duvida a mesma que a hespanhola blancheíe, a que 
os díccionaríos dão a significação de aperríllo ò gato btanquectnos», 
•perro faldcro»'. O eh mostra que cila velo do francês (blawket) 
para as lingoas da Península. 

braMÍamar, blasphcmar: xxxm, 10. 

biirg^Ji, burguês: xxxvi, i, 6, 7, — Como a palavra se repete 
três vezes, é mais que provável que não haja erro de g por gu. 



■ Se na língua accu&t exi»te bô (pop.) e boa, que correspondem a boo, a par 
de from c bóa (pap,), que correspondem a bóo, não admira que no ms. se encontre 
boo conjuntamenie com bSo. Hoje é ainda frequente em l.isbô.-i ouvir á mcsoia 
pcsscKi (nus próprias classes que tem ccria L-ducaçúo) bSa u par de boa. E 
quantas inccrtez&íi não temos na onhogmphia, correspondentes ás incencxas 
da pronCuibia? Por ex.: noiíe e noule; Doiro e Douro. Nus na&aes citarei lage 
(forma usual} a par ilc lagem jtiuc cambem icm algum uso, c que c me»mo 
dada pelo Dice. de Rimas de K. de Casiilho e por ouiros). Iguulmenie é frequente 
cm Lisboa, axé na gente culla, rnenfa (que porém náo se escreve) concomitan* 
temente com mesa. 

9 Restitui b[r<ta]darey, com dois aa, e nSo com um, porque o espaço os 
exige. 

^ Oiee. ác la Leng. Cast. da Acad. Mcsp^ s. v.; Nufvo dkcion. de R. Bar- 
da, B.V. 



FA&01.AI110 PORTUGUÊS 



67 



embora na fab. 111, 8, esteja legemos=^ leguemos 'i de facto o uso 
geral do ms. é representar por gu o g guttural. Com burgés cfr. 
biirges ero Viterbo. Elucidário, s. v., comquanto ellc a par cite biir- 
guí's^\ e cfr. principalmente hesp. are. burgés^ e fr. burgeois. Deve 
entcndcr-se que o burgés do Fabulario, a ser exacta a explicação 
que dou, vem dircctaraemtc de burgense-j como o hesp. c o fr., 
ao passo que a moderna fórma burguês deriva de burgn; lambem 
em hesp. mod. ha burguds, que, do mesmo modo, vem de burgo. 
biiseari emprega-se intransiti vãmente cm x.vi, 3. 



O 

1. ca, porque: xx, 11; xu, 9; ctc. — Do lat. quia ou quã. 

2. ca. do que: xvii, 17.— Do !at. qua(m}. 

«TSibroai, cabrão, bode: x\xii, 17. Na mesma fab., 2, empre- 
gasse bode como syoonvrao. Alterna com cabram em lx, 2, ã, to, 
a não haver, como parece que não ha (pois cabram repece-se três 
vezes), erro de d por o. 

vs^OMli occasião, causa: xxxix, 11, iS. Em n, 24, buscar cajom 
{comtra rraiom) ^= buscar pretexto, 

can. cão: V, it; xxxvi, 9. A pronúncia era certamente ea (no 
pi. cãaeft: xxxiii, 6); cfr. gall. cait (== caí, hesp. ant. can. 

carnl^>a. carne morta, em grande quantidade: vni, 2. 

garrar, fechar-*: lviii, 2. 

rárrCjEia, carga: xi.iii, 2 (carregua). 

carretar, acarretar: xiii, 8; xxix, 10. Comquanto nas phrases 
onde enira esta palavra as palavras antecedentes a ella terminem 
cm a, não parece que carretar seia erro por acarretar, pois Mo- 
raes cita também carretar. Cfr. o subst. vb. carreto, que faz prc- 
suppor esse verbo. 

caMO (|iep), por acaso: xxxiv, 4. 



' A forma legúmos ^ leguemos é de origem litteraria (a ftimia populnr «jue 
lhe corresponde é Hemos), e por isso nimcâ >ihi g podin sor palatal; o conjiin> 
Clivo baseia-sc cm legar, por iinalogia com os outros coníunctivos Ja i.' con- 
jugação. 

> Neslc caso c cm *t/r^es, Vilurbo escreve por êrru y cm vez de ,1. 

3 Vid,: Oicc. iin Aciíd. Hesp., s.v.; M. P\da,\,Oram- Hist. Esp., Matlrid i<>a|, 
pL taO; Me)'cr-LUlíke, Gram. der Rom. Sf>r., 11, 5 473. 

4 Km porttigvics moderno (pelo menos nu Beiral, cerrar, fallnndo de porin 
ou janella, Mt^nificu «lechar incompletameiíie-, ■encús:ar> ; mas na íabula Je i^ue 
SC trata, çarrar significa ■fechar compietnmcntc», como o hesp. cerrar. 



G8 



FABULABIO PORTUGUÊS 



castlgamcBfo, acto de castigar, correcção: xxxvi, i3. — Víd. 

casiigar. 

caistlgAr» emendar, corrigir.— Md. outros exs. clássicos doesta 
accepção cm Moraes, Dicc. da I.in^. Porí. K a do lat. c a s i i g a r e , 
cm phrases taes como casiigare tntia. 

<-eleK<rlaI. celestial: xl, 34 (cetestriall). 

ccate. cem: K^ento olhos* (bis), xliv, 23; mas esta expressão 
alterna com «cem olhos», ib., tb. — Na lingoa moderna caito em- 
pregasse como substantivo, mas nos textos arcaicos, como aqui, 
eenío pòdc emprcgar-sc adjectivamcntc, como em latím, no sentido 
de «cem». Outros exs. dos séculos xiv e xv são: «cento annost na 
Vida de Santa Maria Egipcia*\ «Nosso Senhor outorga .. cento 
por húu», no Leal Conselheiro' . 

certo, certamente: i, 7 (certo). Adjectivo adverbial. 

vcrvo, veado: xuv, 1 (çeruo).— Que a palavra foi muito usada 
em port. are. mostra-o ainda o onomástico moderno, que mantém 
como que estereotypadas muitas palavras antigas, neste caso Cerva^ 
Cerro, Cervos, Cerveira. 

chanto. pranto; xxxiv, 7. 

«•Iipo. clicio: Lv, 6. 

cobllça. cobiça: v, 1 1 (cobijca). Os dois ii são ctj-mologicos: 
*cupi(d)iti u; cfr. prnv. cobe:^e^a. A nossa palavra tem aspecto 
scmi-popular. \\á. infra cobUçar. 

cobltfar. cobiçar: xv, 8 (cobijçar). — Vid. supra cobiiça. 

rollo. pescoço: viu, 1 5. — A palavra hoje è pouco empregada 
neste sentido. 

color, côr: x, 5. — A palavra apparece noutros textos antigos, 
por ex.: nos Ined. de Aicob., 1, 234; no Leal Conselheiro, p. 2C4 
(traducçáo de um Tratado de S.Thomás). A par de color cncomra- 
sc lambem na litteratiira antiga frequentemente coor. Na Crónica 
Troiana (gallego do sec. xiv) ha igualmente color e coor. A formo 
cc/or c mero latinismo. Só coo$- é legitimamente popular (mod. còr), 
pois -L- latino syncopa-se. 

como, quando, logo que: xxvii, 12. 

tfoiíipaaha. companhia: xl, 5. 

coiuparaçom. comparação: xi, i5. 



1 Ánciens Textes Portugais, publicados por J. Corou, Paris 188a (extr. <la 
Romatúa, xi], p. 13. 
> Cap. XXXII, p. 190. 



FA&ULARIO PORTUGUÊS 



69 



comiicçar, começar: ix^ 12; xx, í\ xxxiv, 44, - AUema com 
começar (xvii, p). 

roniprlilo, cheio, provido: xxxrv, 3i; completo: xi.iXt b. 

foniprlilolro. necessário, respeiíantc: i, S-y; i.xin, 18. 

foiU|>rlr, convir, competir, importar: xi, 3; lv, 10; xxi, 10; 
XXIII, 34. 

<^n(II^Bi, condição: vi, 2 (comdiçom); xiii, 17 (id.), ctc. 

coufèsso, conãssáo: lx, 6. Alterna com conjissom nn mesmíi 
fabula. 

couflftfioin, confissão: i.x, i3 (comfissomi. V'id. cott/esso. 

c-nnhnrrnte, conhecedor: viii, 21 (conhoçcmtcs). 

ruiiliurrr. conhecer: 1, 6 (conhoçcsse); iv, 18 (conhoçer). Al- 
terna com conhecer, xxviii, 9 (conheçeo). — A forma cotihocer, muito 
iVequente na lingoa antiga, é mais arcaica do que conhecer, porque 
assenta no lai. cognoscerc icfr. hcsp. conoccr)^ ao passo que 
conhecer me parece ser roera dissimilação de conhoçer, facilitada 
talvez pela presença da palatal nh; em gallego mnd. ha conhecer, 
cofflo em português raod., c conecer. por influencia do hcsp. conocer; 
em gallego ant. ha coúoscer, como no nosso texto. 

eonftplhar, aconselhar: xxxvir, 9 (<eu te conselho*). 

roB(e»(ar. xxvi, 18, na phrasc: «a pequena força nem se deve 
contestar com a grande», i. é: não deve disputar, bater-se. — Toda- 
via o 5r. Kpiphanio Dias nota-mc que talvez deva emendar-sc em 
contrashir, de acordo com xxxvii, 14. 

rontfm. na direcção de: 11, 7. 

i'oiitr»Klar, contender, medir-se: xxxvii, 14. V'id. supra cori- 
testar. 

coDÍmlro, contrario: xxxii, 34; lviii, i5. Fet^ei- contrairá: 
vid. a aiinutaçáu A fab. xxv, 9. 

roobra, cobra: tix, t, 3 (vid. Erratas). Alicma com colira cm 
IJX, 9, com um só o, porque no ms. estn palavra está cm fim de 
linha. A duplicação do o em coo^rii é etymologica: lat. *co(l)o- 
bra ^= colu br a. 

rorav<>ni, coração: ix, 32; xxii, 11. 

KOr<l«lro. Apesar de a palavra cordeiro ser masculina, e em 
porL are. existir cordeira, que lhe corresponde como forma femi- 
nina', nota-se na fab. lv, 9, que o cordeiro, faltando de si, átz/i- 
Ihãg e mais abaixo ssegnm lembura a lobo, ib., 5, lhe chame_/í/Ão, 



t Por ex., na Vida de Eufrosina (scc, xiv) : «quem foy aquel que espudnçou 
a minha eordeyraf' cm Cornu, Anciens Textes Portugais, p. 6. 



porque ,/i//» estará aqui em sentido geral). E de facto na fab. LViit, 
que concorda cora esia, a cordeiro corresponde cabrita. Por isso, 
na mente do autor, cordeiro parece ser nome epiccno; e dar-se-ha 
aqui a cspccie de concordância que us grammaticos chamam syl- 
Icpse de género'. 

«ouve. calcanhar: xxix, 14. O cavallo diz ao asno: mom quero 
em xy luxar os meus couces»^ i. é. «patas traseiras». Do lat. calce-, 
■calcanhar»'. Ainda hoje dizemos mctaphoricamentc «no couce da 
procissão», por «na retaguarda». 

«•usa, nada: iv, 6, na phrase «que lhe nom prestara coma*. 
Gfr. Leal Comelheiro, cap. x, p. G2-63: «sem o Padre, cou%a nom 
poderia fazer». Os exemplos d'esie uso cm pon. are. são numerosos. 
Cír., quanto à evolução do sentido, o fr. rien < loi. rem «cousa*. 

eras, amanhã: xx, 12. 

errer. crer: ix, 18; xv, iS. 

eroevetfi, cruéis: xni, 16 (crueuees). O singular c criiesvi ou 
critevil, por isso que no ms. alternam enire si adjectivos em -vel 
e -vil íc -bile)', vid. nota 4 á fab. lvi; o slng. de cruerees nSo se en- 
contra por extenso. A forma criKuees alterna com cruees em xxxi, 
ib\ sing. cruel, lxii, 12. Noutros textos antigos encontra-se lambem 
cruei'ei e o pi. crueviis^. Deve admittir-se que no lai. vulg. da Lu- 
sitânia houve o adjectivo 'crudébilis, correspondente a crude- 
lis, por analogia com outros, como ^ebilis, delebiiis*' 



I Convém a ene propósito observar o seguinte: Em algunus terras da 
Beira-Baixa (PozcCa) c do Baixo-Mtnho (Braga, Guimarães) não se usa a pulavra 
cordeira, c srtmcnic cordeiro (ou cordeirinho), que tunro se applica ao macho, 
como á fêmea: oi cordeiros: todavia no Minho ti mais \u\^aT é anho, an/ia {anhi- 
nho, -a); e em Fozcõa ha borrego c borrega, coin quamo estes nomes se Jcem 
a animaes um pouco mais velhos que o cordeiro. — Em hesp. ha coráero, -a; 
em mirandês cordeiro, -a. Quanto ao gallego, os diccionarios só ciiam cordeiro 
(Javier, I*ifiol,V;illailarcs); não encontro nellcs cordeira. 

* Cfr. u seguinte exemplo cm PheJru, Fabut,, I, xxt, S-9: 

. . . Asinus, ui viJit fcrum 
Impune lacdi^ catcibus trontcm extuJii. 

3 Viil. Jned. de Alcobaça, n, 368 c 109, formas já colligídas por CortesSo, 
Subsidias para um Dicc. da lÂng. Port., s. v. 

* A forma>;áo c comludo irregular, porque os fltlj. cm -hilis são formaJoK 
lie verbos, e o f ás Jlebilis e dehbiiix pericoíc no i\vtma: Jle-bilis, deie-biiis 
(thcma ampliaJo); ao passo que crudelis l- formado do adjectivo crudus, com 
O suflixQ eíi-s. Neste caso o povo rL-gulou-se apenas pela terminação, e substi- 
tuiu 'éiis por 'éNlis. 



FABULAMO K)Rn*CUES 



7» 



rrurvelmcnAe ou crucvllmenác. cruelmente: i.vi, 7 
(cruêulmente); e vid. a respectiva noia. Cfr. crim>ces. 

callclnda, cutelada ou cutilada: i.iv, 2. Na mesma fab., li* 
nha 6, \-\:n-\Jenda como synonimo. Propriamcnic cuilelaJa signili* 
card aqui opancada com um cutelo», c náo «ferida com derrama- 
mento de sangue>, como hoje; cfr. espadeirada na lingoa usual, 
ejirir ncsie Vocabulário. 

cujo., de quem: ix, 10 «cuja era a casan; xi.iv, 3i «cuja ha 
(= a) cousa era». 

cnrar. ter cuidado de (empregado iransitivamcnte): 1.X1, 4 
(«avia curado sseus caua1eÍros>). Cfr. o lat. curare. 



O 



(lapno = damno: a, 10. O p não tem valor pbonetico, é me- 
ramente orthographico. 

«lar. Vid. a annotação ii fab. xxiii, 27. 

(I<^hilr, debil: xxxvii, i3 (dcbillc). 

drnioHirar. mostrar: tu, 21. 

derrlAo, -a, jusio, -a: v[, 4Ídere)ta); i.xi,4o fdcrcito), 65lld.), 
Substantivado: tsegundo derejío da ley>, Ui, S^ «segumdo derejio 
canónico e ciuel», lx, 14. 

deaapoiíflad*, sem fòr4;as, fraco: uu, 3. — Ao exemplo que 
traz o Elucidarui de Viterbo (sec. xiv) junxe-se pois mais este, 
e o que vem no Leal Conselheiro, cap. i, p. 16: desaposados (sec. 
xv). 

deiicoD<« mento, desconto: vm, 17 «ãseja descomtamento 
do scruiço» -seja em desconto. Deriv. de descontar. 

dentombarcar, desembaraçar:. ix, 11. 

druempnrar, desamparar: xxx, 21 (desamparar). 

deN|ierar, perder a esperança: lvii, ií». O próprio texto 
dá a detiiiição: «aquellc que perde a esperança, !Ígeyramcnte sse 
desperai. O verbo náo vem nem no Dicc. de Moraes, nem no do 
Caturra; apenas este c o de Cortesão citam desperança. l-'tymo; 
lai. despe r are. 

de»|irefar, não dar apreço, desprezar, depreciar: 1, i3; xj, 
i4-i5i xxxui, i3; Lvi, 12. 

destrolr, destruir: xlviií, 5 (destroyr). 

I. DeilH. Na fab. i.x, i3-i4,lê-se: «acontissom fectaper medo 
c temor nom vali segumdo dercjlo canónico c çlucll, nem ssegimido 



72 



FAKLARIO POtTUGUÊS 



Deus*.Vê-se pela enumeração dereiio eivei, dereilo canónico, que 
seguruio Deus quer dizer -dirciío que provem de Deus, i. c, dif^iío 
ditrino '.Tambcm no testamento de D. AtTonso U (sec. xiii) se lé: 
■e etle» as depártiá scgúdo deus**. No Leat Conselheiro (sec. xv) 
encontro: «aquella tristeza, que he segundo Dtos, obra peendcnça 
stflvcl para a saúde; a tristeza do scgie obra morte», onde segundo 
DeiiS stí oppõc a do segle, i. c, «mundana», e significa como o pró- 
prio D. Duarte explica mais udeante; •aquclia jristcza] que des- 
cende de Deosi^ Outro tx. da mesm» obra: <no sprito da tristeza, 
que nom he segundo Deos, devemos a fugir»*. 

2. deus - plural? \'id. a annotaçao á fab. xlvu. 

Illaboo, Diabo: \lv, 43. 

dinheiro». No plural, em circunstancias em que nós hoje 
poríamos collectivamente o singular: «húa ssoma de dinheit-os»^ 
XXXV. 5; «ho auaro he seruodos jdolos .s. dos ditUieiros» ^tílu, 20-21 ; 
■quem serue aos dinheirr>$ serue aos jdoles», xui, 21 ; icobijça de 
dinlwiros», xlv, 32. Gfr. no Leal Conselheiro (sec. xv): «nom pen- 
sem que a fustiça de Deos hc cousa que se possa vender como se 
dessem pcllos pecados dynhciros*^, Vxn hesp. do sec. xiv: 

. . Rora que csTas lleno 
. . de pan c de iJjneros . . ^ 

dlucrefoni; discrição: lvi, 17. Alterna com discriçom: vid. 
csltí vocábulo. 

dlMcrl^oni, discrição: xxxvi, i3. Vid. disa-eçom. — A forma 
discreçom está mais próxima do lai. discretione- do que dis- 
críçoni; todavia esta alterna, como vcmos, com aquella. Também 



) Num documento do sec. xvi encontro expressamente dereilo deuino: *do 

arroz dous dízimos, hQ que he dereita deuino, que eu lenho por bulia do santo 
padre, e o\ilro dizimo de direito (JÍcl .\ [prc-pos., ou por jj minha faacndfl». 
Vid, Archivo Hist. Pori., 1, 3So. 

> Este testamento íoi publiciido pcly Sr. Pedro de Azevedo na Rev. Lusit., 
vciit 8g ss. o irccho que cito vem a p. 8'i. Repeie-se a phrasc a p. S3. 

) Cap- xviii, p. lio. 

4 C&p. xviii, p. III. 

i Cap. i-xxxviH, 426, — No c«p. Lxii, p. 236, dinheiros pôde por<ím também 
estar no sentido geral de "mocdíis-.— O dinheiro era uma moeda antig». 

i> Arcipreste de Hita, Libro de Buen Amor, ed. de Ducamin,Tdosa 1901, 
est. 255. 



74 



P-Vn-IABIO PORTUGUÊS 



rll». isso: X3UU^ sg; j^iixiv, 3o. 

rmllfto. inimigo: xvi, tb (eooijgoj: xxxix, i3 (cmijgosj. Alterna 
com itmi^u: vid. este vocábulo. No l^eal Conselheira (sec. xv) cam-a 
bem: emugo, p. i5, a par de inmiigo, p, 256. — O duplo r* pôde 
ser ortfaographico. Para ser etymologico, era preciso admitúr a se- 
rie: !tiÍmicu->'rmy(R)iCH>"ímTigw. 

eni^crer. empecer: xm, 17; xxxvir, 4. — O duplo e c etymo- 
logico: lai . ' i m p e (d) e s c c r e . Cfr. Leal ConscUieiro. p. 3o e 340. 

cnpero, porém, comtudo, todavia: xii, 18. Cír.ptro, que tem 
porém outro sentido. 

enraivar, ir no encalço: vi. 8 (emcalçou). 

CDt-oiiiBicadar, recommcndar, deixar ao cuidado dei lv, 3 
(emcomcndou). 

cacoalrar* Este verbo apresenta no Fabulario três constmC' 
ções: i.*i transitivamente: laquell asno o eocontrou»^ xxix, 21; 2/) 
reflexamente: <encontrou-sse com húu pastor», xxvii, 3; 3.*) intran- 
sitivamente, no sentido de ier encwilro: ihãu asno encontrou com 
húu porco montês», \i, 1 ; ihúu Icuin . . emcomiruu cum húu asno», 
XVI, 3. A ultima con^trucção é completamente arcaica. Cfr. cm hcsp.: 
«un asno que encontro con un león*^. 

eadc. Em xxvn^ 16, «e d'emde u poucos dias», significa d/ti. 
Em XXXIII, 3, «e tomava por ende grande prazer», e xxxiv, 36, «nem 
percades por enide a lerrao, significa isso. Na origem ende -^lat. 
ín de sígmlicava <d'ahi»; mas assim como onde <C lat. undc, que 
significava d'otide, passou a significar unde, por causa da juncção 
pleonustica da prepusição de. cissim i-nde passou a significar ahi. 
O mesmo purallelismo se encontra na significação translata isso, 
pois onde também pode significar v que: por emde «por isso», como 
por onde «pelo que». 

CDdiTcnçar, dirigir, encaminhar, dispor, tratar de: lu, 1. — 
Pode juntar-se mais este exemplo aos que traz Moraes, Dicc. da 
Ling. Porí., noutra accepção. — .\ par de endereçar, que se encon- 
tra |á também nas Cantigas galk-gas de Affonso o Sábio ipor ex.: 11, 
382), no />ea/ Conselheiro e na Crónica Troiana, temos cm port. 
mod. endereçar, e em port. c gall. antigos aderençar. — No Minho 
existe ainda o verbo endiretiçar c o subsr. verbal enderença, usados 
na linguagem das tecedeiras; em Trds-os-Montes eitderença designa 
certa peça do carro. 



5 Libro dei Sábio Ysopo, SevilKii i533, fab- xi, fls. xvin-r. 



fixo re- tornado independente'. Em apoio de tal explicação esiJ 
o facto de em francês arcaico se encontrar re lambem como adver- 
bio*. Da vitalidade do prefixo re- em português c hespanhol fatia 
a Sr.* D. Carolina MichaClis na Hev. Lusit., m, i83. Esia vitalidade 
favorecia o emprego adverbial do prefixo. 

errar, aggravar, oíFendcr, causar damno: xix, nb. — Junte-se 
mais este exemplo aos que trazem Moraes e Cortesão nos seus Dic- 
cionarios. Também na Demanda do Santo Graal, scc. xiv: «por 
Deus, SC voscrrey en aigúa ren»'. Em hcsp. are: errar «ofender», 
tagravian-". 

ervan^o, grão de bico: wi. b (ervanços), 23 (heruumço). Cfr. 
também Moraes, Oicc, s. v. «ervaaçoo. 

e»c*ariiec*rr. Empregado transitivamente; «ho rico .. cscar 
ncçc ao proue», \r, i6. Cf. Moraes, Dkc, s. v. 

eKcaniho^ escárnio: xv, i'i. 

escarnido, escarnecido: xxviii, i6. Participia do verbo ant. 
escarnir. 

e»eatlmoso, oflensivo, malicioso: xxni, 14. — Este adjectivo 
não estava ainda archivado nos nossos léxicos. Cfr. ^hcsp. vscati- 
moso no mesmo sentido. 

esciillnr, escutar: xmti, i3 (escuytoul. 

e^diKar, justificar: t.xi, 11. 

ei^siiardar, olhar, anender, obser\-ar: xxv, 16; xxxiii, 4; XL, 
17; XLiv, 17, 18. (Talvez deva pronunciar-se esg-aríííir). — Vid. guar- 
dar. 

eftpaaD4'ar, espancar: xxxvi, 5. — Os aa são ctymologicos, pois 
o etymo remoto está no lat. p(h)a(,IJanfía. 

rspí*rrver= escrever. O p não tem valor phonetico. 

esiiprla^ apparencia: i.iu, -S. Numa phrase: !o cspeçta^ como 
em lat. sub s pecie. 

esplandor, esplendor: i, 6 (esplamdor). 

esqueceer, esquecer: xwu, -ib (esquecçer). Os ée são cty-' 
moiogicos: esquecer <^ escaecer <Z.\ai. 'ex-c a(d)csccre. 

eslAvIl. estável: xxxiv, 42 (esiauylli. 



c Romania, ix, .*8o. Cfr. o mesmo periódico, xi, «7, onde junta exs. de er 
na linguagem Jos períonageos populares dos Auuis de Gil Vicenie. 
> Meyer-I.Ubkc, Í7r*j/jj. der Rom. .%r., u, ', óijj hi, ;_) 402. 

3 Fl. i8i-v.,fi;apudCornu,/íom»imíi,xi,Q3.—Ouiroexs., no texto impressOi 
PI>. 63 e gS. Esto- ultimo c: «porque scntva i|uu Mc crr.ira do quç «uja fcitO'. 

4 Dke di! Acadfmia Ilcspanholtt, 



FABUI.AÍUÚ l>OICnjQI]£s 



tenlc-, partic. prés. de foctere; cfr. hcsp. hedienit, e na lin- 
goagcm pop. pon.y/e(ieiuiiiha,/edeitíiithoso, -a efedença'. 

fcUo. fazenda, facto. O primeiro significado, — no plural—, 
estci em xi.n\ 28 (fectos); vid. %.\. /j^eníia. O segundo está em vii, 
2 (de/ecío). 

feofledura^ fenda: lviu, 10. —Não vem nos Diccionarios de 
Moraes, Claturra e Cortesão. Cfr. hesp. kendcditra. 

f#o. feio: xxxiu, &, 14 iSeos). 

Irriila. pancada: xxxvi, 10 (fferidas).Vid.yfríV. 

ícrlr.Vid._;ír/K 

nihnr. tomar, apanhar: xv, 10; xvi, b\ xlvi, 9. 

On. Do género feminino: xxxi, 16, «maa iim«; u, S «csguardar 
a fim» {;— altender ao intuito). Ha ainda hoje na lingoagcra da Beira 
uma phrase estereotipada onde fim mantém o seu antigo geiícm 
(finis em lat. é masc. e fem.j: ia fim do mundo». 

Srir, bater, espancar: xxxvi, 4. Alterna com/mr em xxxvi, 
C;xunT6. Ha outros exs. de^írtr em português e gallego antigos. — 
Aqui _/irtr está no sentido do lai. fe rire. Vid./erii/a. 

Ouza. confiança: lix, 8. No Leal Cotisetheiro, p. aSy, vem 
ftu\a, cora f. Kórma ainda hoje popular (Kxtrcraadura). Também 
é usuda como appellídu. 

fofilr, fugir: uvii, 11. Alterna com fugir noutros logares da 
mesma fabula. 

fdrça. violência: vi, 18, na expressão a!litierada/<i;<?r força. 
Cfr. a detiníção dada em Moraes, Dtcc: «a violência que se faz, 
usando do que não é próprio o forçador, entrando a outrem por 
suas terras e herdades, Tolhendo a outrem o uso do seu: fa^er 
ybrfd»,— definição que evoca os tempos do feudalismo. Cfr. tam- 
bém cm gallego do scc. xiu, com forma alaiinada: /(!r//'a\ 



' Fedentivha significa «mnu chcíro" (suhsi. fem.l; c applica-w lamhcm a 
uma pcssi-a ruim de aturar [*i nm fedentinha»): Bcira-Aha, Baixo^Oouro. Nas 
mesmas dons ncccpções se emprega /íiíenfj («esid aqui urrafedença», B.-Alta 
c B.-Doury; '¥. é um/iTiJença^, B Douro»). Quanio a fedentinhoso, -tf, signiíica 
nn Bnixo-Douro 'dcsagcitaiio», «mal fríiO", «mal arranjiitliD' (por ex. «cousa 
fedenlinhosa»}. — A mcsima família ilc palavras pertencem estas : /edatiho {•=• fe- 
denho) "imporumo><, n/edanhar (^ fed unhar) ■importunar-, ambas usadas 
cm Moncono, c a phrase á /edoc.Tdcsa}Cilada.mente* dada pelo Caturra no &eu 
Dicc. (o Caiurra diz que /edoca vem de foedus, mas contra isio protesta t> 
•D- inlervocalico). Cfr. tamSem o ga\l. /edctito. 

' Dtxum. GaVegos de tos sigi. xiii aí xvi, n." a, Unha a3 (p. a). 



FABULARIO PORTUOUl^S 



79 



rmnnNO. -a, formuso, -a: prol. 9 (fíremosa»); i, 3; xi, 8. 
Cfr. /'remosura. 

fremoKura, formosura: xxt. 2. Qir. fremoto. 

fre». freio: xiv, 1 1. 

Irol. tior: xx, 17 (írolll. Altcrnn comjlores no prol., i3, c com 
/i*or. Vid. /'ror. 

fror, riôr: prol., 14. Vid./>*o/. 

fruUo. fruto; prol., 14. 

fHado. ha'\s.o (subsc): lu 3, <da parte de fundo»; iii, i3, atirava 
pêra fundn. Na fab. i-, 7 «Tas rãs] meterem as cabeças do fundo 
da auga», a ultima expressão si^ni^ca Je baixo; talvez do fundo 
da agoa esteja mesmo por de fundo, com do por de, ou por influen- 
cia da labial, como na expressão popular do baixo por de baixo, ou 
por erro de copia. — Na Visão de Tundaio, publicada na Rev. Lus.. 
Ill, texto do sec. xiv, lè-se caj'v en fundo, p. 104. Em textos galle- 
gos do sec. Kiv enconira-se também enffondo ipelo lado de baixo> '. 
Moraes cita yua afundo como antiquado^ Ainda no sec. w\ se 
dizia Mondim de Fundo a povoação que hoje se chama Mondim 
de Baixo^. 

gaadii, gado: wvii, 4; xxxn, i3, ib. Os aa sáo et)'mologicos; 
cfr. hcsp. ganada. 

ftalariloni, galardão, pago, âf^radeclmentú: x, 16 (guatardom). 
à expressão dar maao galardom corresponde a expressão moderna 
dar mau pago. Vid. grado. 

Aau^ar, ganhar, adquirir: xxiii, 21 (guançoso). £ frequente em 
textos do sec. xiv e xv guançar, gançar, gaançar. Do radical de 
que veio ganhar (origem germânica) deve ter provindo para as lin- 
goas da Peninsula um verbo "gaiiar. donde viesse o hcsp. ganar, 
e o port. prehist. "gSar, com que se relaciona gaança igança) c 
gaançar ígançar)\ á mesma família pertence hesp. ganância 1 d'onde 
o port. mod. ganância)^ hesp. ganado, port. ant. gaado -^ 'gSado 
(mod. gado)^ gall. c port. do Alio-Mínho gando. 



' Doeum. Gaíiegos de los sigl. xiii a! xvi, p. 121, oic. 

' Dicc. 4a Ling. Port., s,v. «fundo». 

"^ Docutnvnios mss., que publicarei noutra logar. — Cfr. Moita Fundríra, 
como quem ilissesse -Moita ilc Fundo*, isto á «Moita Jc BaÍKo«, nonv: M ujii 
logar no concelho da Sertã. 



So 



t-\BUI.ARJO POKTUGUI^ 



cardar. Viá. guardar, 

fiarnlmcnlo. Vid. guantitiieato. 

;;arjj;aafolre. gula: i.ii, \>< (giiargnnitoiçe). — Deriva de gar- 
gaulom, que vem no í^al Cousellnfíro, p. 187, Da forma pi. gar- 
ganiõcs, acomilõesi, tgulososK, c na Visão de Tundalo jvid. Rn'. 
I.us., Ill, \oCt: gargautnoem). O Lcdl ('otts. conicm varias vezes 
garffatiloice: pp. 192, 193, 194^ gulia e gargantiiyce, p. 286, ex- 
pressões sviionímas e alliiteradas. 

,s;avlani, xxxi, í, by etc. A pronúncia era de certo gaviã; cfr. 
hesp. gai-ilan, mir. gabilã. 

Sena^ pedra preciosa: 1. 4. Lat. gemma. Na moralidade, i-, 
i3, em vez de se repetir a palavra gtma, emprega-se a dermição: 
pedra preciosa. 

jCesto, semblante; uii, 3, 

^rado. agradecimento: viii, 22, «dar maao grado^ que corres- 
ponde a dar maao gahrdom cm x, lõ. Vid. galardom. — Do lat. 
gratum ladj. neutro subslaniivadoi. Cfr. en grat em provençal'; 
savoir bon gré cm francês. No Leai Conselheiro, p. R3,c em vários 
outros textos: de grado cdc vontade». 

granií grande: x, 12, em próclise. — Cfr. Rer. Lusít., viii, 
11-12. 

jj^riia. fêmea do grou: vnt, 5. — O vocábulo ainda não foi, neste 
sentido, archivado nos nossos léxicos; pelo menos não o encontro 
nem cm Moraes, nem no Caturra, nem em Cortesão. Cfr. hcsp. ant. 
grua, fr. griu: Do lat. 'grun-, por grue-'. 

fiiialardom. Vid. galardom. 

giiaii^ar. Aid. gauçar. 

guardar, olhar: v, 3 «guardou na auga> ^ olhou para a agoa. 
(Talvez deva pronuncíar-se gardar). Cfr. fr. regarder. K vid. neste 
vocabulário esguardar, 

j^iiarsantolcc. Vid. gargautoice. 

^iiariiliiieiiOi, apparclho do cavallo: xxix, 24. (Talvez deva 
pronunciar-se gatiiimeiíto). Moraes, Dicc, cita o vocábulo apenas 
no plural. 

guisa, maneira: vi, 4 (<cm tall guysa*), 14 («per esta guisa*), 
xxxii, 19 (aperesta guysa»_í. 



I Bartsch, Chrestomathie Proveufale, 5.' ed., 1 10-^5. 
* Enirc grúu (por «gruns, «griíu-í e grua lia o mesmo parnllelisino 
phonetico que en:r« dous e duas. 



i-Aiii'i..\mo pOKn'GU(:5 



8i 



M 



(As piílavras que não se cn^'onlr3rein cotn h- |>rocurem-sc sem ellc) 

knver, ler: ii, i8 («nom ey mnio lempoo»; iv, 12 (*nom avia 
per hu paguari); eic. No prol-, 18, alterna at^er c íer no mesmo sen- 
tido. Assim SC justifica o sse ha de lv, i5 (e vid. nota respectiva). 
Em xu, 33, haver está substantivado e significa riqueza, palavra 
que mesmo lhe corresponde ib., 35. 

hl. ahi: IX, t), <d'hl»; xv, 3, tperhij>=ahi perto. 

homem. Ao seu emprego como pronome indefinido, como 
o fr. (tH, nic refiro rio capitulo da Sviuaxe. 

homlldosamciilr, humildemente: it, b. — Vid. homildoso, 

homlIiloHo, -a, humilde: 11, 33. 

hoam, acolhimento respeitoso, estimação: xxi, 2, ias aues 
fczcrom grande homrra ao* páaos por a fremosura d'e)tes>. Cfr. 
a ideia opposla em fídesotinar de maas patauras», xxin, 2. 

hiimeeldio. homicídio: xi.v, 3i-33 (humcçidio). Alterna com 
omiçidio em xlv, Sg. 



(As palavras que no lexto estiverem comj- procurcni-se coro t-) 

Iguocrule. Mera variante orthograpbica de inocente ou itina- 
eente (n, 47 ignoçcntcs). O ^ resuUa de confusão do lai. ignoscem, 
de gnoscere, com innocens, de itocere, e de haver varias palavras 
que se escrevem ora com gn ora com simples 71. 

Imllgo. inimigo: xvi, 14 (jmijgos); xxxviii, 18 (id.), 31 (id.), 
22 (id.). Alterna com emiigo; vid. este vocábulo. 

Infllndo, infindo: xiv, 14 (jmfíjmdos). Os dois n são eiymo- 
logicos: lat. infiniiu-. 

lalro, iniquo: xxxi, i5 (jnicos). — Com quanto de origem tit- 
teraria, inico é a fúrma corrente nu litteratura antiga: cfr. Camões, 
Lui., IX, 59, «pássaros inicos* em rima com bicos. A forma actual 
iniquo é restaurada pela latina iniquus. 



Ja niiuea, íamais, nunca mais: xiixiv, 26; lix, 8. Cír. jamais 
nunca no Leal Conselheiro, p. 1 1 5. 



Jajuii. (adj.^que esta sem comer: xii, 32 liajuinn). H o sentida 
do lai. ieiunus. Cfr. na Demanda do Santo Graaí (texto do sec. 
xiv): (OS caáett . . seiam ieium de vu dias»'. — Vld. outros cxs. em 
Moraes. Dice. da Ung. Pari., s. v. 

(fOYt», Jove, Juppiter: vit, 6 (Jouú); L, 4(id.H 3, 11, etc. — 
É o ani. nominal, lat. louis 'por Juppiter). — A liiuto de curio- 
sidade acrescentarei que em linguagem de giría, em certos pontos 
do paÍ5, se dijt Johes por «Dcuai. 



(As pslivras que no texto estiverem com //• procorem-se aqu oom t-\ 

lia, lã: IV, i3 (tláa), 14. Os aa são ctymologtcos: lat. lana. 

ladrayi. \"\á. hdrom. 

ladrfkui. ladrão: 11, 18; vu, 1; lviii, 8. Alterna com ladram 
em uxi, y. 

lalluo, laiim: prol., 6. Vid. a annotação respectiva. 

IriiDi. Vid. leom. 

IrjCar. ligar: xi., 19 (leguado), 21 (legauam). Cfr. hgammto 
no I^al Conselheiro, p. 41. 

Icixar, deixar: v, 10 (*«»; xxiii, 3i. 

Irom. leão: vi, 14. Na fabuhi xwn alternara /ivw, lioni c Içam, 

lho. ihcs: VIM, 21. Vid. o que digo nas Obscr\'açóes Gramnaa- 
ticaes. 

lISFlriimentr. facilmente: xmviu, 20 (ligeyramente); lvu, 
i3 lid.). No mesmo sentido se encontra essa palavra no Leal Con- 
selheiro, PP- 22, 75, e em hesp. are. ligerameníe. 

Uactríff. ligeireza: xxx, 10 (ligcyriçcs). 

Ilfirlro. facil: xxi, 13 (ligeyro). Cfr. ligeiramente. 

Il»m. leão: VI, D. Vid. leom. 

Iltr»r. deliberar: xux, 3 (liuraram). Desta accepção se apro- 
ximam alguns dos exemplos que traz .Moraes no Diccionario. 

Ilxosameutc. immundamente, çuiamente: xxui, 24. Vid. li- 
xoso. 

llsoMO. immundo, cujo: xxiu, 26 (tixosso); xxix, 11. Alterna 
com Itixar em xxix, 14; vid. este vocábulo. 

luxar, mnnchar, çujar: xi, 8; xxix, 14; xui, 5. Alterna com 
lixoso, XXIX, 1 1 ; vid. este vocábulo. Ha outros exs. de liuear em por- 



I Otto Kloh nn Rev. Lusit^ vi, 336. Provavelmente deve ler-sc ieiCus. 



> 



rABDI.AKIO CORTCGUí-.S 



83 



Tugués ant. Em gallego também alterna lujar (= luxar) com Ujar 
(= lixar): vid. Valladares, Dicc. GaU. Cast., s. v.; e já na Crónica 
Troiana, texio gallego do sec. xiv, lemos luxar amancharf. - 
Parodi, na Romania, xvii, 69, explica o gallego lujar, lijar por 
'lutulare, «xplicação admittid:i por KíJrtlng, Laí.-Rom, MT»., 
2." ed., n.' 5761; mas ha diíficuldade phonetica. 



■M. 

mn». má: prol.,7;xxv, 7. Os aa saoetvmologicos: lat. maH)!!. 

■uaiirr. mãe: ix, i5; xxvi, ú; xxxiv, 8. Não se usa mãe no 
nosso lexto. 

marinar, imaginar: i.xi, ^7. — Por ac ler em Camões maginar 
ensinii-se ás vezes nus uutas que temos aqui uma liceuça poeíica; 
mas o nosso tcxio prova que magtnar é da prosa, c existem outros 
exemplos: maginar em Azurara e no Cancioneiro de Resende', etc. 
Deu-se a aplierese (lat. ímaginari, imaginure.i por confu- 
são de í" — tfi- com o prefixo iw-. 

malii. mas: i, 5*, xxi, i3 (mays). Alterna com mas em: lix, 5 
ino ms. mas está em llm de linha); xii, 3o; xxxiv, 32; xxxv, 9, etc. 

malandanle. mutavcnturado, infeliz: xuv, 26, onde saiu, 
por erro typographico, maiadante em vez de malSdante. 

malecloifo, -a. malicioso, -a: xiii, 8 (maleçíosa). 

nancrlin. criado, servi*;al: xuv, 1 1 (mancebo). Ibid., 29 e 3o, 
o auctor emprega seruo e seruidor como synonimos d'este termo. — 
Cfr. Gama Barros, Sobre a sigtiijicação da palavra tmancipium^, 
na Rev. Lusii., iv, 247, onde mostra que mancipium e seryus, nos 
mais antigos textos da idade-raedia, eram synonimos entre si, e que 
já no sec. xui <a significação de maitcipium correspondia ã de 
mancebo, quer no sentido de individuo que servia por soldada, quer 
no sentido de adolescente»' — . Na fab. xlvii, 14, maticebo (mance- 
bos) tem a significação actual de «ioveii»; c nesse sentido emprega 
D. Duane também a palavra no Leal Conselheiro, p. 1S4, com 
o substantivo correspondente mancebia «juventude » , ahi contraposto 
á palavra velhice^. 



■ Vid. Corieslo, Subsídios para um Dicdonario, s. v. 

* Loc. cil., p. 1(14. Este artigo foi rcprodu/ido na Nist. áa Adm. PiM. tm 
Porlugal, II.— Cfr, lambem Pedro de Aifevedo, no Archivo Hisi. Por!., i, 390. 

^ Enire mancipium «servo* e moço 'jovcn» ha a mesma relação scmatolo- 
gica que entre mofo ■serviçal» e ntoço «joven-. 



niaiirlra. moderação: xxxvi, i3. O passo c: «deuemns auer 
manara cont discnçom», i. <;: moderação discreta. 

nanKo. cabo: xxxix, -2, 3 (manguo). Trutu-se do mango de 
um machado. 

niauhâa. manhã: n.vii, 17. A expressão de manhSa nesse 
passo signilica «amanhã», pois que está comraposta a ojc. 

nantlttueiKo. mantimento, sustento, comida: xxvir, 12 (man- 
tijmento). — Os ri sau eiyniologicos, pois csia fórraa está por 'man- 
tcimento, de munteer; cfr. hcsp. maw/fíiiViíVH/o.Tambcno cm AzU' 
rara se encontra maniiimenlo*, 

mArlriro. martyrio: xi.ni, 17 (martcyro). 

lualitr. Na expressão matar&e com eli, xxvt, 4, matar-se signi- 
fica ibater-se*; cflr. hesp. maíarse con uno are5iri, ipelear con 

mrdéH. mesmo: ji, •! (aquell medes); xxxuc, iS (ell medes)^ 
XLi, 33 (assy mcdcs). Km todos esses exs. medes reforça o pronome 
ou adverbio a que vem junto. Cfr. no Leal Conselheiro, p. 27, esio 
medes, c p. 4G, aquel medes. Na Uev. ÍMs//.,vni, 9, me referi a este 
pronome. 

mrefimo. mesmo: xl, 3o. — Os ee são ctymologicosí cfr. ital. 
medesimo. 

mrriilre. mestre: xvii, 16. — Os ee são etj-mologicos: are. 
maestre < lai. m a(g)istru-. Todavia maesíre não provém di- 
rectamente di> latira, como o mostra o -e'. 

oieezlaha, remédio: xxvni, 4. Cfr. também Leal Conselheiro, 
p. 234: «por as esmollas recebem mee^yitha as nossas chagas». 
Ainda hoje se usa mesinha nu sentido de remédio caseiro («fazer 
uma mèiinha»^ — Beira). Em Trds-os-Monies (Norte) essa pala\Ta 
significa virtude medicinal l,«tal herva tem mesinha»). Também em 
provençal achamos mecina no sentido de remédio: tAl vostre mal 



I CnrtesSo, Subsídios para um Dicc, %.\. 

3 Dkc. de Ia Leng. Casl. (Ju Acud. Hcsp.), s.v. 

5 A forma normal em porl. ilcvia jur maestro, como cm hesp. e ital. A par 
de maestro, h» maestre em hcsp., mas nouira sentido. Provarclmvnie o nosso 
obsoleto maestre, d'onile saiu jneestre, e por fíni mestre, v«m úo Iiesp. maestre 
otí do fr. are. maiestre. De facto, nos exi-mplos que conheço do uso amigo 
de mestre cm poriutíucí, como mestre'Salj, mestre no scntiiio de «médico», 
mestre do Tempio, etc, a palavra relaciona-se com insiit\iiçóes sociacs, c podía 
pois vir de tora com ellas. No seniido modcmo de «mecânico», diiin-sc aniig». 
m«nie mesteiral. 



FABUIARIO l-ORTUGUKS 



85 



queretz medita»'. Na Estremadura mesinha passou a ter a dgní- 
ficação rcstricta de «cliswr». — Os ee de mee-^úilm são etymologicos : 
•mc(djccina <C lat. medicina-. 

inenfe. Nos advérbios: vid. n q\ie digo na Morphologia. 

uirulrr» qiir c em mrnlreM que. cmquanto: v, 2; xxxiv, 
18. 

meo. meio: ni, 10. 

iiieni». miolo: prol-, 18. 

inerciídarla. mercadoria: xliii, 3. Kste vocábulo creio que 
não estav-i ainda archivado nos nossos Icxicos. Klle enconlra-sc em 
vários textos dos secc. xv e xvi^ pelo menos, — porex.; tper maneira 
de mcrcadarian^i, ide falsas mercadarias*^\ «nam resguatnndo po- 
rém na dieta terra nenhúas mercadarías>'^\ «que os compradores 
nã pague das dictus mercaciahas^^ . Conheço ainda mais exem- 
plos.— Cfr. hesp. mcfcaderia. 

merree. mercê: xxi, 14. 

mesler. 1) Locuçãu—yi^^ mester «é preciso: xl, 13; xi.i, 2{>, 
2) Plural — mesteres «necessidades-, no seguinte passo, lxi, 20: 
muytos •JJude/ ao tempo de sseus mesteres, isto é, por occasião das 
suas necessidades, quando linham necessidades. 

meler. pôr: xi\, 3; xui, 8. 

[ml. Comquanio em xxiii, r-2, em xi.Uy 11 e i3 (vid. nota res- 
pectiva) e LVi, i3 se leia m/, e a forma nasalada fosse precedida 
de outra sem nasal no uso geral da lingoa, é provável que nestes 
passos haja mera falta de til, pois mim (mym) c muito frequente 
no ms., e em xlu concorre mj'm com mj'. Todavia cfr. o que se 

disse 5. V. ttbÕOl]. 

intlhor. melhor: iv, 6; xn, 3i. No Leal Cotiselheiro, por cx. 
a p. 17J, também se lê mylhur. 

inlnllra. mentira: iv, 17. 

mliifteiielro. mensageiro: .kxxviii, 7 (mÍ!sSC{;cyros). Alterna 
com missifT-; vid. este vocábulo, 



1 Fiamenca, 2.* ed. (P. Meyer), v. 3oj3. 

' Leni Conselheiro, p. 192. 

3 Cancioneiro ãr Resende, !.• ed-, foi. xxv-r, col. !.•, verso 10, Sir^-o-me 
do magnifico /iJC-símiVí feilo pelo Sr. Archur M. Huniínglon. 

*i Foral da ilha t1e S. Thoiiic diuio por I). João 111 era i5a4, fl. 4; ms, da 
Torre do Tombo, gnv. 7, maço 16, n," 4. Esic icxio foi-me indioiído pelo Sr Pe- 
dro de Azevedo. 

^ L>o ine»mo Foral citudo na nota unieccdciitc, ÍJ. f^v. 



8b 



FAD13LABIO PORTUGUÊS 



iiil.HKlgrlr4». mensageiro: lxí, 49 (missigbyroi. Alterna com 
misseg-; víd. csrc vocábulo. 

iiilftiirado. cumcdido: xxxvii, i3. Mas mesura, uxu 3. 

nilzquluho. -a. mczquinho, -a: .\xiii, '5\ wxtx, 8 (mizqu}- 
nha); xlii, 22 fmizquynho); xlviii, 18 (myzquynhas). 

niolhrr. mulher: vii^ 1. 

iiinitr. maior: xi-ix^ lã. 

iiiii». mula: xxii, 2. 

Tf 

nchfin, -a: i-, 21. Km xxxiv, 25 nhehúa. Noutros casos ií/iííu 
e nhúa, cjue podem ler-se respectivamvnlc nehúu ou néhãu, e nehúa 
ou ttèhãa. A graphia tikuu ou nhu5 núo c caso unico: vid. Archtvo 
Hist. Port., I, 419 "tihiiii trabuio». Sc se encontra nêhúu em muitos 
textos, por ex. nos Ancietis YVx/l-í Port. (sec. xiv) de Cornu, p. 33, 
e no Ij^al Conselheiro (sec. xv), p. -23, também se encontra nekãu, 
por ex. em um doe. do sec. xv no Archipo Htst. Port., 1, 3ig, 
nehila nas Cantigas de AfTonso o Sábio, p. 'inb, mú (por niu) em 
Viterbo, F.lucidario, e neún em Conesão, Subsídios. Comquanio 
entre nec unu- e ué hitu seja legitimo admittir rtehfm (neO), nada 
mais fácil também do que ter-se ás vezes omittído por esqueci- 
mento o til. 

nel<>laiueii(r. ncsciamente: uu^ lO 1 neyçiamcnte). 

nrlolo. néscio: liii, i^ (neyçio). 

uembrar. lembrar: lvi, 12, 

nrmbro, membro: xu, 24. 

nhiiii. Vid. ttehúu'. 

ilojo. damno: xxii, 4 (faço nojo); xxiii, 24 (id.); enfado: i.vi, 6. 

nnJoMO. desgostoso: xv, i3. 

noni. não: passim. 

niinrf . Vid. /'<]. 

O 

oMiiieiíle. obediente: lviu, i3. 

offl4*lal. empregado de justiça cm geral: ui, \b (ofiçiaaes). 
D. Duarte dá a definição no Leal Comdheiro, p. 32: *do$ officiaei, 



I Ho}c na Extrcmadura diz-se em próclise nhuma (vid. os meus Dialectos 
Exíremenhos, u, 35^; mas esui forma, que resulu de H'nfiuma <.neithitma, nada 
tem com a do Fabularío. 



rABULAttlO CORTUGUKS 



87 



era que se entendem os mais principacs, conselleiros, juízes, re- 
gedores, veedores, scrivães e semelhantes*. 

nmem. Vid. hommn. 

ora. 1 1 Em vii, 9, corresponde a «agora», como na lingoa mo- 
derna. 21 Com relação z pouca d'ora vid. pouco. 3) tall ora 'emãoB, 
XLviif 17; cf. iial. taloia nalgumas vezes». 

orto. pomar: prol. i3. É corrente na orthographia antiga: cfr. 
Orlo do Sp(tso (titulo de um ms. do scc. xivi e Garcia ãOrta lau- 
íor do sec. xvi). 

oiitro)(«l. outrosim: xxxviii, 11 (outrossy). 



paancndii. pancada: xvii, 12 ípaamcada); xuir, 9 (id.). — Os 
aa sáo et\mologicos: cí. espaaiicar (supra), e hesp. palancada. 

pafio. puvão: xxi, 2, 4, b. — Os aa são ctymologicos: cí.popão 
<lat. pa vonc-. 

padrr. pai: 11, i6; xxxiv, 8; xxxvc, 14. — No nosso texto não 
se tisa pai. 

pan. pão: xu, 21, onde por erro t}'pographico satu pom. 

parerrr. apparecer: xxxiv, 18 (pareçlai. 

parle, noticia: xxxiv. Cfr. na ling. corrente dar parte, dar no- 
tícia. Em X, 3, não sabia de si parte, não dava conta de si. Em xlv, 
19, chamou-o a de parte, \. é, de parte, á parte. 

paMitar. ultrapassar, exceder; xl, 34. Cf. no Leal ConseUieiro, 
p. 175: «a despesa ..passa sobre a recepta». Em x.\xiv, 49, lè-se; 
passa de sabedor; vid. a annotação respecriva. 

|KiP4*»:irelro. passarinheiro, caçador de pássaros: xxxi, 12. 

paM.MiN. Na phrase a poucos passos, vi, 5, d'ahi a pouco. 

pee, pé, garra: xiv, 2. 

perndenv'a. castigo: xlv, 34(pcemdença)iXLvii'peemdemça). 

pclorar. piorar: xuii, i3 (pejoraj, ib (id.). Mas vid. peor. 

pror. pior: XV, 13; xxv, [o. — Comquanio hoje se escreva mui- 
tas vezes peor, a pronuncia é sempre pior; porém no tempo da 
redacção do Fabulario pronunciava-sc de certo peor, com e. 

peqiirno. pouco t,subsiantÍvadoj, pedaço: XLii, 7 (me dees húu 
pequeno d^ette). Nesta accepção creio que o vocábulo não se acha 
nos nossos léxicos. Todavia no Leal Conselheiro, p. 33i, lê-se: «hua 
pequena d'afcÍçom» (= uma pouca de, um pouco de); c ainda do 
sec. XVII posso citar este passo: «húas velinhas . . com o pavio tão 
cortado que . . era necessário, para as accendercm, cortarem húa 



8S 



FAUULAitlO poimiGU^:s 



pequena de cera com os Jentc&t (-^ uma pouca de, ou um pouco 
de)'; e Pão partido em pequeninos ( - pedacinhos), é o tiiulo de 
uma obra de Manoel Bernardes, Lí^bou i<5()4. 

prr. por: prol. 8; xv, 3; xvii^ 7. Corresponde a «para» em xiit^ 
27 ipnde alterna com pof: per comer, per fitvrjy c xu, a5 {per 
nosso amaesírainenio). 

ppra. para: passim. 

prrrafar. precatar: xxix, 3i. 

perdom. purdáo: uXy 4. 

perfi:!. porfia: xli, iS, 23. 

prro. por isso: 11, 7; xxv, 11. Do lat. per ho(c).— Km xx, 
6, c xxiii, 10, pêro que, por isso que. 

prrxoa. pessoa: i, 6 (perssoa); xi, 9; xxiii, 27. Ksia forma 
encomra-sc lambem no Leal Conselheiro^ víd. o respectivo glossá- 
rio. Na Crónica Troiana, texto gallcgo do scc. xiv, ha persona (vid. 
vocabulário), que deve talvez entendcr-se por persõa. Km gallego 
moderno hn persoa q persoííia. Latinismo; cfr. verso. 

pesar* Em \xxviii, -iZ: fa^^iam d'elas maao pesar, i. é, causa* 
vam-lhe Jamniv Cfr. no Dicc. de Moraes /íí^er mao pesar de alguém. 

phyAlro. medico; VIU, 4 (phisico); xxvui, 7 (id.j. — Cfr. em fr. 
ani. //sicíe«% medico, ingl. physiciaii, hcsp. ant. Tísico'. D. Duarte 
no Leal Conselheiro distingue entre físicos e solorgiãaes-^ ; igual- 
meme na Hist. do impei'ador yespasiano (impressa nos fins do 
sec. XV) se \é: *c nom se podem achar Jtsicos nem celorgiãos*. 
p. 44 dã 2.' ed. (feita por Esteves Pereira). Gil Vicente escreveu 
o Auío dos J-'isicos. Na actual linpuagcm da Estremadura (Porto 
de Mós) phj^sico ou ^^sico decaiu da sua antiga acccpção nobre, 
c passou a significar curão, isto c, «curandeiron: assim se diz «o 
yrs/Vo d'aquclla terra», «o fisico d'aqueiroutra">, conforme as loca- 
lidades em que eiles habitam. Paralleiamentc a Jisico, tínhamos 
em port. &ni.: Jisica «medicina b\ No fr. da idadc-media ;?/jí-s/í//i' 
tinha também essa significação''. 



' CcalineUa amtra os Judeus. Irad. por Pi*dro Lobo Corrciii, IJsboa 1710, 

p. i32; cnas a 1.* ed. é de itjiiH. 

' Sobre o scniidii pe)DralÍvo quu esta palnvra pôde ter tido, cfr. Jaberj^ 
na Xfii3ch,f. roín. Phiío!., xxvu, >4. 

-' Libro de buen amor do Arcipreste Ju Hita (ed. de Ducamin), est. 252-d. 

♦ P. >9. 

S 1>. Duarte, Leal Conselheiro, p. i33. 

* Vid. Dicl. géwr. de ta langue fr^ », v. 




FAbULARIO PORTUGI^ $9 



pladoAo. pieduso: xi.vii, 7. Maspiedadc no niesmo logiir. Do 
Ut. pietosu*. — Também no ('attc. de Resende, i, 35ó, piadade, 
fornia ainda hoje corrente nu povo. 

pidir. pedir: i., \b\ tx, b. — É corrente em textos do scc. xv 
e ameriores e posteriores: \id. Arclu Hisl. Porí., 1, 56, 2Ç)9 C420; 
Sousa Viterbo, Ttipeçarias. p. i3; Duc. para a hisí. da tjpogra- 
phi\i. I, 24. Hoje ainda popular (Sul). — Cfr. stgttir. 

pobno. povo: xux, 8. — 0$ 00 são etymologicos : lat.popu* 
(l)u*. — Forma corrente em português arcaico; alterna com poinki. 

poborar. povoar: xux, i.— Cfr, Viterbo, Elucidário, $. v. 
pobrar, pubramcnto, eic- No Arch. Hist. Port.. 1, 430, povorar 
(sec. xv), I, 3o2, {sec. xvi). 

p*d<>rlo. poder^ faculdade: vti, 14. A expressão /Werro . . de 
mal ftbrar pude traduzir-se em latim por facultas laedendt, o que 
mostra bem o sentido de pitáerío. Cfr. poderoso. 

podrroHO. que tem poder, potente, capa/: vii, i5, poderoso 
de /ilhas que lica^a potente com a ajuda dos fílhos; i.xiii, 8, era 
poderoso de lhe guardar sseii gado ^^ podia guardar, tinha poder, 
capacidade, pata guardar. -Cfr. nos Doe. Galiegos de los sigl. xiit 
ai x\i: «non seian podcrossos dea dar nen arrendar» (Í. ê, senhores, 
livres de a dar, ctc), p. 1 18, 1. 6~'j\poderoso de cm Moraes, ificc, 
s. V. i em prov., C. Appel, Provençal ische Chrestom., iSgS, n." 7, 
I. 34: «li rctenc pueih sa terra fit devenc poderos», 

p«rr. pôr: xl, 14. 

pollo. -a. pelu, -a: 11, 2b\ xiv, 11. Alterna pollo com pello. 

pO«< pó: xxxvii, 7. — Os 00 são ctymologicos : 'polo, cfr. 
JitP. ÍMsií., II, 364, e III, 2y7, nota. 

pooMiba. pomba: u, r. — Os 00 são ctymologicos: -paomba 
< lat. p atliumba. 

por^ni. por issu: \u, 72; xlii, 6; uu, i£>. 

pori|itr. nstu que : xuv, it); para que, xxxvi, 1 1 . Na expressão 
sstrm porque «sem motivu», xxxvi, 4, 5, c uvii, 7, a palavra» por 
ser independente, e não proclitica, recebe accento na ultima syllaba. 

pó» leni), atras de: xvn, 17 iamdando em pos W/ = indo atrás 
d*e!lcu 

pouro. Locução adverbial: loguo a pouca d' ora, ou somente 
apouca dora, xuv, 8, 11; liv, 3; o que significa «dabí apouco». 
Cnrresponde-lhe: depois, a pouco tempo, xi.viu, 10; i. é: «depois, 
passado pouco tempo», (^fr. ainda: pouco estando, \\, 3; búu pouco 
estando, lviii, 5. — Temos outros exs. era textos port. antigos: <e em 
pouca dora alongou-su», Jia Demanda do Sauto Graalt, p. K3; a 



90 



FABUUUtlO l^OKTUOU^ 



pouca d'oora na l 'hão de Tundah (vid. Hep. Lus., vm, 232). Ambos 
são do scc. xl^■.— À expressão a pouca ifora corresponde a peca 
de ovj ou a poça d'orj, e eu poça d'ora em hespanhol antigo: vid. 
Poema de Fcnian Gon^ale{. ed. de Marden, es:. 5i8-c, 689-d ivid. 
também p. i32; e confere no mesmo poema: a poça de sa;on^ est. 
'^4-á)•^ e Arcipreste de Fita, Libro de buen amor, ed. de Ducamin, 
est. i34-d. Cfr. o synonirao provençal, do mesmo t}po syntaclico, 
enbreud'ova, cm Bartsch & Koschwitz, Chrestomaí. prov. (6.' ed.i, 
286-t3'. 

prrfado. -n. de preço: xxt\, i3; de apreço: i.vi, 2. 

prr^-ar. apreciar, prezar; ivi, 11. 

|irefEiintar* perguntar: xxxiv, 31 (pregumtou); ixiu 5 (íd.). 

prr|MiMlfn. propósito: iii, 22. 

prcsentar. apresentar: xi.v, i5 (pressemtarom)- 

prr»Ma. .ipuru, apêno, urf;encia: xvi, iS^ s\y, 3. — A evoluirão 
scmatotogica foi a mesma que cm aperto. 

prrHtar. emprestar: iv, 6. 

prrh<r» iadj.), pronto: xi, 4; xxiir, 3i. 

prllgo. perigo: x, i4(pnigos); xii, 24(prJiguo); xxx.igfprijgo) 
xuv, i3 (prijguooi. 

prlnielr» (ila). primeiramente: ■ ■ Cfr. hesp. deprimero, 

prohe. pobre; xit, 23. 

probprlilo. provérbio: xiv, 14. 

probrza. pobreza: xir, 3o. — Alterna com pro^; vid. csle 
vocábulo. 

prol. proveito: 111, t8 (prott). Km xviii, 10, c feminino <tua proll). 
Em xxxiv, 29, iam de proll, i. é: «tão fidalgo», «tão nobrci. Cfr. 
jDrVc. de Moraes, homem de prol; iv. anr. preu d'homme, mod. 
prudhomme, prov. prodom, ital. prvduumo. 

provr. pobre: xt, i4.^i'.ír. priife\a. 

proTrltar. aproveitar, dor proveito: xxxiii, ly. 

priiipza. pobreza: xii, 29; i.v, 16. — Alterna com jpfo^-; vid. 
este vocábulo. 

provrncift. província: xr.ix, 4 (proucmçiasi. — Este vocábulo 
creio que não foi ainda archivado nos nossos léxicos; apenas ^'i- 



> O texto diz: 



s en hreu d'orn no m'auireyaTií 
que, s'el vos ama, vus Taniau. 



A locução de que trato nSo vem assignaluJa no glossário da ChrestmtialMe 



terbo, Elucidário, traz provença como do sec. xiv. Nos Dialigos 
de .S. Greguritif ms. do mesmo suculo, existente na Bibliotheca 
Nacionul', Hs. ig-v-, ié-sc lumbcm prorL-ticia. Numa caiiiisu v^iic 
ouvi cm 1904 cm Castro Laboreiro (Allu-Minho; cntrii pruly<fticia; 
aqui a cito: 



Adeus ó billa d-Acrusto, 
Prvhencia de Trás-os- Montes, 



No dii que td num hcjo 

Meu& olhos som (ou tCuf) Juas Tonio^ 



Cfr. Pfoença. nome de terra e appeltido. 

piilNO. \\á. tocar. 

piinslr. picar, ferrar icm sentido physico): xxii, 3. — Klcxão: 
pmtf!tio, ] .-■ pessoa da prés. du indicativo. 

qurliraniar. quebrar {em sentido maieríab, despedaçar: \tv^ 
6 (quebranotar-sse-ha); quebrar (em sentido moral}, interromper: 
XXXVIII, íG iquebrantauan as tregoas*. 

<|iir4l»r. ficar: xv, iti (os homces quedam em vcrgomça), 

qiireiíle. quente: x, y. — Os ee são et) mnlogicos: por Ciíettle 
<Z lai. c adie n te-. 

qiieMiliirjl. quentura: vii, 7-$. — Os ee são ctymologicos; 
vid. queenic. 

qiirrrlar-Hr. qucixnr-sc: i.xi, n». 



IC 



(VÍ4I. com r- as palavras que no texto começarem com rr-\ 

rSa^ rá: m, 3 (rrãa) — Os aa são etymologicos : lai. rana-. 

rabAz. adj.^ que arrebata: t\i, 72, na expressão «lobos rraba- 

zcs». Análogas exprcssOcs se encontram cm Sá de Miranda, (ibras. 



' Marvaçfio l-iblioihccal; ^;|-,. 

s A cantiga conicm um Orro geographito, pois Crasto (que aKi soa Acrastoi 
aSo líca em Trds-os-Montes; ellc porém é mera adnptaçâo local de outra que 
começa : 

O Villa Re«l alegre, 
Frovinciu deTrás-os-Montes. 

O povo altcnJuu só à rimiu c não ao sentido. 



9» 



rABULARio roínucuus 



ed. de D. Cnrolínjt Micha^lis, iobo roa;, lobo rapa^, Ittbo ritba^: 
vid. p. (fSo. O adjectivo c pois especialmente appticado a lobo. 

mrloiiavll. racionevel: xx, i6 irracioniiuyli. 

razoar, discorrer, conversar: xxxii, 6 (rrazoari. Cfr. ArchifO 
Hisi. Povt., 1, 418, num lexto do scc. xv, no sentido de «upresentor 
razões», «discorrer», aallcgar». 

rnzoiti. ra^áo: viir, 4; \xiv, 4 irrazom). 

rosrlad». gêlo: x, 3 (rregelado). — farticlpio de regelar, tor- 
nado substantivo concreto; cfr. nu lingoa communi gelado, corto 
doce muito frio. Este vocábulo creio que é agora archivado a pri- 
meira vez. 

rr Ixnar (rreignar) ^= reinar. O ^ é meramente orthogruphico : 
lat. rt gn are. 

rrlnli». rainha: x.xiii., 9 irrcynhas). 

rrm. cnusa: xxxiv, -ib irremu na phrase estereotipada «por 
nhenhúa rrem do mundo». Na poesia dos nossos trovadores c muito 
frequente nulha reií., por ex. no Cancton. da Ajuda, ed. de D. Ca- 
rolina Michaclis, vol. I, pp. 1 19, 141, t47, ctc, por imitação, sup- 
ponho cu, do proven*;»! nulia ren [nulhii, uuilla. ctc.)'. 

rcpenfler-ae. arrcpemler-sc: i, 14 issc recpeindemjf xlvu, i& 
(iTcptrmdcrmo-nos). — Allcma com arrepeender (com dois tvl. 

rrz4ini. razão: iju, 53 (rrezomj. — Alterna na mesmu fabulu 
em vrj^om: 6G (^bis). 

rlhrt. Vid. arriba. 

rlhiildo. mau, velhaco: ix^ 14 (rribaldak. 

rllr, rir: xi.v, 17, iS (rrijr). No texto saiu, por erro tj^pogra- 
phicui rj-r em vex de rijr. Os ú são etymologicos : lat. ridere 
(com mudança de conjugação; propriamente 'ridire i. 

rogar. Empregado transitiiainenle: «este roussinoU ho rro- 
gauíi . . quei, xxxi, 4; landaua irogando paremte[5 c ajmygosi ^^ 



' Também no Canc. de D. Denis, ed. de Lan^: milha cousa, v. i53; nuíha 
sa^om, V. 56fí; nu//iii rem, v. 104a; milha rem -naila", vv. 677, 117}^, ctc; per 
nulha ri-m, vv. 6^3, (J8<|. Cfr. exprci&ócs .inalogas cm provençal (Barisch & Kosch- 
nilz, Chrestomat.. Marburgo içio^): si m'escomet 4e nulla ren, col, -J72-1 ; per 
nuilla ren, col. yS-is; no- i pol nulla ren parlar, col. 173-11; ^'en nulla sasom 
non prjura, col. 37[-ik. A&siin como hoje na nos>a liiigoa literitria ha ntuilos 
franccsismo!), tamhcm na dos trovadores Iirtío cfirios provcnçalísmos. Digo que 
nulha rem (ou ren} surn unt d'eUc», pnr i&so t|ue o lul. iiulln não podia dar 
nuiha cm port. {a gerainai^-Su -u.- deu -^]; discordo pois de .1. Cornu, Gram. 
derpcrt, Spr., n.* ed., S 139. Sobre o Ih prov., cfr. íiomania, xxxxv, 334. 



rA.nULARIO rORTUGUfvS 



93 



Biidava implorando» isi, 16. — Na ling. pop. mod. usn-se rogar, 
transi tivamcn te, no scniido de «convidar homens para o trabalho 
agrano»; d ahi se fez o substantivo concreto roga ■coniunto de 
^cnte que vai rogada para a vindima» (Douro). 

rONlr«. rosto: xxiii, S irrosiro). 

roíiHNlufil. rouxinol: xxxi, 2 (rrou5sÍni)ll). 

rovelver. revolver: xx, 3 irrouclucrt. — Esta forma, se não 
ha erro, está em vez de 'rovoivev idissimiiação vocálica); e *rQ- 
VvUver resultaria de revolver por influencia da labiut v no e surdu; 



S 



^Vid. coro s- ns palavras que no lexto estiverem com ss-) 



ftabrilor. sábio: prol., 6 (ssabedor); vit, 3 (id.). Empregado 
ora como substantivo, ora como adiectivo, e muito usado nos sé- 
culos XIV e XV : por ex. Ancieus lextes porí., de Cornu, pp. 28 e 29; 
no cod. illuminado n." 47 da Hiblioiheca Nacional, ti. 3:; no í.eat 
Conselheiro, p. 411; na Hisi. do imperador yespasiatto, 2.* ed., 
p. 62, etc. 

sab^r. gosto, prazer: xxxii, 2 (ssabor), na phrase: «o comia 
a sseu gram ssabor». — Ainda hoje a sabor se emprega em alguns 
casos: «ao sabor do vento», «ao sabor da fantasiai, etc. 

«aborldo. saboroso, em sentido physico: prol.,i8(ssaborído); 
xxxii. 10 1Íd.^ 

»ab«roftainoii(e: xm, 5, na phrase muj' ssahorosanwttu: i. é, 
com muito contentamento, muito contente. 

Malain»ni. Salomão; xxxiv, 43 iSsalamam). 

Naplriirla. sabedoria: 1, ib. — Latinismo ide origem ecctestas* 
lica) também usado noutras lingoas românicas. 

Mfa|»:ir. escapar: xxiii, 32. — Alterna com escapar. 

Hf.inirrer. escarnecer: xrx, 8 (scarneçiam); xxi, 8 líd.). 

Hciiilrlro. escudeiro: xt.v, 5 (scudejiTo). — Alterna com esc-: 
i3, 17. 

fterr: O ser: vi, 9 isscr); 2) estar: i.xi, bz fssee); 3) sentar-se: 
Lxi, 43 (sseer). Este verbo, no sentido de «scntar-sc*, alterna mesmo 
com asseenitar: co caualeyro . . po^isesse a sseer, e o uaqueyro ou- 
trossy 5SC assemtou», lxi, 42. 

mesiirar-iic. fícar seguro, sossegar, tranquillizar-sei uv,4(ssc- 
gurarom-sse). Cfr. seguro. 



Hffturo. iranquillo: t.v, i5 (sseguro). — Cfr- em heap. anr. $e- 
fÇíiTo «iranquilloi em Bcrcco: \id. I^anchetus, Gram. y vocab., s. v. 
flcnil>r»ule, semblante: xl, 3 (sscnbramtc). 
HPaielliar. parecer: v, 7 (ssemelhaua). Alterno na mesma 

fabulíi com parecer. 

HOniHhaTll. semelhante: u, i3 (ssemelhauilj. 

Neni|>rr e niiiira. nunca icmpliaiicamenici, em tempo nl- 
giim: XII» 3?. Cír., quanio y forma, o hcsp. sictnprc jamas, «siempre 
com sentido esforzadoí {Dicc. de lu Acad.i. 

jnenhor: xxxiv, 14. Nas instituições medievaes senhor era o in- 
dividuo que tinha, por concessão do soberano, a jurisdição de uma 
terra. 

Keiioiii. senão: xxxtv, 8 (sscnomi. 

í»ro. seio: x» 6 (sseoi. 

Nrrmvin. discurso: xxiri, i4(sscrmom). Cír, /j:icr hngtto set^ 
viont em Duarre Pacheco Pereira, Esmeraldo (sec. xvi>, ed. de 
Kpiphanio Dias, Lisboa t9o5, pp. 7S, 82, 96, etc. 

Hl$:iilr. seguir: xxxiv, 41 (ssiguyr). Cfr., quanto ao primeiro 
í, pidir. 

Kllva. selva, bosque: xxvit, ti(ssilua). — Ainda no onomástico 
temos Silra Escura, etc. 

Mlmllldom. proporção, conformidade, semelhança: xv, 6 (a 
phrase è: «ssc tu ouucsscs assy fremosa voz com lu has as ssimi- 
lidõoes do teu corpo», i. é, se tivesses voz conforme ao leu corpo); 
XX, 14. 

MO. sob: III, i3; xi.vi, 1.— Alterna com S(jI> em i.xii, 18. 

NnbrrlMiNO. soberbo: 11, 22 (ssoberboso). 

Hodalro. sudário, pano de enxugar o suor: i.xi, 3í> (ssodairo^. 

Moer. costumar: xwv, 7 (ssova). 

Holamrulr. somente: xx, i2(ssolamentci-, xxv,!6(id.); xxxiv, 
5o (id.). — Também se lê solamente no I^ai Conselheiro (por ex. 
a p. 2r*, a par porém de snoiHeiíte. porcx. a p. 33 1, e noutros textos. 

»»oml»ra. sombra: v, 3, 4 (ssoonibra). Os 00 são etimoló- 
gicos: cfr. Iisíiiíios de Philoi. Mir., u, 317, 

MON|ii*l4'»ni. suspeição; i.v, 17 |ssospey/im). 

ftONleoi*. soltrer, aguentar: xi.i, 4 issostccinos). 

ftofrrrar. enterrar: xsxiv, 4 (ssoterrado). 

«poraufa. esperança: xx, 11 (spcramça). 

flllHO, acima, supra: sf/sn dicto, xxxfi, 20; xxxiir, 12; xxxiv, 40. 
Também no Aw/ Conselheiro se lê suso dietas, p. Sy, etc, a par 
de $mo scripfas, p. 14. 




FABULARIO POItTUGUI:S 



tal. na expressão tpor tati que nom ladre» - para que não 
ladre: iii, 4. 

laUnte. ^'id. taletite. 

Ial«>nte. vontade: 1., 2 (talcnote); 1.XI11, 3 (id.). — Aliernn com 
talante em sii, 14 (talamte"); xxiii,io; \xvn, 11 (Tatamic). Noutros 
textos portugueses antigos oscillam tambcm taletUe c ialaníe: viú. as 
observações de Roqucte no Leal Conselheiro, p. 267, noia i. Em 
hcspanhol antigo dá-sc o mesmo: «desit me vuestro talante», Arcíp. 
de Hiia, Libvo de buen amor, ed. de Ducamin, est. 61Í4-C, «sabre 
vuestro talento. íd., est. 676-c. Hoje usa-sc ainda em português 
talante em algumas expressões estereotypadas (<a seu talante»), 
mas nãu ialente. 

(alhar, cortar: vrn, i5, «talhar o collo» ^^dcgollar. — Na lin- 
goa moderna usa-se ainda talhar nesse sentido, mas só cm certos 
casos: talhar um fato, talhar o bicho (em líng. pop.), cic. 

ta\o. teixo, no sentido de fruto do teixo: xxxv, 18 «húu fniyio 
que ha nome fiixo». Também nos fabulados latinos da idade-mc- 
dia se encontra taxum neste sentido'. — Para os antigos, a arvore 
chamada em latim taxm, era de caracter infernal, por ter fruto 
venenoso. O nosso Fr. Isidoro de Barreira insiste no caracter pe- 
çonhento do teixo, e cita as auctoridades da antiguidade romana 
que o nbonam, Ovídio, Plinio, cic.'. — No Fabulario taxo é mern 
laiinlsmo por teixo. Ksta palavra hoje usa-se pouco; não foi assim 
porém outrora, pcis no onomástico mcdemo resta ainda do pas- 
sado Teixedo, Teixeira, Teixello, Teixoso. 

<eer, ter: i) cm sentido commum, x:v, 1 1 ; 2} na expressão «par- 
tio-ssc das aues, e nom quis tevr da hún pane nem da outra», xxx, 
7, i. é: ficar, ser partidário; cfr. fr. tetnr pour qiiel^u'un «ne point 
abandonncr son partii^. 



' ViJ. Fabulas dn Anonymus Neveleti (c^Walter Angliciis) no Lyoner 
Yjopet, etl. de W. Kiirstcr, Ilcilhronn iSSi, p. la^, fab. xux, v. i3; «vitat auis/a- 
xui»". Alguns mss. tem loxum c laniuin (vid. Íoc. r/l., nota: e Hervieux, Les 
fabulisífS latins, 1, 3/ ed., 3^i). 

* Tratado J.i significação das ptanías, CJaboa i%S, pp. 3a9~33o (a i*. ed. 
é de 1622). 

^ Dia. gênèr, de la íang./r., 1. 11, p. 3i36« co). aj in fíne. 



qti 



lABIiLAKIO t-OKlUUCÉS 



terra: i; synonyoK) de «alcaidaría», terrítorío que está sob a 
alçada do alcaide ívid. esta palavra), xxxiv, 36; ai synonymo de 
«reino», X1.V, •;, pois alicma com esta palavra, ib., 4. 

Ilfom, úçáo; XIII, io. 

Ilrar. puxar, iii, i3; xi.v, 8-9 {* tirou fora de ssua espada»). — 
Cfr. o fr. tirer. 

larar. na expressão ileixa-me tocar Ivu pulso»^ xxviii, 8; hoje 
diríamos f tomar-te o pulsoo. Cfr. lat. tange)'e rcitam, venarum pui- 
sum aílinf^eie. 

todalaH. todas as: xvi, 9. Alterna com todas as. — Própria- 
menie todalas esiá por todalas — "todas las, com as»milação do 
s ao / do artigo arcaico, e absorpçãu consecutiva. 

lodo, tudo: XVI, [6. 

tolher, impedir, vedar: vi, i3. 

frnhulhnr ilr, esforçar-se por: xvn, i5, 16; xix, 31. 

Iras (em), atrás de: xuv («os caaes cornam em trás e1t>). 
Esta expressão não foi ainda, como creio, archivada nos nossos 
léxicos. 

[trav «Migado, atravessado: viii, 12 (trauessado). Alie ma com 
airauessar na mesma fabula^ 1. 3. Vid. o que se disse s. v. vaira- 
tvssar»]. 

flranladn, iractado: xxi, 8. 

Irebelhar, brincar saltando: xvn, 4, 7, 8; xmii, i5. Vid. íre- 
beiho. 

Irebelho. brinco: xvin, 16. — Temos em português dois vo- 
cábulos nesta fórma. os quacs não devem confundir-se: i) trehe- 
Iho, substantivo abstracto e verbal derivado de trebeihar, — é o que 
SC emprega no Fabulario; 2) irebelho, substantivo concreto, — no 
sentido de peça do jogo do xadrez, etc. De modo que trebdhar 
vem do subst. concreto Irebelho; e n subst. abstracto irebclko, vem, 
como digo, de írebelhar. O Caturra, no Nopo Dicc. da líttg. port-, 
confundiu em um só estes dois vocábulos, originariamente distinc- 
tos. — Aos textos citados por Viterbo e Moraes, em que se lê ire* 
belho nos dois sentidos, junte-se mais: V^da de Maria Egípcia, 
sec. XIV, publicada por Cornu', p. \6\ Demanda do Santo Graalt, 
ed. de ReinhardsloetincrS p. 14 {irebelho, irabelho. e certamente 
por erro trabalho). 



' Anciens rexifs portugats, Pnris 188», «tr. dn Romania^ vol. n. 
9 Vietina de Austría 1887. 



tAnttt ,\RIO PORTCGUrS 



97 



tre«d*r. traidor: x\i, 5; xxx, ai. — A fôrma treedor presup- 
pfie outras anteriores: •ívaedor, 'traidor, esta ultima com o dissyl- 
labo ã) (não ditongo), por assentar directamente no verbo trair, 
de que foi considerada substantivo verbal (a^ente). A moderna 
ft^rma traidor iduas syllabas| assenta em traditore-. 

Irrlladado. trasladado (partic. de trelladar): prol., b. 

Ir^inelrr de. cuidar de, occupar de: xm, 14. 

Ircl^^nm. rraição: \xx, i3 i.treyçona). 

Irlhula^oni. tribulação: xuii, i2j Lvii, i4-i5. * 

Irtliiilado. uttribulado, dorido: kxvii, 3. 

Irllfco. trigo: xii, b (trijguo, 23 (id.); x.\in, 5 (id.j, 17 (tiijgo), 
33 (trijguop. — A forma fniifo encomra-se noutro texto ant., citado 
por Cortesão, Subsidias para um Dicc, s. v. Se iV tcra valor pbo- 
nelico, poderá admittír-sc que a evolução da palavra foi: trItícu-> 
tridigo' > 'Iriidgo > triigo. 

XJ 

{U consoente: víil. v-) 

n. onde: iv, 12 ^hu); \iii, 3 (id.l, em que alterna com onde 
lomde) na I. 4. — Provavelmente u era já arcaísmo, pois é raro 
nestas fabulas. 

fia. uma: passlm. 

MM, um: passim. — Os iiu são etymologicos: lat. unu-. 

nvari 1) teimar, porfiar, permanecer, ser useiro e vezeiro, 
xxn, 1 1 i 2) usar com. ter uso cora, ter trato com, xxxv, 4, 7 (cfr. 
hesp. are. usar con). 



rStti vã: na expressão uãa gloria, xwiit, 3; e uSas glorias, 
xxix, 29. o segundo exemplo mostra que estas expressões valem 
por duas palavras, c não por uma, como hoje. 

taiHo. certa vasilha: xjx, 4. Kra prato ou outra semelhante, 
pois n texto diz: hún raxelo mtiy larguo. Esta palavra creio que 
não está blinda archivada nos nossos léxicos. — Do lat. vascel- 
lum^ deminuiivo de vas tvaso». A mesma palavra existe noutras 
Ungoas românicas com sentido variado: fr. yaisseau. ital. pasceih. 



Rcprcsentndo pelo hesp. ant. : vid. PJdal, Gram. Hisl., 2.* ed., $ 9^i* 



yfe 



FAIiUI.^RrU fORlUGUI^S 



T*er, ver: i\', is; xvi, 3. — Os ee sfio etymologicos: Int. vi- 
dcrc> *ve(d^erfc). 

T^rsoii^n; t) vcrgonh;i, xv, i6(vcrgomça); xvii, 17 (id.>; 2)c= 
pudúnãa: \u\^ 3. — Do lat. vcrecúndia, i. c *v er'gond i a, 
onde -dia, por estnr depois de consoante, deu normalmente -ça, 
como em Pt*rfíi< vir'dia (de virdis); cfr. hesp. wrgweíijiT. 

T^rinrPN. vermes; m.ih, 14. Presuppõe o sing. Víinnê, que 
Viterbo, hiiicid., cita como do scc. xiv.-^O etymo está no lat. 
vulg. *verm*nc-, deduzido de verminosus: cfr. hesp. are. 
bierivii, ital. férmine. 

verlttde, virtude, no sentido de «capacidade», «valor», como 
virtus em Uitim: \xx, 10. ^A forma rertudc é corrente no sec. xv: 
em D. Duarte e Azurara; no cod. illuminado n." c^ da Biblioteca 
Nacitmal, também do mesmo sec, ti. go-r, lè-se igualmente iw- 
tiide; e ella existe ainda hoje na lingoagem do Alemiejo: \"id. Rffi: 
I.usil., 11, -24. 

TPNKOf verso, no sentido de «sentença»: xi., 2B. — A mesma 
palavra, no sentido porem de «verso» ou «versículo», se encontra 
nos bied. de Alcobaça, iii, 12, em um texto já citado por Cortesão, 
Subsídios, s. V. Esta è a legitima forma portuguesa,— do lai.versu-, 
com ss por rs, como em arésso < a d v e r s u-; talvez mesmo vesso 
se pronuciasse fêsso. A forma yérsu c mero laiínismo; cfr. jtwi:soa. — 
No sentido de «sentença» ou «adagio" temos cm Gi! Vicente, m, 
371, versu. Cfr. também hesp. are. nessoK 

vrzlnho. vizinho, vii, 2. — É a forma legitima portuguesa, do 
lat. vulg "vecinu-, c toda a gente, que não falia com atTecta«;ão, 
assim pronuncia hoje, embora, por influencia do lat. clássico, vici- 
nus se escreva vivinho. 

vianda^ comida: \ix, 3. — Gallicismo jd amigo. 

*Tlr. vir: xxix, 32; xi., 14; xi-iv, 14. — Os dois fV são etymo- 
logicos: lat. venire. 

vilania, palavra própria de vilão, injuria: iconpcçou n dizer 
muyta vilania», xxix, 7; «e disse muyta vilania», uti, 5<3, — Neste 
.sentido não vem nos léxicos. 

vlllio, camponês, rústico (por opposiçâo .^fidalgo): x, 3 fvil- 
lãao; Liv, 2 (vilãaos). — Cfr. hesp. riliano. Aindn hoje na ilha da 
Madeira vitlão corresponde a aldeão, çaloio, eic: Cupertino de 
Faria, O Archipel. da Madeira, Setúbal içioi, p. i?a. 



> Vid. D. Carolina Mk-hftclis, in Ffstschrifl /tt/oZ/T^ufr/fr, 190$, p.31 enot«3. 



rADOLARio i-oirroct:f:s 



9*) 



vUlIr. vestir: xxi, 4. 

vôotude. vontade: xxii^ 4. — Os 00 são etymologicos: lai. vo- 
(l)unt ate-. 

riirmo: nxvii, 8, na expressão <o pastor . . tírou-lhc a espinha 
e muyio uiirmo que já trazia», á qual corresponde no P.' Manoel 
Bernardes, Noi'a Floresta, u (1708^, Ô9-160, quando se occupa 
du mesma fabula: «tircv-lhc o abrolho, esprcmi-llK' o sauuiie podre 
e matérias que já tinha criadoi, — ^d'onde se vè qual é a delinição 
de tfiirmo. Ainda hoje dizemos «rwnruir. — Forma antiga, paral- 
leln a vurmo, é hritmo. G. Baist, na Zs.fUr Hom. Phiiol., \xvni, 
1 1 1, dÍ7., sem probabilidade nenhuma, que tanto fiurmo como brumo 
podem ter vindo do francês gouniie. 



ERItATAS l)OVOCARt.'I.ARK) 



S. V. i^/aago: cfr. n:i lingoD nioiL-ma /^r^uWro, ondv à ipor ser aioiío, mfts 

aberto) icsicmunha a antiga ilupliddfidc Jo a; está ^dr faagueiro. 
S. V. algo: cfr. muito algo nus Anckns Texlcs de Comit, p. i. 
Emcnde-sc a I g u u em a I g Q u . 

O vocábulo armuzello lalvez ^líiiiilique no noi>so lextci -uii/ol*. 
No artigo correspondcnie a f>an<:ar, I. 1, cmcnde-se guanfoso cm gunnço-o, 
S.V. mi: cmende-se na I. 2 lenha sido em /asse. 



105 



FABQU.VRIO HORTCGUÍS 



CONS[DERAÇÕES GLOTTOLOGICAS 



GKAMMATICA 

No Vocabulário precedente archtvci todas as palavras antigas 
que se encontram no nosso lexro. Agora convém que eu especifique 
os caracteres archaicos que a phonetica, a morphologifl e a syntaxe 
do mesmo texto apresentam; na secção consagrada á phonetica 
farei algumas Cfinsíderaçoes a respeito da orthographia. Depois 
do estudo da grammattca direi duas palavras acerca do esiylo das 
fabulas. Por fim procurarei determinar a cpoca da lin^oa^cm. — 
Para as ciymologías das palavrns citadas vid. o Vocahularío. 



A) PHONF.TICA 

I. As vogacs aionas apresentam algumas oscillaçÕes: i alterna 
com e; u alterna com o, — o que succcde, quer quando as vogaes 
são iniciaes, por cx. emngo—intiigo, ermida — irmida i hifmtda)^ 
enjuria — injuria, quer quando, sem serem iniciíies de palavras, 
estão comtudo em syllaba inicial, por ex.Jbgiv— fugir, podia — 
pttdia — pudera, bugio — bogio. Ora se mantém o e e em circunstan- 
cias cm que hoje ha » e i, ora succedc o'invcrso : arroidn, molhei', 
cusíumtí, sobio, friry legar, mesta: milhor. miulir, missigeiro, mi- 
surado, mi^quinho, rertude, vislir, obidiente, deslroir. Phenomenos 
avulsos: cir.xempio (e nasal inicial)^ /ímiÍosíi íhn]c piedoso). 

A terminação latina -vn i nos verbos deu -vm, por ex. comérom, 
disseram, tomárom, mas ouvéram, prctcr., lvíi, 5, c tiram, lvii, i i, 
se não ha erro de a por o; -ant deu -atn, por cx. estavam, cxcepic 
engáiiom, xv, i5í -ent deu -em, por ex. procedem. Provavelnnente 
iis terminações verbacs aionas -am e -em soavam ainda -ã e -ê, 
c não 'ão e -êi (-Si), como hoje. 

Nos verbos as terminações -eo, -io absorvem a enclitica o (os): 
comeo ;^ comeo-o, u, 21, c in, 16; vios^ vio-os, m, t^;J'erÍo = 
fcrio-o, xti, 17; rectbeo = rcccbcoo, xxxiv,3i. Este uso c corrente 
noutros textos antigos (portugueses e gallegos). 



a. A vadunt corresponde píij»i, lix, ia; a siani corres- 
inde estam, prol. i3. Temos -om no futuro; acusafótn, xlv, i3. 

3. Mantem-se os digraphos iónicos -ea e -eo (hoje -eia, e cio): 
por ex. a/tífíi, alheo, cheu, feo, freo, nieo. sto. Atonos: leom (a par 
de liom), Wtfo/íj. Temos lambem /tíror < lai. peíore-, a par de 
peiorar <.\At. pcíorare. 

4. Manicmse o dilongo tii (hoje reduzido a n) em cttitelaAã, 
^«satitar, /ruiío; e o ditoiígo aii (hoje reduzido a d) em trautado. 

5. Quando da syncope de certas consoantes entre vogaes iguaes 
iltaram ditongos ou dlgr^iphos que nu lingoa moderna estão 

"reduzidos a vogaes simples^ onícs uu nusaes, o texto mamem os 
ditungos ou o& digraphos: 



-I.- 


-V- 


-D- -V- 


aa 


algQit 


cobiiça pãau 


a/aago 


arrcpeender 


crcer 


braadar 


búo 


empeecer. 


coobra 


gaado 


Jiees 


cruèi'ees 


homêcs 


meqiWw 


diaboo 


injiittdo 


pe4: 


doo 


Jajtlu 


seer 


estáives 


lãa 


(reedor 


fiees 


maukãa 


pcer 


maa 


ptendença 




notàftfs 


rãa 




paancada 


sosteer 




poboo 


teer 




poo 


uu 




poomba 


i^a 




queente 


j>&mêfí 




vvuniade 


t^tr 





Ê de notar que, a par de braadar, se encontra bradava, xvi, 8; 
a par de coobra se encontra cobra, lix, 9 (cm fim de linha, porém); 
a par ác^seer se encontra ser, xxvm, ao, e serás. xx.vm, 9; tambcm 
se encontra /e, xxi\, -it), e rria, xu', i«>, a par de riir, duas vezes, 
ib., 176 iH- Primitivamente as duas vogaes resultantes da syncopc 
pronunciava m-ise dísiinctas uma da outra, como se prova dos ver- 
sos dos Cancioneiros; com o andar do tempo ns duas vogaes fun- 
diram-se em uma só, mas continuou a escrever-se maa, poo, seer. 
O encontrar-se no nosso texto ser a par de seer, e por outro lado 
o encontrar-se ahi i'aas, xuu, 6, ataa, 00 a par de ho, c antiiguo, 



to-i 



yxwSiJittio 1'OKruc.iits 



onde a duplicação dus v<^a<:s não c ei^mo lógica, faz crer que a 
oscillaçúo da pronuncia se dava já no tempo ena que se ei.creveu 
o nosso texro, ou pelo menos no da execução do manuscrito; to- 
davia podia o copista ici-se us vezes cngunadu'. — Km moor temos 
lambem o duplo. — A par de bóu o icxio apresenta hoo: vid. o Vo- 
cabuljrio. 

(5. Da syncope de -n- em -onc- c -ane-, c de -n- e -n- em 
-itbiNK-, resultou respectivamente -om, -am, -Õe (e -««), símis que 
hoje estão reduzidos d-ão: 



-ONE- 



-AME- 



•VDINE- 



cabrom 


ra^om 


cam 


mansidSe 


cajom 


sermom 


gaviam 


muitidom 


condiçinn 


siispetçom 


pam 


simildom 


cmjissom 


líçom 






ladram 


treiçom 






kom 


íribidacom 







Em fçalardutft, de origem germânica, c cm a/am, de origem 
desconhecida, temos respectivamente também -om e -um. — Do pi. 
• ONES, -ANES e -roíNEs vcÍo respectivamente -óoes. 'ãiies. -óoes, 
por cx. Jadrúctes, cãacs, simildõoes. -A par de cabrom temos ca- 
bram, IJC, 2, 3, b (três vezes; a repetição mostra que não é erro 
de escrita); a par de leom {liom\ lemos U-am. xxii, 10, mas o mais 
usado c leom; a par de ladram lemns ladram, [,xi, i|; a par de um 
exemplo duvidoso de capom. temos cinco vezes capam, lxii, -2, 3, 
5, 7, repetição que mostra não haver erro de am por om. — O lat. 
-ANvestá representado iguiilmente por -íjo, como cm irmãao, xx\iii, 
7, p-ãao, xxuj, 20, 3'ilãao. xr, 7, mãao, xvn, 3, sáao, xxva, 10, pala- 
vras cuja terminação corresponde á lat. -anv-; cfr. ainda lottçãao. 
XXIX, 3, O hesp. Ui\ano, a i|ue alguns iittribucm origem germâ- 
nica (got. laus), mas que poderia vir do tat. * lautianu-, de- 
rivado de I a u t u s . 



I Possutinu& i^rovas de que oscilliit^So d« ee para t c.vistia jií mi lempn de 
D. D«nis, pois csle rcÍ-irovador, m; coniuva. por exemplo, súo como dissyllsbo, 
contava bem (de bie < b e n e) como monosyllubo : vid. Liederbuch, ed. de Ling, 
n," 3^ ctc. — Claro está que, aisim como hoje umas pessoas di/cm pouco, ou- 
uas póco. ou uma mesma pessoa Jiz, conforme us cirt'unsinncias, ora Mj, ota 
òoa, ora noite, or» nautf, também na. cpocn cm que- começou a simpijticaç&o 
dos digmphos ou dila4])tn> haviu òn haver varíiiçõcs dv pronúncia. 



FAltULARIO IKHtTUOUtiS 



io3 



7. De non veio ttom, hoje não; de sunt veio sum, hoje são. 

8. Na classe das consoantes labiacs temos: -b- > í^ em avon- 
dar < abundare; pro3'e^a a par de prQbe\n; temos b por v em 
bibera < v i p e r a c proberbto < provcrbium; lemos -bh.f- 
> -^^íV cm estãpil, a par de débilU; xxxvii^ r3 (latinismo); temo-s 
poborada. 

t|. O s- (s impuro) está representado, ora por s-, ora por es-: 
sperança — esperança, sendeiro ~ escudeiro. Cfr. escapar — scapar, 
onde es- (s-) provêm de cx-; escarnecer, a par de scarnho, de ori- 
gem germânica. — Depois de semivogal está s reduzido a_/' em ca- 
fom <. (oc)casionc-. — Havia constanic differcnça cmre s-ç e 
/-;. Em mÍ:{qu\7tho o ; tem origem arábica; cfr. hesp. me^quino. 

10. -Qvo está representado por -co em inico. 

11. Grupos de consoantes: bi- > br era brasfemar; fl- >,/r- 
cmyiw; -m'l- > br em sembrante. 

m. Phi-nomcnos geraes. Dãse proihese de d cm abastar, 
aboher, abiiler. achegar, alevaufar, alimpar, jrrefees, arroido, 
Epenthcse em celesíriaí. M e t a 1 h c s e em a/remosetitar. per- 
catar a par de precatar (confusão de pre- e per-t^ probe, e cm -airo 
por -ario: contraíra, sodairo. Apocopc cm àrvor, el. Aphc- 
re.se em magiuar. S j-^ n c o p e em simildões. Assimilação em 
assoher, avcrsidadf, trdladado, resso. Dissimilaçao vocálica 
em aricjicioso, homecidio, malecioso. reiínlio; consonantica cm/rul 
por /ror. Pur influencia do r temos çarrar, e do í temos elamciito 
(cm iirabos os vocábulos mudança de e em a). 



OBIHOGRAPHIA 

i3. O que SC vac dizer é natural complemento não s6 da phone- 
tica, estudadi) a cima, mas do que se disse na iniroducçao deste 
trabalho. 

14. As \'Ofiaes tónicas estão ás ve/.es duplicadas: 00 (inierjeição 
«ho», que porém alterna com o, Uy 18, c com Iío, w, 3), ataa, 
trijguo. prijguo, imijgo, anlijguo. Cfr. Z &.— Caso avulso é obee- 
decer. i.vm, 14. 

i5. Oitongos c digraphas: 

A vogal tónica do ditongo nasal ou oral, cujo segundo elemento 
é e ou o, diiplica-se geralmente : capõoes, pínhôocs, simildóoes, câaes, 
irmãao, mãao; <juaaes, saae. nuuio, paao, dooe. 

A subjunciiva i dos dilongos esiá geralmente representada por 
_y; murtas, foj', vay, mays, í/í;»'- rodnvia também se encontra i ey".' 
pois, depojs. 



I04 



rAIIUt\RIO PURTfGLhS 



i6. Uso àcj.f e í; 

É frequeniey por r; ex. ajmda. jroso. l/j^o, Jmçertas, Jnwemo, 
jmjíjmdas, jrmida, a par de liuro, etc. K trequenic r por /'; guj'Sd, 
ssr. Cíirr, /r, aguya, a par de guisa, agitia, ctc. Km íciã, xi, 2.7, 
lenQos I* pory; mas seja. xi, 29. Parccc-mt porem que o roais geral 
é r nas iónicas ey nas atonas; 1 pory t: raro. 

17. liso de ^ e ^.■ 

Ha alguns casos raros de^ pur gu antes de tr e (.- Ugemm. ui^ 8 
(em fim de linhais algem, xi^ i3 itambem era tim de linha)^ xxiv\ 14, 
Juf[efra, xiii, 1 1 (com um pequeno traço sobre o g: representará 
o a?í, agia. xxx, 14 (cm fim de linhat. Estes exemplos são pouco 
comprovativos de que realmente o escriba queria com g represen- 
tar gu Cl. c., podem ser enganos ou recursos para poupar espaço»; 
alem d'ísso, em contraposição com clles mesmos, encuntra-se al- 
guém, xviii, 14, águia, .vx.\, 3. A respeito de burgés, vid. o Voca- 
bulário. 

Nfl fab. i.xi!, 14, lÊ-se /ugo «fujo*. Comparável a esta forma 
é/ugadis. que se Ic no códice iltuminado n." 94 da Bíblíotheca Na- 
cionalf scc. xv ou anterior, H. H9, e/ugau, que se !ê na Crunica 
Troiana, scc. xiv,A*ocab., n, 33i. ("omquantn não fosse impossível 
que no lat. vulg. da Lusitânia houvesse *fugo e *t'ugam, talvez 
porém em todas estas palavras g valha y.—Cfr. também coi-riga 
no Leal Conselheiro, p. iSg, c «legam, que Roquete cita na nota 
àquelle passo. — No citado cod. illuminado ha também mangar 
= manjar. — (lomquanto no nosso ms. fosse mais natural estaryi/- 
guo, se ti g tivesse o seu valor de guttural, todavia nem sempre 
o escriba representou o g por guo, por ex. trijgo (a par de trijguó). 

Exemplos de gu por g: amiguos, antiguo, augua, cápiado, di- 
guo, engtiordar, foguo. greguo, guaado, guaailo, guarguania, lu- 
guar, meygua, traguo. ínjguo, vimguamça, — a par porém de auga, 
engotttar Tquasi cm fim de linha), trago, gaado, galardom, guar- 
gania, trijgo. — Eru Ibiguoa o o mostra que depois do som guttural 
se fada, como hoje, ouvir uma vogal labial. — A razão de se em- 
pregar gu estii em querer frisar-se perfeitamente que g não unha 
o valor dey que muitas vezes se lhe dava, mesmo antes de vugaes 
que não fossem e c i*. 

18. Uso de qu: 

Parallelamente a gu por g, lemos qu por c cm açerqua. 
ig. l"so de « e v: 

Usa-se u por p entre vogaes, entre vogal oral e consoante li- 
quida, e ás vezes depois de palavra proclitica: aues, deitemos, leuou. 



KABULAKIO PORTCCVl^ 



lOD 



ouuesse, crueuees, frouej'ío, aleuiimía, mouci; rrotteluer, \iiirauril, 
wotteUa, caualo, aueo, louuado, auysados, tnujant. auer, guouer- 
Uxissc, auemttawíçã, caualeyvo, ieuaiifjr, mavauilha, uisseni, nume- 
rosos prcieritos cm -aua, nono, liuro, liurar, seniiço, cruançQ, 
cruas, seruo, amor, conto, çertio, paiattra, caliia. ssaiiie. ssihiado, 
aboluer; o iiclho. húã wt';, de^ ue^es, e tiergonça, dd-uos, eil tico, 
a lios a tiyda, viuyto iturmo, ho uaquerro. 

L"sa-se v no principio de palavra e depois de nasal: vivia, ve- 
redes, virtuosamente, vãao, reiíhã, tvlhaco; foaitido. emveja, com- 
t'ida. 

Todavia tambcm ha excepções, sobretudo d primeira regra (u 
entre vogaes). 

20. Uso de h: 

Usa-se h antes de n em hu, húa. hiiu. hultimo, htinlias, hiisjr 
(a par de itssar). Antes de i em ht, higiiarias, hirnúda {a par de 
Jrmida). Alem d'isso cm ho (& par de o), haos (a par de aos)^ he. 
haar (a par de ar), hesloria (a par de csíoria)^ houJro (a par de 
oiítro\ cic. Pelo contrario falta h cm muitas paliivras em que hoje 
SC emprega: oje, omildoso. aver. 

21. Consoantes inicíaes dobradas: 

É frequente no principio hnver ss-; também se encontra muitas 
vezes^-, e ás vezes //-: ssua,Jfny, llãa. Quanto a rr-, vide u que 
digo na Introducçúo. 

22. Consoantes mcdíacs dobradas: 

Entre vogaes, l e // oscillam: villãao, vilãao. Notável é entre vo- 
gaes o uso, por vezes, de ss- por -/- {isto c $ sonoro}, também 
existente nouirob textos: pressmça. quassy. presseiilar, missena, 
ussar. Alem do uso normal de ss. como boje, encontra-se: com- 
verssar (a pfir ds persoas)^ emssj-tios (a par de etnsitiaiia)^ cotisselho. 
As avessas, temos s por ss em comese, xix, 7. 

23. /. final: 

O / linal de syllaba, ou / gutturalizado, c frequentemente re- 
presentado por //'; ell, proli, crudmenlc, mali. aquell, quall, rtU, 
froU, peyíorall, rrorissittoll, srlluado. Todavia também se encontra 
vil íem fim de linha, m, 24), qual íem fim, v, 41 mas qual lambem 
noutras circunstancias), ssiluado. 

24. Em certos casus «m que ha crase de vogaes, o ms., como 
outros muitos textos, representa apenas o som resultante: córneos = 
comeo-os, d'aguia -^ da águia. Cfr. S i* 



■ Cfr. Rtr. Lusiiatu. r,.i>^. 



io6 



FABULARIO POBTUGUliS 



Bi MORPHOLOGIA 

Tratarei succcssívamcntc dos nomes, dos pronomes {com os 
arôgosi, dos verbos c das partículas. 

a) NoMFS. 

2?. o plural do substantivo sol, vii, 3, é sotes, vii, 7, e não soes, 
como hoje. Fernão de Oliveira, na Gram. da ÍJtiguagem Port., 
2.* ed.', p. 109," da uma regra conforme com esse exemplo: %sol 
fará toles^ e não soys, e rol roles e não róis, por diiferença das se- 
gundas pessoas destes verbos: soyo, soes, por acosiumar, e royo, 
roes por roer*. — Os nomes em -am, -ont, -im, fazem respectiva- 
mente o pi. cm -ãae$. -Õt/es, -êfs: vid. LiS (3 e i5. — Sobre o pi. de 
deus (íieos) vid. a annoiação que faço lí fab. xi.vii^ 2. 

•26. Como vimos no ;; 8, os adjectivos latinos cm -bílis estão 
representados no singular por -;'// c -bilk: O seu plural c em -vees 
(5 5): csidfecs, .\x, \o^ cruérees, xni, 16 (vid. Vocabulário); mas crweeí, 
xxxt, que presuppõe o sing. cruel. 

27. O adj. grande, quando proclittco, apocopa-se frequente- 
mente, tomando a fÓrma grani, o que succede tanto antes de subs- 
tantivos masculinos, como de femininos, começados por consoante : 
gram temor, m; 10, grani j'ergotiça, \xm\, -27; ames de vogal em- 
pregii-se ip\iihie, que pôde também empregar-se antes de consoante, 
ma.i menos vezes que p-am': gr-anJe arroido, Lvu, 2, p'aitde eu- 
veja, Lxi, 5, — grande temor, t.vii, 3, grande sanha, i., 12; no pi. 
é grandes: grandes golpes, lxi, 34, grandes jyj;ís, xxx, 6.— Na lin- 
goa moderna pcrdcu-se o uso geral de gram. que liceu apenas cs- 
tereoiypado em certas expressões littcrarias, como grão mestre. 
Em hcspanhol, porém» é ainda corrente, gj-an sermòn, granregtta. 

b) Pronomes e artigos. 

28. Como pronomes demonstrativos temos; aqueste, a^tiesla (a 
par de este, esía)^ esto, mcdèí, aquelP (a p;ir de aqucUe)^ aquello, 
eito. Como pronomes pessoaes: eli, tanto em próclise, como cm 



> A !.• eJ. c de i536. 

I De uma esiaiistica cjiiti tiz^ que, comquanto n3o seja completa, 1; pordn 
extensa, vc-se que gram se emprega 14 vezes anXzf. de masculino, e S vezes antes 
de feminino, ao passo que grande se emprega 3 vezes untes de masculioo e t 
antes de feminino. 

3 0& ex». que colhi de aquett &ão em prOb-líse.-^No pL afuelles. 



FABtlLARIU PORTUGUÊS 



107 



pausa* (a par de el!e*)^ plural elles; em com ligo a preposição vem 
separada do pronome, xl, 14, 22 (cfr. no Leai Comalheiro, p. 1 16, 
aun mj'gf/); lhe, plural, 11, 25; vii, 4; viii, 21; xu'iu, it (a par de 
the$'). Como pronomes indefinidos: jI . . ai (iii, 20), algo, algSu, 
algiia, cousa (iv, 6), tOiio iiicuiro) «tudo». — A respeito de homem 
empregado como pronome, semelhante ao oti fr., vld. Syntaxc, 
S 35-c e :; 'iij-f. 

29. Artigos: Sn, úa. O urtigo definido conserva o / quando li- 
gado com certos pronomes ou partículas que terminam cm s c /; 
amhalas, wx^ 3, ioJalas, xu, 34 (a pjf de Iodas as, xvi, ^)^ poUo 
(que alterna com pelo). 

C) VEKBOh. 

30. Fhenomenos communs: 

A 2.* pessoa do pi. do indíc. c con). terminam em -dcs, e a do 
iinperat. em -de: 



percaães, xxxiv, 36 
tomedes. xxxiv, 36 
veedvs. xi.viii^ 4 
vefedes, prol., 1 1 



ajudade. \li, 9 
dãde, XLt, 9 
comede, xix, \b 
J'a:{ede, xi.vni, b 



morvedes, iii, 12 

um exemplo avulso de syncope é dees. xlii, 7, na 2/ pessoa pJ. 
do prés. do conj. — A 3.* pessoa pi. do prcs. e imperf. do indic. 
e do prés. do conj., do condicional, do fiat. do conj. c do prés. do 
intinlt. termina respectivamente em -am e -am, terminações que 
de certo soavam -S e -ê (cf- S »): 

1 II 111 



curam 


detfcm 


se/^iwn 


levavam 


scarneciam 


subiam 


accusariam 


defendam 


viessem 


desprcctm 


escondessem 


-^ 


filhassem 


tiverem 


— 


enganarem 


escarnecerem 


— 



sendo excepção notável enganom. xv, i5, 3.' pcss. prcs. indic. (sc 
não ha erro de o par a). — A 3.' pess. pi. do pret. indic. termina 



' Por. cx.: xiiXiv, i3 c 211; lxh 10. 

3 EIte acha-so lambcm cm pmctisc: v, 3. 

3 Por ex.: xxi, 11. 



loB 



FABULARIO I-ORTIICUIÍS 



cm -om: compeçarom, comerom, cobrirom; excepções nolaveU (sc 
não ha erro de copista) são; ouveram, lvii, 5 (mas ouverom nos 
outros casos, xlix, 5» etcj e riram, lvii, ii (mas rirom, l, 8). — 
Na 3." pess. pi. do fui. indic. temos accusaróm, \lv, is', n par de 
averdm, xxxix, 14 (como o fui. é formado de aver, notarei que a 
3.' pess. pi. do prés. é constantemente ham. por cx. xxiii, 17). — Na 
ligação do pronome com o futuro, ora sc intercala aqucllc, como 
no português literário moderno, ora não, como na lingoagcm po- 
\>xi\ht: fa^e-lo-hemos, xlvii, 17, (em port. moá. fa-l(hhe}ttos);fará-o, 
V, 9; matar-t'á, xi.iv, 8. Futuro pcríphrastico: [a]vojio5 scer: xi.viii, 
20, — O pari. prei. é uma vez em -iido: peettçiido, i.xi, í>o, a par de 
vencido e de outros muitos cxs. cm -ido. 
3r. Verbos avulsos: 



AVER 

ouveram (prci. perf.), lvii, 5 
at*e (imper.)', xvin, 10 



DAR 

dey «deu»^ xji, 4 
divs, xi.ti, 7 
áadtí, M.I, y 



ESTAK 

csteverom, xi.i, :b 
estcívr, i.' pess., xxix, 16 
esternos (conj.H, i.vii, y 

FAZKR 

^:{e a fy, \iii, 14 jH^sse, xiii, 12; xlvi, 4; xxv, 4 

/e^esie, 11, j5; vm, 14; xii, 12 fedesses, i.ni, 8 

_/í';e-o^ Ml, 10; xiv, S; lxi, (ío; /e;í'sst'fff, xix, 20; xxv, 5 

XXX, 14 
fedemos, XI.IX, 9 

fe^erom, xlvi, 8; xvii, 12 farã-v c fa;tílo-kemos: S 3o 

federa, xii, 7^ i.x, 7 fa^ede, xlviii, 5 

vaas ivaesB^ xuii, 6 



federmos, xlvii, 16 



■ Também no I^al Conselheiro, p. tSo: jroderóm. 
» Lat. habc. 

' Lat. dc{d)it. Iri forma corrente no scc. xiv [Denxanda ân Sãoto graall). 
Mus Uíic c o utiicu exemplo iÍD Fiibulariu; a par liu deu. 
I [.at. stemus. 

^ Quando tndcptíntknte é/ej, iv, i3. C(.f>ose-a, 
*■ C(. Estudos de PliiM. MimnJesa, 1, 443. 



IU-:Q\'EÍtER 

reqwret xxvi, i8 




SKER 

som: LVi, 10, i»; i.xí» 
53; xxviii, 7; xxxvj, 
6; XXXIX, 8 
soom: XI, 4 
see^: i.xi, 52 
som, 3.'pess. pi.: 11, iG; viu, 21, 

XXIV, 1 I, XXXIII, tb 

Juy «foi»^: XVI, 9 
forom: 111^ 10 

seerem: xii, a 5 



SVBIR 

sube fimper.), iii, 8 

TEER 

/ím*; pr., 18; sx, 18 

íeemos: vii, p 

teetides: xi.ii, 4 

ícem9: pr., 17; 111, 20; ix, 3i 

hitiha "*; nt, 3 

/etTfmos" (fut.): vu, 10 

sos/eí/mw (^sos-teemos); xu, 3 



• Lat. •morias, por moriaris. 
í Lai. pariam. 

3 Lat. «ponct, por ponit; cf. gall. e mir. f^S. 

4 Parece resultar de sai^.i •\- sáMa (lat. sapio-), 

5 Talvez seja erro por sóo. 

<> Lat. s c d c I . A fabula diz ssec asseentaáo »cná sentado». Ha certo pleo- 
nasmo, poÍB sedcrc j<i du ú quer dúer «estar seniado>. 

7 É forma corrente no sec. xiu (Cnncíoneiros). Mas éounícoex. do Fabu- 
barío: o u&ual é/oy- 

8 Lai. ic ne(t), Clr. pom. O -e apoíopou-sc por estar desprotegido. 

9 iM. t e n ti 11 (t). O segundo e conscrvou-se j^or estar protegido pelo -n(rj. 
"» Lat. vuly. «tcnia > 'iTía. Cfr. viinham. 
" Por lenremos í 'teiie remos). K forma corrente no scc. xv c anteriores. Cfr. 

vcrrà. 





no 



FABUL.\R10 PORIUCUIIS 



VALER 

pai: Lx, i3 



VIIR 

feo': iiif 3; IV, 14 
veevom: xvii, 11 

í'iittham': xxxviiif 4 

/iTrtP; xuv, 7 



d/ío (= a-vco): xxxiv, 4 
etUtvyeit (= entre- veo): 

XXXVIII^ 21 

íí) Particdi.as. 

32. Nas preposições e locuções prepositívas temos: per; 
por no seniido de «paran (i, 2: v, 12; \i\, (J, cic; cfr. Leal Con- 
selheiro, p. i8o);jpem; omtra; atitre; em fo&; acerca; perante; ar- 
riba de; per diante «peraniee: ii'avante; em trás (xuv, 2); aii/e 
«dcamc dc« (xi.v, 16.) 

33. Nas conjuncções e locuções conjunccionaes: mais Kin, 
21) a par de mas (xxin, 19); pêro; mentrex que; ataa que; em pêro; 
como «quando»; etiírementes que; em meníres que; ãepots que. 

34. Nos advérbios e locuções íidverbiaes: atanto; ctide; 
sxiso; er; acerca; solhmeiífe; eras; hi; hu (a pnr de onde]\ sempre 
e mmca; eníom; assi; ora «agora»; acô; da parle definido; da pri- 
meira ("xi.ix, 10); /d mítica (xxxi\\ 26; iix, 8); d'atanto; tanto •xâo* 
(x, a; xi-v, 36); senom; ante «anteriormente» (1,1, 10). Adjectivos 
empregados adverbialmeiuc: certo; furte (11, 9). Em cortês mente 
(xxxis, 2) temos o sullixo ainda separado, como se conservasse o 
seu primitivo valor de substantivo; pelo contrario esiá junto ao 
íidjeciivo em cortesãmenfe (^xii, 3, onde por éiTo saiu cortesameníe'*). 

C) SYNTAXE 

35. Orações impessoaes expressas de varias maneiras; 

a) Com o verbo no ptural, por cx.: «nom lhe p/niem contra- 
dizer»» vi» içt; fscanieciam d'e]íai', xix, 8; outros exs. xxxiv, i&, 
e i.x, 8. — Cfr. Epiphanio Dias, Gram. Pari., f. 112-b. 



' Prclerilo (forte) era -o, de 'vcou- < >TeQÍ(t). 

* Cfr. tiinha. 

3 Por venrá ('venirá). Cfr. terrtmos. 

* Foi o Sr. Eptphanio Diati quem me advertiu d'£Ste Crro. 



FABUIJ^RIO lORTUCUl^ 



II 



ò) Com di^, cm narrações, por ex.: «c no Avangelho di^»^ xlv, 
37; tdi^ que fov hOa vez húu leom»^ xi-vi, 1; «no exemplo di^».,\nu 
22. — Nos Anciens tcxíes portugãis de J. Cornu, Paris (882, en- 
contram-8ç vários exemplos análogos, do sec. xiv: «asy como cola 
de húu homéa, p. 27^ adc aquelí velho de que^JZ/j na léenda de 
Siincto André», p. So; «hu conta que lhe veo gram têptaçÕ carnnU, 
p. 32. O Conto de Amaro publicado por Otio Klob na líontania, 
XXX, bo4 sqq., começa assim: iconla que em huúa provjcin auya 
huú hóem bôó que auya nome Amaro» (p. 507). Ainda hoje no 
povo c frequente começar-se uma narrativa impessoalmente por di:{. 

c) (*om homem, que scnc de pronome, como o fr. on, c o prov. 
om {homu por cx.: «c homem que está cm prosperidade em este 
mundo nom dcue escarnecer do minguado», xxix, 3o; «o mal que 
homem faz», xi \', ?3. Na origem homem linha o seu valor de subs- 
tantivo c cra o suieito lógico c gr.mimatical, o que ^e vc ainda 
nestas phrases: apor nhúa gram tribulaçom que o homem aja*, i.vn, 
i3; «poucas vezes pôde o homem empecçer na razom», i.xi, 66^ 
onde até vem precedido do artigo; e no plural tos homêes nom 
deueni a fazer a outrem o que ulles nom queriam que a elles fe- 
zessem*, xix, 3o-3i (a uhima oração é impessoal, com o verbo no 
plural, como supra, $ 35-ai. Nestes exemplos basta só ura salto, 
para passar, de homem, como .substanti\o e suiciío lógico, para 
homem, como pronome e sujeito meramente grammatical. A ideia 
geral, contida em homem, tornou-se indefinida.— São numerosos 
os exemplos d'csic uso cm português antigo: cfr. as notas de Ro- 
qucte ao Leai Conselheiro, p. 26S. 

36. Repetição plconasiica da conjijncção inicgramc que: «ajmda 
nos ensina mais, que, ssc nos algiujcra ssauda, que nos nom as- 
sanhemosB, xi, i3; oproincttendo-liie que, sse o desse ssfiao, que 
lhe faria muyto algoo, vui, 6-7. — Este phcnomeno é muito fre- 
quente em português, sobretudo quando ha grande separação entre 
o que c o predicado, t) mesmo succcde em latim: Madvig, (iram. 
Lai, (trad. port.j, j 480, obs. 2. 

37. Panicularidades de concordância ; 

a) Sujeito (collecfivo) no singular c predicado no plural: <toda 
gemte te lança de sy. coní nojo que de ly hamv^ xxin, avi. Apesar 
de na primeira oração estar lança, no singular, na uhima apparcce 
ham, no plural, por estar um pouco mais longe de ^nte; podia 
também ham considerar-sc impessoal, cfr. ;' 33-a.- -Sobre este 
uso na nossa lingoa literária cfr. o meu opúsculo O texto dos Lu- 
síadas, Porto 1ÍÍ90, p. 3i sqq. 



lU 



FABUI.ARIO PORTfGUIvS 



h) Dois sujeitos no singular e o verbo no singular: «a cmiurín c 
ucrgonça nom lie d'aquell que a rrcçebeí, xviu, ia-i3; mem lobo, 
nem outra anjmalia nom lhe /jçííi dapnoi», xxvii, i3. — Isio succede 
frequenicmcnie em português quando os sujeitos são mais ou me- 
nos synonjfjios, como aqui. Cfr. no Leal Conselheiro, p. 280: <a 
prudência e discreçom ,jiier obrar acabadamenteo; nos iMsiadas, v, 
38: «este clima e este mar nos aprese»! a*. 

c) O participio passivo, que faz parte do tcmpo-composto de 
um verbo, concorda cm género c numero com o complemento di- 
recto d'esse verbo; upeccados que auemos/ícr/os (=fcitosi»^ xi.vii, 
16. — São tão numerosos os exemplos d'este uso em português an- 
tigo, que nem valeria a pena citar mais nenhum: «todos avjam 
feita esta promessa», Demanda do Santo Graall, p. 18; «tenho 
vysíos e ouuvydos muitos cn\emprosB, I.eal ('nrtselheho, p. 212; 
■quem vos tivesse ywjVíit/tJ.'», Gil Vicente, ui, 66. Vid. as notas de 
F. Dias Gomes, Mem. de Liit. Port., iv, 65, e as de Koquete ao 
/.m/ Conselheiro, p. 82. O uso é commum a outriís Hngoas româ- 
nicas: viii. Diez, Oram. des l. rom.. in, -269 sqq., onde lambem 
cita a nossa lingoa archaica. 

38. Emprego das preposições. 
Preposição a; 

a) Depois de andar (exprime o termo do movímenio); «andar 
ti hCm aldeia»., xu, a; «andaua a caçar das alimárias aa ssilua*, 
xsvti, 11. — Hoje emprcpa-se nesies casos ir. 

b) Depois de crccr: «orts nom quisemos creer ao bóo comsselho 
da amdorinha», \i.vni, 8; aiiom dcuemus creer nem ssiguyr aa 
voomtade da molher*^ xxxiv, 41. — Mas creer em, Liu, i2-i3. 

Preposição de: 

c} Na expressão; «tam rrico e tam de prol h.^ xxxiv, 29, exprime 
a qualidade. — Cfr. Epiphanio Dias, Gram. Port., S iS3. 

d) Ligada com o artigo definido, constituindo o que os fran- 
ceses chamam artigo pari iíífo: «farás deíuaproil*^ xviii, 10, >cora- 
pecou a talhar das arvores quanto lhe prazia*, xxxix, 6 (= a cor- 
tar aiiwps. A palavra quanto c complemento de amplitude: cfr. 
Epiphanio Dias, Gram. Por!., Z 122); «tomaram dopam pêra dallo 
aa boca», xi.i, 21 ; «dcram-lhe da augna a beber», xxxiv, 21 ; «queria 
dar-lhe do pâo*^ lu, 3.— Sobre este uso em port. ant., hcsp. ant. 
e outras lingoas românicas, vid. Diez, Gram. des l. rom., tit, ?i.( sqq. 

Preposição em: 

a) Depois de verbos de movimento, exprimindo logar para on- 
de: «voou em liiía íiri^on, xxxi, 11; «ir cm para^sooy xljii, 16; 



FABUI.AF10 PORTCGÍTfcS 



YS 



•subc cm cima de mira^ iii, 8-9.— Este uso, que é corrente no 
português do Hrnsil, acha-se hoje limitado a algumas phrases, corao 
sair vm terra, cair »o laço; cfr. Moraes, Dicc. s. v., onde se citam 
outros exemplos clássicos :^i3A'soh em Africa, sairent os Mouros na 
ilha. São tudo exemplos em que em latim se empregaria m com 
accusaiivo. O portui(ucs moderno, com as excepções que citei, c 
alguma outra que não me occorra, rejeita este uso, c si*» emprega 
fi/H nas circunstancias cm que cm latim se empregaria tu com abla- 
tivo. 

if] Nas expressões «guardou na auga*^ v, 3 = olhou para a 
íigoa. Cfr. lai. ittspicere m specuUim. 

c) Na expressão «quando forom asseentados na messai, xix, 
3 e ia. — Hoje dizemos assentados á mesa, cxprimÍndo-se com a 
a proximidade: cfr. Kpiphanio Dias, Gram, Port., " 134. 

d) Depois de tisar cm : ahusam ssempre em ellnsi [em maliciasj, 
XIX, n,onde mar significa «porfiar", «ser useiro e vezeiro». 

Preposição por: 

a) Depois de curar: «curar j?or a sçietiçia*^ 1, \i (cfr. hoje oiliar 
f)or)\ mas na mesma fab., 1. i3, «curara d'eila*. 

b) Na expressão por o de Deus, xi.iti, 17, = por causa de Deus. 
Vid. a respectiva annotação. 

3í). Kmprego dos pronomes e dos anigos: 

d) Os pronomes pessoaes el, /í podem cmpregar-sc com o va- 
lor de accusalivos, sem preposição, como complementos directos: 
enforcariam ell, xxxiv, i?'; achar (y, 1, r>; amar íy, i.xi!, 12: nom 
temo ly, xxn, 7. Todavia tambcm se diz pleonasticamcnte^ e com 
preposição, como hoje: se te a ty achasse, 1, ã. 

Quando cm português temos de empregar hoje mim, ti, etc, 
como complementos indirectos, isto é, com a funcçáo de dativo, em- 
prega-se nleonasticamcnie me, te, etc, antes, e não simplesmente 
a mim. a ti; no nosso texto ha exemplos do emprego de a mim, 
a ti, mas sem repetição pleoiiastica de me, te: «praças que i\i fedeste 
a mym», vin, 14; dey vida n íj', viii, 14-1&; i'uj3\e a tj% viri, lí»; 
• estes nom perdoam a mj-m», xvi, 10-1 1 i/u^es a mym, 1, 5; «toda- 
Ias animalias vencem a tnym*, xvi, te 

O uso de mim, ti, si, isto c, das formas tónicas do pronome 
pessoal, e de el ielle)^ vós. etc, como accusativos é muito frequente 
na .literatura antiga: sec. xtii, «vos tcníh)adcs ele en uossa uidn»*; 



I No português lio Brasil dií-sc hojo tambcm nssim. 
) Rtv. ÍMSÍtana,viu, ^^ (artigo da P. ils Axevetlnl- 



114 



F.\BU1.,\RI0 PORTDGUtS 



scc. XIV, •cu matarei u6si> '; sec. sv, «satvaac mym creente e obe- 
diente a vós»'; «c sabe reger sy e os outros»'; «!)' servyndo»*; 
«ouve, Chrisio, mym»*. Também em fíallego do sec. xiu: «pignore 

d por V sólidos»''. 

b} Km português moderno é de uso na Hngoa literária inter- 
calar os pronomes atonos me, te, o. ctc, nos futuros e condicionaes 
dos verbos (tmcsci, por cx. huvav-te-ha'' ; só a íingua popular diz 
loupará-ie^. O nosso texto tem exemplos dos dois empregos :yj^í- 
lo-hei.farii-v, darei te, xxviu, 8. 

— c) Emprego de nehuu por «ninguemu: «nhíju nom dcuc brincar 
com .liguem siícm ssua \oomtadc> x\'ii[, 14; onchúu que está em 
Uberdade nom se faça sseruo» 1, 21. — Cfr. no Leal Ctmselkeirti, 
p. 2qo: *iiL'uhuú deve d'csctilhcr os moços guyadores dos exércitos 
guerrc.idorcs». 

ii) O pronome indefinido lodo junta-se ao seu substantivo .sem 
de permeio se empregar o artigo o: toãajeiUe, xix, ai, e xxm, 35; 
todas, bondades, xxxn^ 5i; lodo sseit proueytv, xxxv, 21; toda cousa. 
X1.11Í, líi. Ksíc uso é tão geral em toda a literatura portuguesa an- 
tiga, inclusive a clássica, que não vale a pena citar exemplos. Em 
portuf^iiês moderno é raro". 

L') Homem pôde emprcgnr-sc sem artigo, com as funcçfícs de 
pronome sujeito: vid. S 3?-c. Cfr. também; «o coraçom uill he 
aqucll que faz homem ssecr pêra pouco», xxii, 11-12. No seguinte 
passo «cia nom poderia ja nunca achar homem que a tanto amasse», 
XXXIV, 27, homem pude ser pronome indefinido, valendo por «nin- 
guém», ou pódc ter o seu vaíor próprio, poi.s hoje também assim 
se diria. 

f] O pronome relativo cujo, cuja pôde empregnr-se como 
predicativo, contrariamente ao uso da tingoagem moderna, 
que só o admitte como atiributivo: tiomou a cadella, cuja era 



' Demanda do Satito Graall, p. 5i. Nno deve eniender-.se matarei-vos, por- 
que a frase complct» c: -ou vós me matntlc, ou eu matarei voii». 
í Incditos df .Meottaça, 1, 23>. 

3 Leal Conselheiro, p. 289. 

4 Ibidem, p. 47Í*. 
'• Ibidem, p. 479. 

G Doe. galleg. de los siglas iciri ai xvi, p. 16. 

7 Vid. Epiphanio Dias, Grjm. porl., '^, ifíH. 

* Vid. a minha Esquisse d'une Diaieetologie Poriugaise, p. 147. 

*i Cfr. os meus Dialectos extremenhos, i, 19. 



FABULlRtO PORTCCnPS 



llí 



a casai (^^ de quem era a casa), ix, lo; «como sseu dono avia. atja 
a cousa crai (^ de quem a cousa era). xf.iv, 3i. Isto <í muiio fre- 
quente na litteratura jinliga. 

g} O pronome qual alterna com que, mas emprcga-sc em muitas 
circunstancias em que hnje se empregaria mais facilmente que, yoT 
ex.: «este autor Aiuia, a quall se chama Exopoi, prol. 3; aó gema 
preciosa c nobilissima, a quall jazes cm aqucstc vil! luguarl»,i, 3. 

h) Emprego pleonastico ou redundante do pronome demons* 
trativo: «o serviço que se faz de voontade, aquellc é bem feitoi, 
X3L\\ 14. Hoje diríamos: »o stírvifjo que, cic, c bem feitoo, ou *o ser- 
viço que, eic, esse é bem íeitoi, ou «aquelle serviço que, elc, 
ê bem feiíoi'. — Cfr. Madvíg, Gram. Lif., ■;. 489. 

I) Neiite exemplo, «jnoçenle do que ho lobo a acusava», xxiv, 8, 
está do que em vez de d'aqutUo de que, com omissão da preposição 
rft' enirc o demonstrativo o (=- aquillo) c o relativo que. Cfr. cm 
Bernardes, Nopa Floresta mão indico o togar, pois cito de memo- 
riai, «que vem a quem lhe doe a fazenda». Citei outros exemplos 
n-0 texto dos Lusíadas. Porlo 1890, p. 46. Pode dizer-se que o re- 
lativo absorveu em cena medida a funcção do demonstrativo. 

J] Na expressão «nom quis iccr da hfta parle nem da outra», 
XXX, 7, fiua vera precedido de artigo, por estar contraposto a outra. 
Todavia em \.xv, 10, lé-se: asse os rratos me faziam dapno d7i/7a 
paite, tu mo fazias da outra*; c cm v, 8: «absy perdeo hfia e a 
outra ". Era fr. lambem se diz l'un et Vautre, mas alii uu está sub- 
stantivado. 

k) Não SC usa o artigo definido em «as mais de jíeytrs», xlv, 3?, 
i.i, 3, expressão em que hoje se diria das pe^es. — Na seguinte phrase 
sentcnciosa, *rriT{om mostra que ireçeba mal aqucll que com ou- 
trem quer trebelhnr» xvm, i4-i5, omiiie-se o artigo ames de rra- 
\om, para esta palavra ter o caracter mais geral possível. 

40. Emprego do modo conjunciivo: 

Neste passo, <iem aquesta estoria o doutor . . diz que quando a 
probeza sse tnma com alegria de coraçom, nom sse deue chamar 
probcza, mas rrlqueza, porque a probeza he a raay» sscgura cousa 
que no mundo sscja» (mi, 28-3i)i ^ oração relativa, que c de sen- 
tido consecutivo, e está depois de um superlativo, tem o verbo no 
conjunctivo (em contraste com a lingoa actual). Assim também em 
francês: vid. Epiphanio Dias, Gramin . francesa. 8.» ed., S 3^2-b. 

Neste passo, "aquesie Exopo . . sse comta quedasse morto . . 
per emveja» (prol., t>-8), o conjunctivo está também em contraste 
com a lingoa moderna, pois hoje diriamos_/*jra. 



i6 



FAtlULABfO PORrOGtKS 



41. Kmprêgo do modo iniinítivo: 

d) Depois de cenos verbos o infinitivo ora se construc com pre- 
posição, era sem ella: 

aver: [a]ucmos seei' (futuro pcriphrastico), — cfr. S 3o; 

coBiiÇAn: cobijço de le ouiirr. xv, K; 

COMEÇAR e compiíçar: começou de creçer, SLvin, 10 (e outros 
cxs. cm xvn» çi); compeçou tirar e dar cout ssua espada, i-xii, 34; 
compeçarom a dt^cr . . e morder (no primeiro Ciíso cora a, no se- 
gundo sem preposição)» IX, 12; 

CREEa: o homem cree a auer avantagem, xi.111, i3', 

cuidar: cuydas a brincar comigo, xnii, 7; 

dever; deitemos de/a^er bem, xvii, 14 (outro cx. ib., •])\deuêra& 
a auer medo, xvii, 6 (outro ex. xix, 20); nom deuemos esperar, 
XVII, 10; 

entender: aJr lhe vmtvmdya de dar, xii, 9; 

FSfEBAR: esperar de fa^er bem, xvii, 10; 

oi^SAs: ajmda ornas de falar?. 11, 20; 

i'ROMtik"R; promeieo de lhe dar ssaude, viu, 8. 

b) Infinitivo regido de preposição a servir de sujeito: «a mym 
praz mays de comer trijguo . . que gallinhas» xii, 33. — liste uso, 
de que ha mais exemplos em português antigo, é raro em português 
moderno, onde porem se encontrara estes exemplos: «convém a sa- 
ber»^ icusia a cre?'»^ *custou-rac agaiihan». Noutras Ungoas româ- 
nicas é ellc corrente : il me reste de (sujeito lógico). 

1;) Na seguinte expressão « feria o seruo ssem seu merecer* xxx\i, 
5-7, o infinito está substantivado e precedido do pronome posses- 
sivo =^« sem seu merecimento"', i. é, tsem elle o merecer». Ck.sem 
lh'o merecer, )[, 28, c ssem ssetts merecimentos ( ^=sem estes lh'o 
merecerem), xxxi, 17. 

4a. Kmpivgo do participio: 

a) Exemplos de participio absoluto cm que o sujeito vem ante- 
posto ao verbo, contrariamente ao uso moderno': <c ellc morto, 
morreram os pacs» m.i, 24; «c as palavras dietas», xii, 28 (a par 
de te ditas as palavras» xxv, 12), ■cl! depenado partÍo-sse»xxi, 7. 

b) No seguinte exemplo, o participio do presente exprime cir- 
cunstancia de tempo, e vem acompanhado de preposição, por o 
verbo subordinante exprimir sentença: «nós ssenpre ssosteemos 



Cfr. Epiphimio Oiíis Gram. port., S 440-01». 




FAD01.ARIO POffTUGOeS 



117 



randc afam em andando de cá c de Há ctn muvtos trabalhos», tciJ:, 
-4. Cfr. Kpiphanio Dias, Oram. porí., Z 240-fi. 

43. Comparação: 

a) Na phrase «fará-os ladrúcs assi como si»,vii, 9, csperar-sc- 
hia na ultima parte d'ella assi como eile (e")^ mas o sujeito elle foi at- 
trahtdo para o caso do complemento ácfará, e lornou-se si (não se, 
por ser tónico: propriamente como a si). — D;l se em latim o mesmo 
phcnomcno: «suspicor, te eisdcm rcbus, quibus me ipsum, com- 
moveri», em vez de quibus ipse icomníoreor)-,viá. Madvig, Gratu. 
íat., i 402-b. 

h) Quando se estabelece uma comparação, a oração compara- 
tiva c expressa negativamente: «eu me comtento mays do meu 
l^râOf que iu nom te comtentas das rrique/as de rreisD, xxnif 20; 
«eu amo raa_\s raeu senhor que nom a t\ •, i.u, 7. — Na llngoafíem 
popular ainda hoje se observam factos análogos. 

44- Negação: 

Kmprégo plconasiico de íio»i depois de uma expressão negativa: 
«nem lobo, nem outra ammalia nom lhe fazia dapno», xxvii, i3; 
■ ncnhúa criatura nom poderia viver, vii, 8; « nehúa tiom tVe^e brincar 
coro alguém ssem ssua voomtndeo, wiit, 14; ipadre, nem madre 
nem paremtc nom a podiam daly tirar», xxxiv, S-<) fcfr. no primeiro 
membro a falta de nem; hoje dir-se-hia nem padre, nem madre). 

45. Collocaçáo: 

a) Inversão do pronome possessivo: «com grande minha perda*, 

XXV, 1 1 . 

b) Collocaçáo do sujeito entre o pronome pessoal dalivo c o 
predicado: «merçee que lhe I>eus faz», xxi, 14. 

C) Collocaçáo do adverbio iquc ás vezes faz de complemento 
directo) antes do inliniii\o dependente de um verbo; 

«mais poderio lhe damos de ma! obrar», vii, i5; 

«pcra poder muito mais furtar», vii, t6; 

«a mym praz mays . . comer mall, que bem comer c sscer 
sempre seruof., xi, '23. 

d) Inversão do infinitivo junt» do verbo de que clIe depende: 
• aquelles que enganar podema, vxxv, tõ. 

e) Inversão do predicativo : * persoas que usejras ssora », xxxv, 14. 

46. Varias particularidades: 

a) Na phrase «aquel! que de rrapina viue, mu)tas vezes lhe 
acontece que perde o corpo», xxxii, 22. Anacolutho. Corrente nos 
provérbios : vtd. em B. Pereira, Adágios, os que começam por quem. 

b) Outras particularidades cElo-as na» AnnoTaçõcs ás fabulas. 



FABmJWlIO PORTUGOÈS 



As nossas fabulas constam de duas partes: cnr£do c cpimythio 
(ct;tftv6ifv) ou moralidade. O enredo c em parte narrativo, em parte 
dialogado. 

Em tteral o cstylo ú muitu simples e familiar ; os diálogos muito 
naturaes. Ha algumas fabulas até de admirável singeleza, por ex. 
XI, xxvHi, XXXI. A fal>. xxix c notavelmente elegante. 

Como particularidade do cstylo do autor Dotarei o costume de 
coordenar asyndeilcanicnie ora dois adjectivos, ora dois substan- 
tivos: astrusafcdente, xxiii, 33;/d/sa ribalcia. ix, 14; maa maliciosa 
(alem disso synonymos e allitterados), xxv, 7; doutor poeta c sa- 
bedor poeta, passim. Outra expressão adjectiva synonyma, mas syn- 
detica: debille e fraco, sxxvii, i3. Nos verbos; esiíuardou e rio, 
XI., 17; rra^oar c fallav, xxxii, C*\/allou e disse. passinV. 

Não sâo raras as antitheses: assj- aos estranhos, como aos ami' 
ffos, ca murtas ve;es de pequeno s^-fuiço rreçebe o homem boo gua- 
lardomt MX^ 'Xí (moralid.r; vários exs. nos dialugos da fab. xxiii. 



' Nos nossos lexios antijíos ^íio miiíUi frcqii«n(cs as expressões 5 y- 
n o n ym a s, jn pnr hdhito on mero pk-onasmo, jii pnrquc umi) d'cllas era novn, 
c fícãVit u veWvj p;tia a explicar mcUior, ou vice-vcr»», já porqui; uma ci-a po- 
pular c outra liíerariu, jú ttnaliiiciite porque Uavia certas dtllerenças de seniido 
(em verdade poucas serão no uso da lingoa as expressões absolutamente sy- 
nonymas entru si; ha ijiiasi st-mprc alptima dilTL-roiiça). Por ex.: quíte e livre, 
a cadj plisso na lingoagctn da chancelaria; eniinendar e correger, &cc. xv {Ar~ 
chivo Hisí. Porl., 1, irn)); -chepado cm dtvoin e parentesco a ntís», sec. xv (ib., 
I, 443); .ttfíiM e apostos, ísq. xiv (Iffanie Josaphat, p. 6»; manda e testamento, 
sec. XV (collegiada de S. EbtirvSo de Valeoçu, na T. do Tombo), c em lat. bár- 
baro manda et lestamentum {Rev. de Guim., vi, 75); proes e percalços, %ec. xvii 
(alUlieraçSo ; Áixhivo tíisl.Port., i, 117); guila e gargantuyce, sec. xv (alliiter. ; 
Leal Com., c. i-, p. iSúi : esluigar e jpressar (ib., c. lxxxvi, p. 411, numa trjd. 
da VUa Cfiritti); aaras e altares, sec. xvi {Esmeraldo, 3.' ed., p. i>i); teve 
e ouve, sec. XV (Hist. de Vespasiano, a.* ed., p. 4J); rtrípojidío e dixe (Íb,,p. 43); 
falloulhe e disse, sec. xiv (Comu, Andem Textes, p. oj(. Nas demais lingoas 
românicas succcde o mesmo ; cfr. Wilmotio, Vèvolution du roman /rançais. Paris 
1903, p. 46, nota I, onde, ii outro propósito, >:iia muitos exs. do sec. xit, eni 
poetas. Corrente 6 tambcm em francês amigo a expressão ver ou printemps: 
cfr. CL Merlo, / nomi roman^i delle slagioni, Tarim 11)04, P' 4i< tiota. 



VAbCLABlO l-ORTUOPES 



119 



Temos o que os rhctoricos chamam «chiasmo» na fab. xi-, •ii-t'i\ 
Á mym pra'; mais viiter em mynhn liberdade e comer mall, que bem 
comer e sstvr sempre seruo. 

Frequentemente a citação de provérbios c ditos moracs anima 
o estylo: 

Buscar cajom comtra rrazom, 11, 24; 

A lingoa nom ha osso, 

Mai:> numpe v dosso i\iv, lõ); 

Muytas vezes o mcll 

Ssc mistura com íTelI (xv, no fim); 

A todo homem servirás; 

A quem errares, deil te guardarás (xix, 110 lim»; 

Malãdante he aquell 

Que sseu iiver nom vee (kijii, 26-27); 

Cam que mu)lo ladra, poucas vezes morde (i.iv, 8-9); 

Quem neyçiamentc crce, neyçio hc chamado e neyçiaracme 
peca (i.iii, i5); 

O boy pequena aprende de arar do grande, e quem quer 
castigar o Icom, tTere o cara (xxxv, g;. 

Às vezes porém o dízcr tica sobrecarregado de sentenças, umas 
littcrarias, outras ecclusiasticas: \xxi\, moralid.i wxvi, (> sqq.; ixi^ 
62 sqq. 

A estes defeitos accrescem outros: diálogos notavelmente pe- 
sados, xxm; narra<;ão deselegante, i.xi, 3a sqq.; confusão do sing. 
com o plur., xxiv, moralíd., e i.xii, moralid. '; syniaxc desleixada, 

L\lt, 2; XLVIN, I&í lAI, 7. 

Sem embargo, esta obra, pelo seu assunto, constituía grande 
novidade para o tempo, — habituados, como todos esiavan>, ao en- 
fado da prosa puramente mystica , c devia ser muito saboreada 
pelos leitores a qucui o autor a destinava. 



i Com e&tes ilois uliimos exemplos cfr. I^al Contelheiro, cap. k», p. 2Sn: 
'Uoi vinuosus amigos nom ilevenios duvydar qujnJo nom vyrnia» o conirairo, 
porque som cousas contraíras avcllo por amigo». 



130 



KAHUl.ABtO i>oKriiuui:s 



A linguiigem do K^bulariti on O iM^ru de lisopo, è sensivelmente 
scmclluinie, cmbtira talvez um pouco posterior, á dos ccxios con- 
tidos no Cod. Alcobaccnsc n." lOã^ publicados pelos Srs. J. Cornu ', 
\*asconcelios Abreu', Oito Klob-' c J. J. Nunes*. Todos elles são 
- do scc. XIV. Quem os ler, cncuntrará quasi a mesma grammaiica, 
o mesmo cstylo, o mesmo vocabulário que no nosso. Por exemplo': 
a comt''-o, corresponde córneos at sÍÍ, rfecebias'i 256; a ettf^nuidóoe 
VIII 23, corresponde sobígidâe s 7; a som (soowi), i.' pcss. de scei\ 
corresponde som (a par de sam) t 261 , soom at 7, só j 8 ; á 3.* pess. 
pi. pret. em -om corresponde -om em t, -om c -ã em at, -am c om 
em A, -ó em j; á 2/ pess. pi. -des corresponde a mesma terminação 
em todos os outros textos; a estáfevs concspondc ssemelhavves 
AT 3, semelharees j 1 1, don^ees \ 6. 

Alguns destes phcnomcnos são communs a textos posteriores, 
por exemplo íio lx'al Coiisflheiru, escrito emre 14-28 e 1438; mas 
outros ]Á não existem nessa data, por exemplo a terminação -des 
dus veibos. ijue no Ltíãl Comeiheiro está syncopada [podetloees, 
cotiipraacst': 

Se compararmos agora O ÍÀpro de iCsopv com a Dnitiauda do 
santo fp'aali', que é dos meados do scc. xn\ observaremos que 
este texto, a par de phcnomcnos communs ao nosso, como mostrei 
no csiudo da íirammaticu c dQ\'ucabulano, apresenta ulguns que, 
por serem mais archaicos, níío apparecem n-0 Livro de Bsopo, por 
exemplo, ai de meo 69, migo 78, chus 80, sya (imperf. de sen 6> 



' Anciens icxtes portugaií. Paris 1882 (cxir. do l. xj da Romatúa). 

a Lenda dos santos Barlaão e Josa/aie, Lisboa 180S, — Este irabalho devia 
iniitular-se Vidn do honrrado Iffanie Josaphal. pnis c assim que começa o tex- 
io._Cfr. sobri: elle Epiphanio Dins in /^. /Ur romanisdie Pkilohgie, \xvu, 

3 A vida de Sartcio Amaro. Paris njoi (cMr, do I. x\x Ja Romatíia). — E>ne 
trabalho, di'vin intitulyr-se Conto de .-lmi7ri>, pnis lissim começa o texto. 

4 Historia do cavatietro TunguUa, in Revista Lusitana, ■*iii, a^ri sqq. — Outra 
redacção d 'este texto, contidii no Cod. Alcolviceiíse n," 344, ftii publicada pelo 
Sr. F. M. Esteves Pereira na luesmu Revista, iti, mi sqq. 

í Abreviaturas que adopto: Ar^Anciens textes, j^Josaphat, Aí=Amaro, 
r=Tunf;uUo. 

ti Vtd. u meo artit;o "Formas vcrbaes arcaicas na Leal Conselheiro; publi- 
cado in MelangesCfiabanfíiu. 

7 £d. dti Kcinhurdíiocitncr, Berlim 1S&7. 



FAt}UI„\ltlO rORTVGUÉS 



t3L 



setuTom (perf.) lo, certas (adv.) 83, caer 93, iosie 81; também na 
Demanda súo correntes certos phenomcnos que só acciden tal menti: 
se cnconiram n-0 l.ivro de F.sopo, como: purtidpius cm -tido [per- 
dthio 2. metuda 3, coiihearda 4, feudo 11, sabiida SG,— ao liido, 
todavia, de vyudo n, e de couhoddo 7, ctc); a partícula er 3« 6, 
34, 82; dei ^dc\i 47, 93 (a par de deit, porém, p. 111, etc.t; retu 
30, 81. 

Alem dos orchaismos er, dei, rcitt e -itdo, que só uma vez se 
lécm n-0 Livro de Esopo, e que são communs, como disse, a elle 
c d Demanda, lé-sc Id, lambem uma só vci,/tty, fab. xvi, 9 isc não 
c crroi, a par dc/oy; a íòrmd/uy, que vem nos Cancioneiros, por 
exemplo em D. Uenis, v. [575 c t382', <f jd no tempo da própria 
Demanda completamente orchaica'. 

A conclusão que creio que se deve tirar d'esses factos á que^ 1 
por um lado, a linpoa da Fabulario ou O Livro de Esopo, no seu ea- ' 
lado actual, fica entre a da Demanda do santo graall (mais antiga) ^ 
e a do l^eal Conselheiro (mais recente), e que, por outro lado, o 
nosso texto é uté certo ponto modernização ou leitura nova' 
de outro anterior, tendo escapado ao copista os archaismos citados; 
certamente a redacçãti primitiva data do sec. xiv. Comprehende-se 
que isto assim seja, pois que a Ictlra do manuscrito ú do sec. vv, 
uu passo que a língua tem caracteres du seculu antecedente. 

Curioso ú notar que, assim como n-0 IJvro de Esopo ha ex- 
pressões que supponho vestígios de redacção anterior, também na 
Historia de Vespastano, que, apesar de impressa nos fins do sec. xv, 
é talvez copia de um texto mais antigo', se observa avulsamente, 
áei= deu, p. 45, como n-0 Liyro de Esopo. Em verdade, poderia 
suppòr-se dei ôrro por deu; mas, como a cima temos factos paral- 
lelos, não c illogico acceiíar essa forma como real. Também na 
mesma líisioria alternam formas verbaes em -des (3.' pess. pi.) 
e -«, aquellas mais antigas do que estas. Na Historia de TnnguHti, 
ao lodo dos participios em -ido, que são os normaes, occorrc uma 
única vez, como arcliaismo, derretuda^. 



' Ed, de Lsiip, Hfllle i8<>4,— Cfr. Ad, Codho, Theoria da Conjugação, p. 95, 
Qnde também cita/ui' cm um doe. do sec. xiii. 

3 Com o forma /or coe>isic na DananJa írequenics veres /of; p. 12, i3,clc. 

3 Na Torre do Tombo chama-sc leitura nova A (ranscripçSu que no »oc. 
\vi ae fer de documenios mais amidos : cfr. Pedro <lc Azevedo J^ Amónio Bailo, 
O Archivo da Torre do Tombo, Lisboa 1905, p. to(5 sqq. 

« Vid. a nnvfl cdiçiic fcUa por K. M. Eslcvcs Pereiro, Lisboa ii)o5, p. 24. 

' Vid. Rcy. Lusitana, viii, 143 fart. de J, J. Nuncsl. 



123 



rAliUIAltlO IHJKtUGUhS 



ANNOTAÇÕES ÁS FABULAS 



Com as notas que juntei ao texto no pc de cada pagina tive 
a mira unicamente cm toniá-lo inicllcgivcl nos passos onde por 
ventura houvesse alguma dúvida, pelo que cila» sno de ordinário 
apenas palcograpincas e phoneticas. As que vão agora seguir-^e 
constituem leve commcntario á obra. 

Puo\.QCo,~ Linhas i-at O Litro da utda e dos cosíutnes dos 
phihstjfoSt a que se iillude ahi, c o Liber de vita et moribus phHoSu- 
pfionim de Walier Burlcy ou Burleigli (aec. xiv), de que ha uma 
versão hespanhola, anterior aos meados do sec. xV, intitulada La 
pidiiy /tis cotíumbrcs de los viejos Jilosofoa, a qual se conserva num 
manuscrito da Bibltoiheca do Escurial*. Tanto o texto latino como 
o hespanhol foram publicados por H. Knust em 1886 na BtbUothek 
des IMtevavischeii Vereins in Stuti^urt, n." 177. — Como á pequeno 
a biographia de Eaopo contida no Liber de Buríey, iulgo conveniente 
transcrevê-la aqui, e panillelamente a respectiva versão hespanholã 
que está no manuscrito cscurialense: 



Cap. XXIV. Esopus 

IC s o p u s , adflplius, pucia, ckruu 
tempore Ciri, regis penarum. 

Fuil autem grecu8,de cjvitaie adi- 
ça, vir ingeniosus c( pruden>, qui con- 
linxit fabulas elegantes quas Romulu» 
quidani de greco IranstuHt tn lutiniim, 
in qiiibus ducei quíd observare de- 
henM homines, et ul vitam hnminum 
cmcndet cl ad mures instruat inducii 
arborcs, aves bcsllasquc ioquaccs pro 
probanda cuiuslibet tabula quam &i di- 
ligcnier lector inspexerit inveniet ioca 
apposica que et rísutn misceani e[ in- 
genium acuant clcganter. 

Hk prJtny amiu Ciri regis petsa- 
rum t«rtiir fuissc pcrccmus. 



Cap. XXIV. Esoro 

Esopti, adclfo, poeta, cUrescJõ 
cn lienpo de Ctro trey de Pérsia. 

V luc griegfs d« lu cibdad de Atica^ 
Vdfon yn^-nioso y prudente, t.-l qual 
lingio latiulas elegantes, lui. quBl«s uno 
llatnado Hromuto traduxo de griego 
cn Iniinteri los qunles para demostrar 
ia vida d« lo» onbres y las cosiunbres 
que devcn seguir inirodusc a aves y 
arholes y bc&tÍH& falantus para provar 
cada unu de \as &us fab(uiia!>, labqua- 
Ics quien cstudliosii mente Ifls quisíere 
iicutar fallara luk-& juegos pucsios que 
mesclan rrisa \ agusan il yngenio. 

De aquesie ^e dise que ovo seydo 
muerio dei sobredicho rrey de Pérsia. 



1 Vid. G. Uaíst, Dit Spanische Litleratur (ik> Grundriss der romã». Phíto- 
logie, II--J, p.4i3 c n.)- 

1 Marca>;3o bibliothccal: h-lll-L 



FABULARIO raRTtGUfcS 



n3 



Fica assim manifesto que o prologo do no»so Fabulario não ú to- 
talmente exirahido do Liber de Burlcy; este fot apenas lá citado. 
À procedência do resro da obra me referirei quando tratar do es- 
tudo liiterario das fabulas. — /!,.2)Çiro rrey de Pérsia. A men- 
ção de Cyru vem no Fabulario apenas como indicação de data 
(bôo-biçt a. C.), e não porque se estabeleça connexáo entre elle 
tí Esopo. E com Creso, reí da Lydia {bCo-b^ a. C.t, que a lenda 
antiga relaciona Esopo. Em iodo o caso a época é a mesma, o 
»ec. VI antes da nossa era. Cfr. também A. Croisct, Hist. de la litíè- 
rat. grecque, ii (iSgot, 46G-467. — /„ 3} Exopo Adelpho. Sem 
duvida . Xdflpho é aqui sobrenome de Esopo. No citado livro de Bur- 
lcy lè-^sc também: «Esopus Adclphus poeta claruit tcmpore Ciri*; 
e na traducção hespunhoJa: «Esopo Adelfo poeta clarescío en tienpo 
de Cirow. No entanto Knust viu-se certamente embaraçado com esta 
palavra, porque a escreveu cora letra minúscula, c entre virgulas: 
■ Esopus, adelphus, poeta. .«, ao que corresponde na traducção 
hespanhola «Esopo, adclfo, poeta. . », — embora ella, assim escrita, 
só pudesse representar o grego àòú-^i «Írmão>, o que não faz sen- 
tido nenhum. D'onde veio porém a Esopo nas obras citadas e no 
nosso Fabulario u sobrenome de Adclphu, se era nenhuma das 
antigas bíographias do fabulísta' apparecc tal sobrenome? É u que 
vou dizer cm poucas palavras'. L'ma das fontes dos fabularios me- 
dievaes foi a collecção latina attribuida a Í<omulus. que no sec. xin 
se encontra representada no SpecuUim titsíorialt de Vicente Bel- 
lovaccnsc ou de Bcauvais'. X& fahiilae Homuleae do Bcllovaccnse 
são precedidas de uma biogruptiía de Esopu em que se lè: lAnno 
regni Cyri primo Hesopus a Delphis interimitur»*. A iunda, 
segundo a qual os Dclphos ou Dclphicos mataram Esopo, prcci- 
pilando-o da rocha Hyampia, ti contada por Pluiarcho (sec. i-u 
da e. c.)'; e a cila já alludc Heródoto (sec. v a. C)*. Sem po- 
der, nem me ser necessário, verificar agora se foi precisamente 
no texto do Bellovacense, lal como rica transcrito, nu noutro ana- 



I Cfr. Savérien, Histaire áes philosophes anci«is, vol. 1 ( 177!), p. i^3 S{;s. 

3 EkIc assunta toi jA br«veinenie tratudo por mim nu Revista Pedagógica, 
I, 389-J90. 

J Digo Bellovacense, poí» qu« Btanvait vem de Bcllovaci- Num livro 
português, Iniílulado (lemmeUa contra Judeos, de Pedro Lobo Correia, pp. xio 
c 31 1 (^^l. de 1710), lc->e «Viccnle Ilelvacenst: 

4 Vid. Her%'ÍeuK, Lvs Jahulisws latins, t. 11, 2.* ed. (1894), p. 334. 

5 Vid. />c sfrj numtnh vindicta, mi. 
ft Vid. //ijf,,ir, 134. 



134 



FA1I11I.ARIO l-0R11IGUI-:S 



logo, que Burley se inspirou, o que CfHitudo se torna evidente 
dcantc d'ellc c que da expressão j delphis =a iJelphis um copista 
medieval, por distracção ou ignorância, fez adelphus, tomando, no 
manuscrito de que se serviu, -is por ■«$; alem d'Ísso juntou a pre- 
posição a ao nome scguinie*. De modo que addphiis ou Adelphus, 
respectivamente cm romanço Adelpho ou Adel/o, é na origem pa- 
lavra fantástica, ~ i^bosi-tvord dos Ingleses — , mas temos de ac- 
ccirá-la como sobrenome de Esopo no Líber de Burley, e portanto 
no nosso Fabularío (e também no manuscrito cscurlalensc de que 
acima íallei)'.— Postoque o nome de Esopo, quer cm grego, quer 
em latim, Am»;:;í. Aesopus, tenha c ou s, apparcce-nos no Fa- 
bulnrio com -v. Essa orihographin c usada em vários mss. medie- 
vaes: por exemplo, cm mss. da Inglaterra, Ubn' Kxopi, Exopi 
Jdbuíae-; da Itália libei- Í\xop{*. Alem d'isso a orthographia la- 
tina do nome do fabulista variou muito: Ysopus lem romanço 
Ysopo. Ysopd)^ Hesopus. Ensopus. Esopiis, Hysopo, ctc, umas 
vezes por intiuencia da orthographia das lingoas românicas, outras 
por falsas ideias ctj'moIogÍca3, etc; mas d'isso não tenho de me 
occupar, pois que ns únicas formas que apparecem no nosso texto 
sãfi Exapo, no prologo, e Exopj- fgenetivo latino), no íim das Tabu* 
las. — /.. 4) Antiochia. Com quanto muitas lenham sido as locali- 
dades dadas por pairia de Ksopo, Amontim. Coíyaeiím, Mesembria, 
Samos, Sjrdes^, não sei que jamais Antiochia fosse considerada 
como tal. O Eiber de vita d moribus philostipliorutn, que. segundo 
ha pouco mostrei, foi conhecido do autor do Fabulario, diz a este 
respeito, como vimos, «Esopus . . fuit . . grccus, de civitate Attica». 



> Acerca da facilidndc com que -us e -is se confundiam cm ^era) nos ma- 
nuscrÍTOfi da ídade-media, diz Lindsay : •■ En capkaics ci en oncinlcs, aussí bicn 
qu'cn minusculL-s, la ligalitrc de -us rosemblc bcaucoup ã -is. D<inv rancienne 
écrilurc mínuscuk-, on cmploíc pRríois la mcrri'!: abriívJntion pour l'un que pour 
TatitrC*, — viil. fntroánction il la critique des lexles latins, Pnris 1R08, p. 100. [>a 
juncçíio da preposição ito respectivo caso c:^ exemplos são Ião numcrosus, t]uc 
nem valia a pcnn iiiM^tir nisto; to<lnvin clr. o igiic di^ o mesmo I.indsny ao fallar 
da escrita minu&culn du idade-meJía: *Lcs pciiis mois tck que leã préposi- 
lions . . &ont habílucllcment joints aux mots voJ»Íns plus long$*, — ibidem, p. 19. 

' No copisin L|ue commetieu o erro da irocn pôde ter influído a ideia de 
que Adelpho ou Adel/o era rcalmenic nome c nppclliilo noutraíi circunstancias, 
nos qiiaes provém da ciMdj pahivrj tjrc^j. Ha ntcsmo um bispo S. Adelpho, que 
Sc venera cm 10 de Afiosto. Adelphus c lanibcni cagnoui^n romano. 

-^ Hcrvieus, Lvs Jabutistes latim, 1, 576 fa.* cd í). 

■I Uervieux, oh. ctt., pp. 5oi, 5y3. 

i Cfr. DcVit, Onmnajticon, s,v. "Aesopus«. 



FADUI-ARIO t^JRTtlCUKS 



n:t 



Consultando vjirios labulurios medievaes, acho lambem nelles al- 
guma cousa que concorda com Í5to. O Romiilus riilfíarts, para me 
sen*ir da expressão de Hervieux, diz: tRomulus Tj-bcrino filio. De 
civitate atiica esopus quidam homo grecus»*. Vicente Bcllovacense 
diz: «Romulus . .iiascribens: De ciuitate Aitica Hesopusqmdami^ 
O Homuliis Nilaniius lem: «Esopus, quidom grecus . . de ciuiiate 
Auicat-^. Finalmente, no Komulus Vlorentinus lê-sc: «Romuluâ filio 
suo Tybcri[nb de ciuítaic aitica. Ksopus quidam liomo grccusi*. 
G)mprehende-sc aflora que o autor do nosso Fabulario tomasse, 
no manuscrito de que se servia, a palavra Aííica, i. c, aHica ou 
alica. por abreviatura de Amítochía -^ Atitiochta, i. ê, ãíi.'^, pois 
são as mesmas leiras, sò com a ditVerença do til, que muitas vezes 
escapa na escrita, e que também aqui podia ser considerado abre- 
viatura de outro /. Esta confusão proveio, ou de elle saber que 
Esopo era Phrygio, e haver na Phrygia uma cidade chamada An- 
tiochia (embora, que me conste, nenhum biographo antigo, repito, 
a julgasse pátria de Esopoi, ou, o que me parece mais provável, 
de se lembrar da célebre Anriochia, capital da Syria. Curioso é 
notar que, se Antiochia provem de se ler erroneamente a palavra 
Attica, esta, na obra citada, provém lambem de um erro de inier- 
pelação. Todas as phrases que transcrevi se relacionam com uma 
espécie de epístola- prologo que aTyberino dirigiu seu pac Rómulo; 
como mostra a ultima phrase que transcrevi, a expressão de ciui- 
iate AítiCii, em virtude da pontuação adoptada, não se refere a 
Esopo, e sim a um dos nomes antecedentes, significando segundo 
a luminosa explicação de Gaston Paris, não que Rómulo ouTybe- 
rino eram naturacs de uma cidade attica, mas que era de Athenas, 
civitas Attica por excellencia, que Rómulo escrevia aTyberino^: 
nos díRerentes manuscritos, porém, por má pontuação, fez-sc da ci- 
dade Attica a pátria de Ksopo, e essa ideia passou para os fabula- 
rios e para o lÀber de Burley, d'onde lambem o smoi do nosso 
Fabulario a tomou, interpretando-a ainda peor*'. — /A-6) latino. 



■ Vid. I.. Herviciiv, I^s fabutistes latins, t. n, -i.* ed^ I^fl^ 'B^i P- 1?!- 
* IJem, ibid-t p. 134. 

3 Idem, ibid.f p. }t3. 

4 Idfm, ibid.y p. 474. 

5 Vid. G. Paris no Journal des savants. 18X4, p. 678, nota i\ c Hcrvíeux, 
Les fabulistes. 1 (i.* cii.), .«oj. 

f' Mesmo assim inicrprerou-a com mots lo^Va do que o traductor hespa- 
nhol, pois este, no ms. c«curiaicnse, tem -cibUad de Aticn-, coosiderando-a 
substantivo c nlío iidjcciivo, como realmente é. 



r2(j 



FABUI-ARIO PORTUGUÊS 



O auior do Fabularío diz em latina, cm vez de em latim, por ler tra- 
duzido á letra o original de Burlcy: in latittuni. — /.. 6; Rromulo. 
Já a cima fallej da collccçao medieval de fabulas atrribuida a Ró- 
mulo. Este nome^ como Hervjeux mostrou*, deve scrsupposio, em- 
bora de data muito antiga ; em todo o caso, tanto no nosso Fabula- 
río, como no IJber de Burlev que lhe serviu aqui de base, e noutros 
tratados da idade-mcdia, representa realmente, para o espirito dos 
xespecrivos autores, um verdadeiro individuo, iraductor de Esopo. — 
/.. i3) frores. A comparação da excellencia de uma doutrina 
com flores foi sempre predilecta aos tratadistas. Tumbem D. Duarte 
(sec. xv) no Leal Cofiselheiro. prologo, p. 7 da ed. de Roqueie*, 
diz: «Prazcrmia que os ieedores deste trautado tevessem a maneira 
da abelha, que passando per ramos e inibas, nas flores mais cos- 
tuma de pousar, c dally íilha parte de seu mantimento». No Labj-- 
riního de Eberardus, natural deBethuneiArtois), sec. mii, lé-seeste 
dístico: 

Aiisopus metrum non sopit: lubuU Sores 
Proijuctt; fructum flos parit; ille aapit. 

« . . ces deux vers rappelleni les idécs répanducs dans le prologue 
•des fables en vcrs clégiaqucs. La glose d'un ancicnt ms. pone ces 
tmots; Vsopus est planta; sed Aesopus dal bona yerba>^. 

FABtTiJk I. — /.. 4) a qual I. HoÍe diríamos que; mas o mesmo 
modo de dizer se encontra no Prologo: «esie auctor viuia o quali 
se chama Esopo». — L. 9) achar ty. Vid. na .secção grammatical 
o capitulo da Syntaxe. 

Fab. II.— a, 24) buscar cajom contra rrazom. Sen- 
tença rhythmica, espécie de adagio. 

Fab. ni, /.. ia) Dom velhaco, aqui morreredes. No 
prirociro dialogo da rã com o rato, aquella trata este famillarmenTc 
por tu, para o captar; agora, como vae sef^ura de o fazer morrer, 
trata-o ironicamente por dam tvlhacOj e chama-o por senhor, na 
2." pessoa do plural. 



I Les /abulisiís, t (a.* td.], aí»3-3o5. 

3 Paris, Aillaud. Monlon & C.% 1854.— Quando neste irabalKo ciiar o Lw^a 
Consethfiro, emendn-se qiie cito sempre esla edição. 

' Robert, FaMes iitédites des xii% mii' et xiv sièdes, 1. 1, Paris |8í5, p. lxxxiv, 
DOU. 



FAHUIJVRIO PORTtir.DI S 



117 



Fab. IV. — /.. 9) As quaes testemunhas depois que 
forom examinadas. Esia expressão corresponde a: ■ depois 
que estas testemunhas forom examinadas». ]\ um laiinismo: qtii 
cum inierrogali lisseitt; cfr. Madvig, Grammaíka tatina. irad. port.^ 
S 448. O pronome relativo vale aqui de pronome demonstrativo. — 
A 12) E o carncyro. Corresponde a: le quanto ;io carneyro». 
Modo di: dizer usut^ ainda hoje, sobretudo na Hngoagem íamiliar. 

Fab. V. — /.. 4)duas tamta carne que. Significa; tduas 
vezes tanta carne que«, propriamente «dois tantos como a cume*. 
Encontram-se em textos dos sec. \i\-xm expressões comparáveis a 
esin:ae deu seu truitoc a*rfo*ívj»';€c darás de ti fruiioéçéíífíÍTUB'; 
•entrou húua tam grande claridade, que fez o paaço dous tanto 
mais ciaro»^; «e que lançará a bara* cento alem do costumado»-. — 
/_.. ii-ra) por está por extenso no manuscrito. 

Fab. VI. — /,. 5^ a ssiia caça. È assim mesmo, c nnn à suj 
caça, Cfr. a ssvus compatthe/fos nu 1. 20. — /,. i6-jSi Cfr. o rifão; 
■Ao pobre nSo é proveitoso j, acompanhar com o poderoso», em 
Rento Pereira, Adagias (appcndice d Prosódia). 

Fab.vm, — /*. 1) foy signilica •houve»; ht./uit.—L. 8) hcr- 
dcyro, por o lc5o ter parte no despojo de um animal morto. — 
L. 9) assy como ssy- \'id. Syntaxe. 

F.iB.viii. — /.. 2) E comendo cora gramde pressa. Par- 
ticipin absoluto. — A. 22í No emxemplo diz. Vid. Syntaxe. 

Fab. IX. — A. 6) que lh'a queria emprestar, isto é, que 
estava dispo^itn a empre.star-lha, — A. aij hOa palaura dizem. 



' Lfnda das Santos BaHaâo e Jota/ate, cd de Vasconccllos Abreu, Lisboa 
1898, p. 8, 1. 30.— O respectivo manuscrico «.- Jos iins iJo sec. xJv ou comei;o do 
scc. \v: víd. F.piphnnio Dias, ir» 7.eilschrifl /Ur roman. Philaiogif, xxvii, 46S. 
A [int;oa porém c cunumcntc do sec. xiv. Scrín mai» conforme t:iim a verdade, 
como já Bcima (p. isr») noici, fntjiular e«* obrí Vida do honrrado Iffante Josa- 
phat,po\i é .issim que estd no urí^mal. 

' Ot. cil., p. 8, 1. 24. 

} Dtmanda do Santo graali, ed. de Í<einhi>rdsto«UiK:r, Berlim i8tí7, p. 17. 

4 ^ barra. 

i I>oc,dc i53i, no .•tncAíi-ij //í*f. /*or/., 1, 226. 



128 



FAKi.\Mo porruGUts 



pella boca, e oatra tcem no coraçom. Cfr. S.i!lu<itio: 
aliiui chnsíim Íh peciore. aliud tn língua promptum'. 

Faiu X. — L. lãt d'ellcs aueremos inaaos mereci- 
mentos, i. é. «dclles mereceremos mal»- dellcs receberemos 
mal. 

Pae. XI. — £.. 8) fremoso demic. Alem da sua grandeza, 
o dente de porco c celebre como amuleto, já desde a antiguidade. 
à expressão nom quero luxar o meu fremoso demie 
na tua vil pcrsoa corresponde outra análoga em k\i\, 14. 

Fai. XII. — L. 3) moraua. O sujeito c outro rrato, — L, 28) 
E as palavras dietas. Nos partictpíos absolutos deste typo, 
umas vezes o sujeito está antes do predicado, como aqui, outras 
depois, como na fab. xxv, ia. — L, 3oi milhor he a proveza 
que n rrtqueza. IdeJa chrístâ, que tombem se encontra em 
Villoo, poeta francês do scc. xv: Biaihmtreux nt qui Hfn nj- a'. — 
£m 3i. seja. Vid. Syniaxe. 

Fa». XIII. — i- ?l rogaua = rognva-n— A. i3l c que lhe 
queria dar sseus filhos. Depende de braadar. 

Fab. XIV, — L. 11) freo. É ainda hoje expressão corrente não 
ttr/nio «j lingoa, pois suppôe muita gente que o freio ou trave 
da lingoa impede a falia. Cfr. Chervin, Traii. pop. rvlcUiiVt à ta 
parúlt, Paris s. d. 

Fab. XV. — /.. S e ii) Branco e nobre concordam com 
co»iw;em uelhaco, e astrosa aue, i^VAjco é subsi.intivo (se- 
não seria pethaca. a concordar com avei. — A. 17-181 Não conheço 
na iradii^fio precisamente este provérbio, mas conheço outros aná- 
logos; Boca de mel coração de fel'; Mel noi beiços, fel no cora- 
ç*o*. O próprio autor do Fabulario exprime conceito análogo cm 

IX, 30-33. 



• Dt coajurationr CjlHinae, çap. ix. 

» Apud (1. Kirii. Fr.iHÇois Vilton, Paris iç»i, p. 1S2. 

3 RuIUinJ, AJ*l)íioSs I.Uboa lyíío, p. lõo. 

í Kentu Pcrcim, firnsodia. Evorn 1713, p. aaS. 







± mL. 



Fab. XVI. — /.. ú) fez [a] muitos mal. Accresccniei ii, que 
escapou ao escriba do ms.; cfr. /a^emdo-Ute miiyto malt, xxi, 6, 
e ijtie lhe ttom /tr^esse mall, xxv, 4, onde n /à;tT mall se segue na- 
turalmente coraplcmcnto indirecto. — /-. 7) tempo fuy. Ksperar- 
se-hia tanpo foy. AquÍ/«r, se não ha erro por 701*. é talvez ar- 
chaismo (vid. ÃVorphoIogiat, e não aitrac»;âo do sujeiío da oração 
seguinte. 

Fab. xvt(. — Com o sentido desta fabula cfr. o rifão: lAmor 
de asno |1 emia n couces e a bocados», em H. Pereira. AdagioR (onde 
bfiCado está no sentido de «mordedura», accepção que (alta no IHcc. 
do Caturra e noutros). L. 14*1 5) Entendo que o complemento di* 
recto de emssina c a oração de i^uc, c que aaqmlles i complemento 
indirecto. — /.. ót c t rabalham-sc = e comtudo traba* 
lham*sc. 



Faii. xviii. — /,. 1) rp'om este doutor cmNcmpIo. Tam- 
bém num fabulario medieval italiano se lèjPOHe Vautute <ht:'. L. 8-9) 
nom me dá nada^s^nao me importa. O autor emprega 
aqui dar por yÁ. ter dito antes dar dey ue^es tia mynha calua; o sc- 
pundo dar, empregado em sentido um tanto diflercnte do primeiro, 
estabelece certo contraste, que ameniza o estylo. — Hoje o mais 
usual c dizer-se «não se me dá», mas diz-se ainda, por ex. «que 
mais dá?» (— que mais importari. Ás avessas o povo diz «não se 
me importa», com sií, por «não me importa*. — /.. 10) farás de 
tua proll.Vid. Syntaxe. 

Fab. mx. — /,. 6) todo ttudo» (archaismo). — /,. 12) asseen- 
lados. Como se refere á raposa e ii cegonha, que são palavras 
femininas, esperar-se-hin assetttadas: mas o autor emprega o mas- 
culino de modo geral. A mesma expressão se repete na /.. 3. 

Fab. XX. — L. 7) como «quando». — /.. i3-i4) ca (a alma) 
he fecta aa ssimíidom de Deus. Cfr. Génesis. 1, 26: Fa- 
ciumus kominem ad imaginem el similitudi tiem nosíram. — 
/.. iS) fica o corpo terra. Kxpríme-se a mesma ideia por 
outras palavras na /.. 7-S: o corpo sse tonta no damenlo da lena; 



■ Brush, 7%« Isnpo Lavren^iano, Cnlumbus (Ohin) iFl<in, p. 53. i» cm latim : 
aiuui pracmium panere -pn»[M"tr»; cfr. tamhem prnponfre ts*mp{tím, proponúre 
exemplar. 



i3o 



\MiVi \(uri foRniGin s 



e cfr. /.. i8: (as eruas e as arttores) . . fornamsse em lerra. — 
/.. iS-iâ) Acerca da alma rracionauyl que rreigna no homem e da 
alma vefíetaliua que rreit^na nas eruas e nas aruores, cfr. o que 
di/ D. Duarte no /.faí Conselheiro, ciip. vi: «sam Gregório declara 
que participamos d'cstas três almAs^ — vcgctiuiva, que pertcece aas 
plantas, sensitiva nas bestas, c racional aos anjos*'. — L. iG) da 
alma vegeiatiua. Complemento de respeito.^ /,. i X) t a n i o . . 
quanto. Correlativos entre si. 

Fab. XXI.— £. IO-I2) aquellcs que cm alto querem 
ssobir . . mu y tas vezes caem cm terra. Rsie pensa- 
mento c muito amigo c espalhado. Em Horácio lê-sc: 

. . CeUoe graviore cusu 
Dcciduni turres^. 

Nos fins da idaUe-media, Macias o Namorado, diz: 

Cando o louco cree mais alto 
SobJr, prenJe mayor fcatio3. 

Ha tambcm estes adágios: A gi'ande saÁlo, gram quebranlo*: Quem 
àe mais alto nada, mais de pressa se ajaga"^. E mesmo uma cantiga 
popular que ouvi no Baixo-Douro c assim concebida: 



Hu he\ de assobir no alto, 
Ao alto hcid'assf)bir: 



Quem ao mais alio astobe, 
Ao mais bai\o vem cair. 



Fau. xxiii. — No dialogo são uni tanto fastidiosas as ennumera- 
ções, posioque o autor as dispusesse em aniiihese. — L. 6> bebo 
com taças. Ha aqui hyperbole^ pois a mosca não bebe com 
taças, como uma pessoa, mas em taças. — L. 17-28) nehúa 
persoa nom dá a mjm molesta. Deverá emendar-sc mo- 
lesta em moléstia; o sentido vem u ser: «nenhuma pessoa me cuusa 
incommodo (ao passo que a ti iodos te incommodam)». Cfr. em 
hespanhol: moléstia «enfado». 



I Pag. 49. 

> Carminj, II, x, lo-tl, 

5 H. Lani^ (Cancioneiro gatlego casieihano. i (1902), 7.— Cfr. Itennen, hfa~ 
cias o Samorado, a Gutician trohador, Philadelphiu 1900, p. 36. 
1 D. Carolina Michai-iis, Tausend porí. Sprichrlirlirr, n.* 171, 
* Prosódia^ de Bcmo Pereira (Adágios). 



KAHULABiO PORTOGCÊS 



l3l 



Fab. xmv. — /.. 2) que lhe dcuia mu y tos dinheiros 
depende de acusou. Hoje dizetnos mais vulgarmente de que. — /.. 3) 
jnocentc do que ho lobo a acusuva = «innocente d'aqutlln 
de que o lobo a accusuva*. Syntaxe condensada. Cir. o meu opús- 
culo O íexío dm Lusíadas, Porto 1890, p. 46. — L. 1 1-12) Ha ás 
vezes desleixo de csiylo, como aqui: aqueles que ssfím . . e aquell 
que /iií. Esperar-sc-hia o mesmo numero iNÍngul;tr ou plural 1 nas 
duas frases. 

Fab, XXV. — A. o) fazias comtruvrn. A mesma cxpresiião 
SC lè era xxxvt, 2:/a^ia comifayro do que lhe sseu padre emssyuat/a. 
A palavra cotitrarro tem quasi a furtcção de adverbio. — L. 14} 
o seruiço que sse fiiz de unnmtade, aquellc he bem 
fecto. Redundância do pronome aquelle. De análogo uso cm la- 
tim traia Madvlg, Gram. latina ftrad. pori.), z 469-*». 

Fab. XXVI. — /,. 4) pcra se malar com ell. Md. Vocabu- 
lário. 



Fab. XXVII.— Kslu fabula vem taml>cm contada cm Manoel 
^crnarde», Nova Floresta, como jà se disse no \'ocabulario s. v. 
rivUrmo*. Bernardes cothcu-a cm Mayolo, Dias caniculares^ t. v, 
dialogo 1, fl. 791; a fonte é Aulo Gellio, Soctes Atticae.V^ xiv, que 
diz ic-!a exirahido da Hlsi. de Apioii Plistonices» Aegi-pttacorum 
lib- V, O hcro« em Bernardes c Androdo, na littcratura clássica 
c Androclus (houve substituição graphica de cl por d). 

Fab. xxviu. — í,. 8) sabe por c c r i o — tem como cei^o (^r 
fí-r/o é nome predicaiivo).^/.. 9) tocar teu pulso, t. é, «tomar- 
te o pulso*. Em latim: venant tan^re c venavum puhum atíingere. 

Fab. XXIX. ^/.. 3) andaua louçâo, Lé* «caminhava (iai lou- 
çíío». — L. 14) nom quero cm ty luxar os meus couces. 
Expressão análoga se lè em si, 8. /.. 29) uãus glorias. No 
J.eal Conselheiro ha três capítulos sobre a vangloria (capp. xii a 
xiy)j onde D. Duarte cita os Estatutos de S- João Cassiano e as 
Coliações dos SS. Padres. Cfr. p. 84; «a Nosso Senhor despraz . . 
a váa gloria, que muyto claramente nos mostra laues abatymcntos 
nas cousas de que nos queremos gloriar e gabar, que bem j'>ode- 
remos conhecer como elle quer de todos nossos bêes a el seerem 
dados louvores-. 



|33 



KAHULARIO PORTtIGUl':ã 



Fab. xxxt.— Dcvc enlender-se que o gayiarrt ^^uc figura ncsia 
fabula é a fêmea, pois nn I. lo se lhe chama madre. Como se sube, 
o nome gaviam (hoje gavião) é epiccno.— /,. 8i choraua de co- 
raçom. Cfr. cm provençal: s'eu chan de boca, de cor pior , — apud 
Zs.f, ronmu. Philologú'. \\n, SSg, n.* 3. 

Fab. xxxit. — L.6) Prazer-m*-ia de me rrazoar. Creio 
que me c dativo erhico, e não complcmenio directo, que c cousas 
nn phrase seguinte. 

Fab. XXXIV. — /.. 12-26. Nas palavras senhor, alcayde, 
rerra, temos referencias ás ínsiituiçócs socíaes da idade-media. 
Vid. Vocabulário. — L. sy) lanio c complcmenio directo de di- 
^er.^/.. 43) Ssaiumam áÍ7.\ ffemina nula buua, etc. Salomão 
era muito lido por este tempo, como o mostra, por ex., o Leal 
Conselheiro, onde elle é citndo varias vezes. Todavia aqui a phrase 
laiina iiãu lhe pertence, embora Salomão condemne as mulhcfcs: 
IJber proverb.. v, 5-8. F.sia frase consiitue um verso daciylico hc- 
xamctro: 

Fcmina nuUa bons, quis ter mutaiur in hora 

da f(>rmula --; só devemos acceiíar que 

o ti de bona, por estar na cesura, foi contado como â. O verso, 
de mais a mais, é leonino, pois bona rima com hora (assonancia); 
os versos leoninos, conao se sabe, tinham muita voga na idade- 
media. A ideia expressa no 2.' hemístichio est:i contida naquillo de 
Vergilio, Eneida, i\', ^(kj-Sjo: variítm eí mutabik semper/emina; 
a mesma ideia se encontra em adágios portugueses, hespanhoes 
c franceses: 



Molher.vçnio e ventura 
Asinha se mudn. . . '. 



Muier,vienio y veniura 
Pronto SC mudan .,.', 



Qui se changv vt muc Gouvent'. 

CIom o primeiro hcmisiichio do verso latino da nossa fabula cfr, 
n que diz D. Duai'te no Leal Conselheiro, p. 2S2, fallando dns 



> Adágios Portugueses ilc Delicado, Lisboa t65i, p. i38. 

> Rejranes Je H. N\iJiez, MadriJ ii'ii9, H. 7? y. 

J Provcrbiii Iraiiccs. cm irni ms. Jo scc. Xlii, iipud Roux dc Líncv, Provtrbet 
fratifMs, II, 490. 



FABOLAJUO raKTtlCUéS 



iS2 



mulheres: «Sc ciíssercm poucas som as boas, cu digo que» clc». 
O fabulista não fez pois móis do que traduzir ideias correntes. 
Comiudu não sei qual é a proveniência immediaia do verso. - 
L, 4b) A molher hc vaso de demónio. Frase análoga se 
Ic na Vida de Maria Egípcia', «ca nom possu cu aver gloria pcllas 
minhas obras que figc cn quanio foy' vaso do diaboo»^-^ c no texio 
latino da vida da mesma santa: fui diaboio i>as eleciioiíis-. L. 46) 
com outros gramdes sabedores « i. é ae outros grandes 
sabedores». Também cm obras francesas da ídade-mcdia se diz 
que a mulher enganou Salomão e outros sábios: vid. P. Meyer in 
Romania, xv, 3ití e nota 2. — L. 47) A molher he hOu ar- 
muzcllo do demónio. Quanio ã forma, cfr. /:cf/rtííis/fs, IX, 12: 
sicut pisccs capiuntur hamo,.. sicnt cayimttur homiuvs in tem- 
pon maio. Sobre armu^tilh vid, o Vocabulário. Nas Fabulas de 
Maria de França lÈ-se: 

.. Jlt hum cn rtpnivivr 

que femines scvent cngignier: 

Ics vííiiics nunvcrahias 

um un art plus que li diuble&''. 

O editor d'essas Fabulas annota, a p. 3fi'i, que também no fíomaii 
de Hcttart, ed. de Mcon, v. 71 16, se diz da mulher: Plus de deabiis 
a un art. É vulgar encontrar nos livros de provérbios muitas dia- 
tribes contra as mulheres: cfr. Roux de Vat\c\ .^ Provcrbes /rançais, 
1. 1, p. i.vii, onde dá amostras tiradas dos Conírcdicís de Honfíe- 
crettx. De modo fierat, a liiteratura misogjníca, ou anti-feministica, 
tinha grande voga na idadc-mcdia. Na Homania, vi, 4^9, dd o 
Sr. P. Meyer umii list;i de varias diatribes. Cfr. Z$. filr roman. 
Philot.. IX, 21)1): c xxviii, bbi {1'roi'frbia quae dicinttur super na- 
tura femittanim). Assim como se dizia mal das mulheres, lambem 
se fazia a apologia delias: <Dire du bien, et surioui díre du mal, 
a été pour Ic moycn Sge, comme pour 1'antiquiic, un des licux com- 
muns de Li littéralurc», — P. Meyer in Romania, vi, 499. Cfr. do 
mesmo A.: a introducçfio aos Contes moralisés de .V. Bo^on, Paris 
1889, p. xxxii; e um artigo na Romania, xv, 3i5 sqq., onde cita 



I >Fuͫ 

* Comu, Alteiem Texies, p. j6. 

3 Acta -lanetonim, ApHI. i, eJ. Jc Aniiicrpia, 167.% p. 71». 

■I Vv. 53-50. Ed. (Ic K. Wamk«, I Inllc iS<i8, p. *it^ 



i34 



FAIl«L.\RtO PORTUGUtS 



La bonté dts/vmmts^ poema contido em um ms. do stc. xv. — 
Esius discórdias linerarias continuaram pelos tempos adeanie.Vid. 
J. F, de Vasconcellos, lut/rosina. ed. de (Di6, fl. 43 r (a favor) 
c 94, (contra^; no segundo passo chama-sc ús mulheres armas do 
Diabo e invoca-se Salomão. Ainda na litteramra poituguesa de cor- 
del do sec. XVIII se uncontram folhetos intitulados Malida dos ho- 
mens contra a bondade das mulheres, liondade das mulheres contra 
a malida dos homens, -etc.--/.. 41)1 passa de sabedor, 
j. é, >ê mais que sabedor», «tem grande capacidade*. Cfr. no Dicc, 
da ling. port. de Moraes, s. v. «passar»: passa de doido, passa de 
experto, i. é, »t doido de matsu, «excessivamente doido>, etc. 

Fab. ww.^l,. i) 'l"ayda. A fórma Tayda corrusponde ao 
accusativo grego ^xiix. nominativo «aí;. Km português também se 
tem usado Thais: cfr. Historia das vidas de Santa Marta Egyp- 
ciaca, S. Thais c Sjtiia Theodora, por Diojjo Vaz ("arrilho, Lis- 
boa 1737. Thais foi uma cortesã athcnicnse que, cm virtude do seu 
arrependimento, a Igreja depois santiticou. — l..2t) amarga. Aqui 
é verbo. - Na expressão a todo sseu proueylo a preposição 
j tem o valor de <para> ou «emi. 

Fab, -xxxvi. — L. í) Castigar. Vid. Vocabulário. — /.. 4» sem 
porquê. Vid, Vocabulário. — A. 71 ssem seu merecer. Vid. S\-n- 
taxe, :; 41-c. — /,. 5) firÍo. Vid. Vocabulário.^/.. 11-10; Quem 
quer castigar o leom ffere o cam: tem aspeao de ada- 
gio, tanto mais que no ms. alterna leom com leam; se aqui estivesse 
leam, u sentença seria rimada. — /,. 10) ^mdas. Vid. Vocabulá- 
rio. — /.. i3( maneira. \'id. Vocabulário. — /.. i5j que: depende 
do di^ dl linha 12. 

Fab. xxxviii. — /.. b) Icuauam a peor. Aqui a pew não 
SC refere á ovelha. I^var a peor significa «tirar o peor resultado»; 
o contrario hoje é lepar a melhor «uvantajar-se ■. — />. 21-22) aas 
ouelhas que .. os lobos ■■ faziam delas maao pe- 
sar '^ ás ouelhas., das quacs us lobos faziam mao pesar. Ana- 
coluthia. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. port., 5 aSo-b. — A respeito 
áii/aier mao pesar, vid. Vocabulário, s, v. apesar». 

Fab. xxxiv. — L. i4-i5) Para sujeito de dando 5ubentende-s« 
■ este*, referido a imijguo, que esiii na phrasc antcriorí lhe re- 
fere-sc aos tmijguos da I. 14. Depois á^ jmijguo^ na 1. 1?, podia 
estar ponto e virgula, cm vez de simples virgula. 



FABDLAUO PORTUGUÊS 



l3& 



Fau. XI. — /^ 19) o dy a [=- durante u dia. Na I. ai, purcm, i:stá 
iie rfú. Não me parece que na I. 19 o ^ía esteja por ó dia t-- ao 
Jia;, de acordo Com aa noule, I. 20. pois scrid natural que u ms. 
tivesse ao dia. K vulgar no lextu exprimir-se o tempo sem prepo- 
sição. — /-. 25-2G> este vesso que diz: ne ssyt aítorius. Ha 
aqui allusno a um verso das Fabulas do Anonnnus .Vivi-Zc/i; 

Altcriuã non síi, qui suus esic poiesi' 

u qual cm um dos manuscritos começa: Noit sii a//t*rii/s'. Cfr.' 
a ultima pane deste verso de Phedro: 

Hegnare nolo, tíber ut non sim tnUui. 

Kàb. \i.i. — a. 2S) A expressão e di^, a que já me refiro nu 
nou I que juntei á fabula, c cstcreotypada; daqui o engano do au- 
tor.— /-. 3oJ húu amyguo ssenpre lhe compre^a húii 
ainyguo ssenpre compre. Anacolutliiu. <^fr. a nota á fab- wxvui, 

I. 21-22. 

Faíi. xi.M. — /,, 14J A palavra que transcrevi por jhorc não 
é bem clara no ms. O amanuense escreveu primeiramente parece 
que chope ou chore, cõm o p oa r iunlo do e; depois emendou 
o c cmj. Em todo o caso essa palavra t certamente ywrrt', fórnia 
popular de rroje (vid. /orro em Moraes. Dicc, s. v,); cfr. I. 4-5. 
£.. iK) sseer auaros ao nosso próximo, i. é, para o nosso 
próximo, para com o nosso próximo. O autor, na moralidade, em- 
prega «ira avaro iauaro), ora MiaretUOj pani variar o esiylo.— A. 
19) A sigla ■$• significa sctlicel. - L. 20) serue âos jdolos. 
A expressão servir os ídolos é da Biblia. por ex. em S. Paulo Ad 
Coriítthios, I, V. Também no í^al Conselheiro, cap. xi.vi, p. 260» 
se lê: «aquesto fez a rey Sallamun . ■ adorar os ydolos . . porque ■ . 
foy feito servo de quem nom devera*; e no cap. vxxx, p. 202: «scr- 
vidóoc dos ydoios». 

Fab. xi.m. — a. 14) dcpoysque o homem morrer. Em- 
prego do futuro do conjunctivo com depois que; hoje diríamos de- 
pois de o hnmem morrer (infinitivo;. Cfr. no Cancioneiro gallegí/- 



' Hcnicux, Lcs fabutUtcs latias, u, 3.* «d., p. 337. 
* Em FOmer, Lyoner Yjopet, Ilcilbronn iSSi, p. 108. 
) FaMat, 111, vu, 17. 



easleUiaiio de H. Lang, i (1902), vv. 438 e 4^8, íies qw eu morrer, 
segundo a correcção da Sr.* D. Carolina Michaclis'.— /« 17) por 
o de Deus, não sifínificn «por o marteyro de Deus» (ellipsc). 
mu^f como me indica o meu amigo c mestre o Sr- Kpiphanio Dias, 
>por amor de Deust. O mesmo illustre professor apreseniame os 
ires icxros seguintes e illustraçfies latinas, em apoio d'csta explica- 
ção: poUo meu, em A/.urara, Chronka da Guiné, cap, 8&, expressão 
correspondente á latina meã causa «em attenção a mim»; polo seu. 
no Caticioticiro de Resende, lu, p. 617 («-■ aconselhado |] foy cl* 
rrey, quera forçado pulo seu de me matar», onde de me matar 
c sujeito grammatical de era forçado - era forçosoj; polo meti, 
cm D. Denis, ed. de Lang, v. 53, pag. 14 (te, senhor, nom vos 
venh'esto dizer \\polo meu, mais porqu'a vós cstú mali, passo com 
o qual se pôde comparar este de Cornelio Nepoic, Kpam.. cap. \\\ 
ístud quidem íaciam, neque tua causa, sed mea). Aos teMos citados 
juntarei da minha parte mais dois, que encontrei ulteriormente: 
«c meus desejos me fazem |[ contente morrer por fossot, no Can- 
ciotteiro de Resende, 1.* ed., fl. xuv-j-. col. ?, vv. fi-ti; c «pêro 
me desamparadcs, \\por vosso morrei' agora», no Cancioneiro gal- 
legihcasieiliano de l.ang, 1, Nova-Vork 1302, vv. i5-i(i, p. 3, onde 
deve pois corrigir-se, no Glossário, p. 267, a definição «as your 
íover» em -por amor de vos». 

Fab. xi.iv. /.. 3i que = de modo que. Cfr. i.xi; 40.--/,. t^) 
Arguu = Arguo. lat. Argus, guardador da vaca lo, o qual tinha 
cem olhos, como diz Ovídio, Meiamorph., 1, 6s5: 

Cenium iumitiibus cinctum caput Argus habcbat. 

Na fabula de Phedro, 11, viir, correspondente ;\ nossa, não se men- 
ciona Argus, diz-se simplesmente: 

Sed ille, qui ocutoi c«ntum hâbel, sí v«ncrít. . . 

onde ceulum está por <muiios», segundo o estylo btino, mas com 
visivcl allusáoa Argo. Ksiaallusãotorna-se realidade nas Fabulas de 
Gualtcrius Anglicus, com as quíies as nossas mais directamente se 
relacionam; alii se diz, i.viii: si uenerit ArgusK — /.. 29-30) e o sseu 
seruidor nom o vyo = ao passo que o seu servidor não o viu. 



' Na ZeUschri/l /iir mman. Pinlologie, xxvm, laf. 

í - nKirrcrci fiorinn iir*;, do íuUiro). 

^ ilurviuux, Lcs fabuUsIes lalias, li (i.* cJ.), 34(1. 



L 



rABULARIO PORlTGUl^S 



r37 



Fah. xlv. — L. 37) Com o versículo latino cfr. o Evangelho de 
S. Matheus, x, 26, Nihii est . . operlum, quod non reputabitur, et 
occuttum quod non sctetur, e o de S. Lucas, viii, 17, Is'oh est enim 
occullum, quod non manifcstetur, erc. As sentenças d'esre Tcor 
eram muito vulgares na litterfltura.Tambcm no Lval Conselheiro, 
cap. Lxxxni, p. 403, se )ê, em forma de adagio rimado: *Não ha 
cousa ascendida |j que nom seja descoberta c sabida», sentença que 
concorda singularmente com a que se lê nos versos do Arcipreste 
de Hiia ou Fita (sec. xiv): 

Kt scgiind dís Jfsu Chrisio, non ai eou escondida 
Que a cabo de ttempo non sea bien sabida'. 

Fab. xlvu. — Não foi sem hesitação que na linha 2 icfr. nota 6) 
propus que deus se emendasse cm deus[es], porque o manuscrito, 
no geral, não es!i\ rauito incorrecto. Levou-me a propor a emenda 
o facto de logo adeiinte se ler duas vezes dcoses, embora com o. 
Todavia, apesar d'esse facto, e de já um grammaiico do scc. xvi 
legislar que o plural de deos é deoses', seria possível que a forma deus 
do nosso Fabulnrio correspondesse á latina deos, e equivalesse 
pois realmente ao plural, tanto mais que a forma deoses, com relação 
ao nomln. lat. dei. dii, di, ou ao accus. deos, é Inieiramente irre- 
gular, c por tanto moderna, c que cm hespanhol do sec. xiii ha 
o pi. dios, do lat. deos, que, como se vê, é igual ao síng. dios 
^hojc diòs)^ do lai. d e u s^ . 



I Libro de CMtiares úu de buen antor, est. 80-Si (CoUecdòn de poelas cas- 
teilanos anteriores ai sifiloxv). 

J Jofio dã Barroi, Gram. da ling. pcrt. (ni Compitação de carias obras, 
ed. de Lisboa, 178^, p. 107). 

3 Cfr. Menéndez Pidal, Manual de gram. histor. esp., Madrid 1903, p. i3i 
iS yS-J^.— A liiulo de exemplo, citarei este» vemos do Libro de Atex,indre (ila 
ColL de poetas castelLinos anter. ai sigh xv) : 

Aílá sobre los <çiclo.í a los dios cntoauam (esl. aSi-b); 
AUi fucron lamadob los dios e tas deeuat (esi. 3i3-a); 
Eran enna carreta todos /ar àlos pintados (est. 8t;-ii). 

D'este modo, deus no nosso Fabularío seria um archatsmo, comparavel a ou- 
tros ijiie lá se cncoatrem, como dey -dcu", er (parlicula) e veençudo «vencido, 
(archaisnio, já se vc, em relação À época revelada pela lingon gemi usada no 
manuscrito]. 



i38 



FABULAKiO POflTUGUÈS 



Fab. XLViii.— £,. lo) Depois a pouco tempo. Vid. Voca- 
bulário^ S. V. JNWCO. 

Fab. I.. — /,. 7) funtlu. Vid. Vocabulário. 

Fai». li. — £.. 3) d'ellas. Complemento partitivo. Isto c: apa- 
nhava algum;is delias. —A. 4) 1£ esto quantas eU que- 
ria ^=e desta maneira tomava e comia quantas elle queria. Aqui 
esto corresponde, no sentido, ao latim Íta,—L* 8) a fim = in- 
tuito. Vid. Vocabulário. 

Fab. LU.— Z.. 3) do pam.WA. Syntaxe. —X.. 4) por tall que. 
Vid, Vocabulário s. v. «laU. — /,. 18) ko peccado da líarguntoice 
ou «gulaii se refere lambem o Leal Conselheiro, cap. xxxu, posui 
que náo haja semelhança na forma entre esse capitulo c a fabula. 

Fab. i.ih. — /,. i5;Cfr. com esta sentença o Ecclestastico. xix,4: 
Qni credit cita, tei>is corde ctí, que D. Duarte no Leal Conselheiro, 
cap. \xxvu, 2i4f verteu assim em vernáculo: iquem de ligeiro crce, 
he de leve coraçom». 

Fad- uv. — /.. 4) ssegurarom-sse. Vid. Vocabulário. í,. 6) 
<wm ^ ha. Lai. sunt. — L. 8) O adagio tem forma moderna maís 
genérica: cão que ladra, não morde. 

Fab. I.V. -/.. 1) c ord cyro. Vid. Vocabulário. —A. 3) pouco 
estando. Vid, Vocabulário. 

Fab. lvi. — L, 7J fcrír. \'id. Vocabulário. 

Fab. uvií. — L. 14) aquella por •aquillo» c um exemplo de 
attracção para esperança. Cfr. Epiphanio Dias, Gram. porí., !• 189, 
obs.; Madvig, Gram. laí., S 3i3. 

Fab. i.viii. (Ksta fabula concorda com a lv) — L. 3) como tem 
valor temporal: alogo que», «depois que». 

Fab. lix. — L. 11) confiar d'a<)uelles = ter confiança a 
respeito d'aque!les = contar com aquclles. Também em lat. confi- 
dérc de aliqua re. — L. 4) lhe deu . . termo a que Ih'o pa- 
gasse =^ marcou prazo ao pagamento. O mesmo uso syntactico 
da preposição a se encontra, por ex., nestas phrases do sec. xv: 



FABUI-AItlO POimiGUÉS 



,i3y 



«se obrígauam per scprituras pubricos a lh'oft darem a certo lem- 
fm»\ ise lhe nom pagassem a ^erto tempo*'. — Lr 14) s&cgundo 
Deus. ^'id. ^ ocabulariu, s. v. «Deus». 



Fab. i,xi. — /.. 8)'de furta ínão do/urfo): cm sentido indc- 
tinido de furtos. — /.. 16) rrogando. Víd. \'ocabulano. — /.. -lo) 
mesteres, ^'id. Vocabulário. /..3o) ho outro dia. do com- 
bate ^^ no outro dta, que era o do combale. — /.. So-jg. Temo» 
nesta narração cvemplo de um duello judiciário, combale singular, 
detafio, prova por lide, ou como se lhe quiser chamar. Constituía 
um dos jmius de Deus, a que tão vulgarmente se recorria na idude- 
media para se decidir da veracidade ou falsidade de um factoi dn 
existência dos juiios de Deus na Península, c especialmente em 
Portugal, falia A. Herculano. Hisl. cie Portugal, iv (iSdj), 371-379 
{«obre os combates singulares, vid. p. SyS sqq.|. O nosso caso apre- 
senta muitas das circunstancias que se notavam nas lides: o accusa- 
dor luta com um campeão do accusado; d combate c à espada; 
assistem magistrados, aqui representados pelo rei c seus barões. 
Também no romance francês (ms. do sec. xiv) de Jnu/roy um dos 
combatentes quebra um braço uo ouini: cír. Lunglois, I.a soe. /'r. 
au xm* sièch; p. 3i. Sobre combates judiciários em outroi textos 
franceses medievues cfr. Modem hng. notes, xii, 4*); e G. Paiis, 
l.e roman du comte de Toulotue, Paris 1900» p. 23, nota,—/,. 3S) 
Ho uaqucyro cobrÍa>sse. Defendia-»e. csquivava-se.— 
/-. 41 1 que. CJtíniuncçáo consecutiva. Cfr. xi.iv, 3. A. (jS-yoj Pa- 
ráfrase da conhecida senten<;a de Knnio, em Cícero, De Amicitia, 
XVII, 64; arnicas ceríus Íii re incerta cendtur.—L. 70-71) sseu . . 
sseu. Na phrase a que pertence o primeiro jsíw ha synese'; essa 
phrasc corresponde a os amigos ninguém os acha ssenompera leuar- 
lhe a sseu, e por isso sseu como que se refere a ninguém. O segundo 
sseu referese a amrguos, Í.sto é, aos amigos interesseiros, ou lobos 
rraba^es, como se lhes chama na I. 73. 

Fab. i.xh. — L. 4) que --^ em que. KIlipse da preposição. 

Fab. LJiin.— /.. 17) per afagos que nos façam: isto é, 
• em troca de afagos que nos façam», e não «por muitos «fagos 



* Vid. .I^yAiVo Histórico Porfugueít 11, 4)^ e 49. 
■ Cfr. EpipKtinio Dias, Gram. port.^ ^ 250-C. 




que nos fuçam», pois em lal caso devia cnirar na frase um adjec- 
tivo, como por cx: xu, a8, «por muy poderoso e rrico que sseía»; 
xLMii, 22, «por pequena que sseía»; lvii, la-iS, «por nhúa gram 
tribulaçom que o homem aja». 

As frases latinas que se seguem ao texto das fiibulas deve en- 
tender-se que foram acrescentadas pelo iimanuense do sec. xv que 
o copiou. 

i) O explicit é muito frequente, tanto nos mss. medíevaes, 
como ainda nos primeiros tempos da imprensa; corrcspondc-!he 
hoje •f\m». Por cx: num ms. de fabulas do sec. xm-xiv, da Biblio- 
ihcca de Paris, lê-sc Explicit esopus'; noutro, do sec. xiii, dn Bí- 
bliotheca de WolfcnbuttcU té-sc o mesmo'; num livro impresso 
em 14.77 l^"Se: explicit presens vocabxiloriim matéria-. Seria des- 
necessário citar mais exemplos, 

2) L i b e r £ x o p y. D' aqui se vé que o titulo da obra era 
O LivTto DE Esopo; por isso o poderia eu adoptar em vez de Fabu- 
laria, que até aqui adoptei. Ha também um ms. das fabulas do 
Anonymo de Nevelct (^^ Gualteríus Anglicus) que começa assim: 
incipit liber Emopi*. O titulo Liber Escpi era apposto frequente- 
mente aos fabularios medievaes^ As vezes a palavra Esopo signifi- 
cava na idade-mcdia «coUecçáo de fabulas»; cfr. um explicit em 
Hervieux, Fabitlistes latim, 1, 577: «explicit líber fabularum qui di- 
cilur Esopust\ e outro ibid. p. S78: explicuií Esopus. 

3) Cum alegoriis. Aqui alcgorijs ^^ allegoriis, no nomina- 
tivo alleiforiae, signilicu «moralidadeso. Do fabulario italiano de 
Francesco dei Tuppo diz Brush: «The author of the Del Tuppo 
Collcction, noi contcnt with a mere translation of Walters lext, 
added thcreto various moralizations entitled respeclively : -. Alie- 
goria or Exclamalio ailegorica . . Historiaiis AUegoria, etc.»*. 
Conheço um livro italiano intitulado Barloldo con Bertoldino e Ca- 
casemm in ottava rima con argmnenti, jllegúrie.Venezla i73g, onde 
as alUgorie são também cspccics de moralizações postas no começo 
de cada canto. Cfr. o que digo mais adeante, p. i54. 



1 Apud FUrster, Lyoner Ytopet, Heíibronn 1883, p.ix. 
s Forster, loc. cii., p. 1. 

3 Apud Uouchot, JLc Z.í»rí, Paris (1886), p.46. 

« Apud Robcri, Fabics inêdilcf des \n', siir et xiv* siècíes, vol. r, Paris iSaS» 
xcit). 

5 Hervieux, 1, 567, etc. 

6 Bnish, Tfcc Isopo L.iitrenjiano, Columbus (Ohio), 1899, p. 35. 



FABULARK) PORTUGUÊS 



»4> 



4) Dco grâtias. Fórmula corrente, e consen-ada até tarde, 
no Unal das obras. Cfr. Buchoi, Ae Livre, Paris (1886), p. ^G. — Um 
dos mss. do Anonymo de Ncvclct {^- Gunltcrius Anglicus) termina 
lambem: Explicit Uber F.aopi^ deo gratias, aitiíti'. No final do Isopo 
Hiccardiano h« uma fórmula análoga a csia'. 

f>) A expressão: 

FINITO LIBRO SSIT l.AUX GLORIA CHRIÍlTO 

formo um verso dactylico hcxametro, que deve ser interpretado 
d*este modo: 

FiuiiQ IJbm, sit laus [eij glorin Chrísia 

EUe era muito frequentemente posto pelos copistas medievaes no 
fim das suas copias^-, cncontra-sc, por exemplo, num ms. do Ano- 
nymo de Nevelct que está na Bibliotheca Nacional de Paris, sec. xi\', 
e noutros do mesmo século*. Uma das redacções portuguesas da 
Estaria do Timgulit (sec. xiv") termina lambem com eHc\ 
6} A expressão: 

SCRIPTOR EST TALK DFMOSTRAT'^ LITRA QUAUS 

forma outro verso hexamctro (leonino): 

Scriptor est talis denK^nJstrot 1ít[t]«rA qualis. 

Encontram-se não raro nos livros da Ídade-media fórmulas línaes, 
análogas a esta: por es.emplo, na citada redacção da Estaria de 
Tungiilu, o hexametro (leonino): 

Qui scrípsil scribai, [ei] semper cum Domino vívat'. 

Alguns copistas costumavam indicar o próprio nome, o que este 
porém infelizmente não fez. 



> Vid. Hen-ieux. Fabutistes, i, 5<t8; outros exs. a pp. 5io e 538. 

> Ghivizzani, // ivtgarijjamenio deite /avole dt Gaí/redo, Parte a, Bologna 
1866, p. i55. 

' Cfr. Hervieux, fabulistn, i, 5o4, 58i e 589. 

4 Cfr. Hervitux, FabuUtlfs, i, 504, 5o5 e 509, 

5 Vid. Rev. Lusitana, iii, lao (artigo de Esteves Pereira). 

<► «DEMdSTBAT. 

7 Vid. Rev. Lusitana, iit, laa 



14^ PABULARIO PORTUGUÊS 



■ Como se disse no (ogar respectivo (vid. supra, p. 5), as nossas 
fabulas deviam ser adornudas de estampas allegorícas; só porém 
se fizeram duas, ficando em branco o espaço para as outras. Tam- 
bém nisto o manuscrito está de acordo com outros medievaes de 
fabulas, ornamentados de illuminuras e desenhos', — costume que 
tem durado até hoje. 



' Cfr, Hervíeux, Fabutistes lai., i, 5io (sec. xv); i, 528 (sec. xv). E W. Fors- 
i^r, Der Lyoner Yjopet, Heilbronn 1882, p, 1. 



A;í 



FABULAftlO tUlflVGU&S 



143 



ESTUDO LITTERARIO 

SUMMARIO 

Elementos para o conhecimento das fontes das nossu fabulas; Romulut 
vuígaris; Ananymo de Nevelei (= Gualierius Anf^licus ou Walter ingiõs), sec xii, 
e sua importância; acordo ii-OI.Ívrode Esopo, no nurcitr o e assunta das {»ha\tiSy 
com a Fabularío de Walter: dtfferenças avulsas que apresenta O Livra d^Esopo; 
conclusão.— Quadro genealo{jico dos fsbularios medtevaei.— Canicier d-0 /i- 
vro áe^so/po.— Monumeiíio único Dl nossa liticraturo amiga. — Obra desconhe- 
cida dos que so icm occupado da hÍMoría das llitcraturss românicas. 

No prologo do nosso Fabulario, ou O Li\Tto de Ksopo, lê-se: 
Exopo . ./«.■; este Ixttro em gregt/o, e Hepoisjhy trelladado de gregua 
em laíitio de kúu ssabedor chamado Rromião. Se tal indicação fosse 
exacta, não haveria nada mais fácil do que determinar as fomes do 
Fabulario: clle proviria de Ksopo, por intermédio da traducçao 
latina de Rómulo. Mas isso não se passou com canta simplicidade, 
como vamos ver. 

Effcctivamcntc ha uma collccção laiino-mcdieval de fabulas em 
prosa, cujo autor di;^, de acordo com o citado texto do Fabulario: 
Esopus quidam homo greciis et ingeniosus fâmulos sttos docet quid 
hominex obserrare debeartl . . Id ego Romulus iraiisliiU de grçco iii 
íaíimtm. A esta collecção de fabulas chama Hervieux, na sua pre- 
ciosa e monumental obra /^ Fabulisles f^lins, vol. 1, p. 33o, e 
Tol.ii,p. i()5^ Knmulus vuígaris ou ordinarius, e reprodu-l» 
na mesma obra, vol. 11, p. iq? sqq., d'onde extralii o trecho trans- 
crito'. O Romulus vuígaris provem, com outras collecçócs, de um 
texto em proso, hoje perdido, que o precitado autor intitula Ro- 
mulus primitivus, texto que, por intermédio de uma antiga 
collecçáo denominada Aesopus ad Kufum, deriva das Fa- 
bulas de Phedro». 



• A respeito da obra de Her\'ieux,vid. a ímportanie notícia que deu d'ella 
Guston Paris no Jotirnal ács savanis, 1*184, tRgS c iSg.). Cfr. lambera Romania, 
XV, 6içi-6]i. — Esta ohra consta até o presente, que eu saiba, de 5 volume». 
Quando citar os vol» 1 e 11, enlcnda-se que cito sempre ■ a.* edi^o. 

> Henteux, o^. cií , t, 666. 



'44 



FABVU8IO PORTUGUÊS 



Comparando as fabulas portuguesas com as do Romulus yui- 
garis, noia-se que dos quatro livros de que consta a collccçSo la- 
tina os trcs primeiros contém muitas das nossas fabulas, mas que 
as fabulas 45.*, 61.% 6a.' e 63.* da collecção portuguesa não tem 
correspondentes na collecção latina, c que pelo contrário as fabulas 
8." e 20." do livro ju d'esta collecção, e todo o livro iv, não tem 
correspondentes na nossa,— o que tudo resulta da seguinte tabeliã: 

Romulu* O Livro 

Tulgari* 4t Eiopo 

11-12 i-ia 
i3-i6. . ■ -. 14- J? 
18-19 47~4® 

1 49-3o' 

2- 7 5i-56 

lU 8 i3 

9-12 57-60 

i3-2i i8-a6 

1-7 37^3 

IIi; * ~ 

9->9 34-44 

ao.... — 

IV - 

Logo, O prologo da collecção portuguesa não dÍ7 ngorosamente 
a verdade, embora haja certa concordância entre as duas collcc- 
^cs, quer nas fabulas em si, quer nos grupos, isto porém tem 
a sua explicação, como vamos ver. 

Dos três primeiros Livros áí\ collecção de Rómulo fez-sc no 
scc. XII, na Inglaterra, uma paraphrase, também latina, em dísti- 
cos, cujo autor, conhecido geralmente pelo Anonrmus \-'elus Neve- 
leíi, parece ser um ceria\\'aliei- (Gualteriíis Au^licusy. Estas fa- 



■ A fabula dos Athemcnses que elegem um rui e a dits v*s. que pedem um 
senhor a Juppiter sÊio irntadns como umn ^ na l'o11«cç3o de Rómulo. 

' Hervicux, ob. cit., i, 47Í-499,— A dcDomtaaçáo de Anonymus Vetiis AVw- 
leti, ou simplesmente Aaonj-mus Neveleti, provém de Isaac Nevelei, natural 
de Basileia, que incluiu «sta collecção de Tabulas na sua MyliiQhgia Aesopiea, 
publicadn em Francfnrt cm 1610. 



FABULARIO POmHJUÉS 



145 



bulas suo cm numero de 62 ou de 63, conforme se cortarem como 
uma ou como duas as dos Aihenienses c das rãs'í outros philologos 
contam sò 60, por^jue duas delias, n."* 61 e 62, não apparecem 
cm todos os manuscritos. Para o meu estudo sÍrvo-me da edição 
feita por Hcrvicux (obra citada, vol. 11, p. 3i6 sqq.) segundo o cod. 
n.'* I4:3ííi da BJblíoihcca Nacional de ParisS o qual cont<ím o nu- 
mero máximo, isto é, 63 fabulas. As fabulas gualtcrianas coinci- 
dem com as de Homulo, excepto duas, n." 39 e 60, que não vem 
no Romiiliis milgaris, c que o poetn colheu noutras fomes: o n." 59, 
conto dos grous de Ibyco, que promana da Disciplina Clericaiis 
do judeu hespanhol Pedro Affonso (sec. xn); e o n.* 60, duello do 
cavalleiro com o camponio, cuja fonte se desconhece'. 

O fabuiario de Walier gozou de grande acceitação nos fins da 
idade-media c começos do renascimento*: dcllc restam mais de 
cem manuscritos em muitas bibliothecas da Kurop a,— França, Al- 
lemanha, Inglaterra, Áustria, Bélgica, Hespanha, Hollanda, Itália 
e Suiça^; detlc se fizeram muitas edições, desde o sec. xv^; d*cllc, 
finalmente, ha numerosas iraducçÓes, imitações ou paraphrases, 
em prosa e verso, em vários idiomas, umas \á impressas, outras 
ainda inéditas?. O lexto foÍ também muitas vezes glosado e com- 
mcntado*. Entre as traducç5cs coniam-se : o Ysopet I de Paris ou 
Ysopet-Ayiomiet, publicado cm Paris em t825 por A. Uobcrií*; 



■ Vid. supra, p-go, nota t. 

» Cfr. Hervíeiuc, :, 5i i-5i4 c 11, 3if>. 

S Vid. sobre e&ic assunto: Hervicus, i, 491*1, ir, 347; Gasion Paris. La liltt'' 
rature frauçaise au moyfti âgc, 3' ed., ;; 80; Grunànss drr rontitn. Philologit, 
11-1. p. 409. — Sohrc o como dos grous de Ibyco cm cspi-cíal, vid Sielusine, ix 
(índice); Zs. da Vereinsjiir VoUisJcunde, vi, ti5; cl'r. lambem liédicr, Les t'a- 
bliaux, 2.* ed., p. i52. A dnígnuçãu de grous de Ibjrco provera de que a respec- 
tiva aveniuru %c attiibuiti na antiguídndc a Ibyco, poeta grega do sec. vi a. C; 
e tornou-se proverbial. Diz o nosso Benio Pereira (sec. xvti), Iftesouro da titt' 
goa portuguesa, 1.' pane, p. aafi {append. ã Prosódia, ed. de 1733): 'JuifO 
de Deus: Ibyci gmcs». 

* Cfr. Hervicux, i, 475. 

i Vid. Hervieux, 1, 5<)3-6o3.— Depois d« impressa o livro de Hervíeux, d«s- 
cobriu-sc mais um ms. (fragmcniArlo) na bibliotheca de Reíms: vid. hfadern 
langiiage noies, 1904, p. igH-ityj (artigo de P. .1. Freint. 

'' Vid. Hervieux, 1, 603-^3.1. 

7 Vid. Hervieux, 1, 6U-(3(>V. 

S Vid. Hervieux, 1, SoS-óo*'. — Adeante voltarei 110 assunto. 

9 Vid. as suas Fables inédites des %u*, xm* vi xiv* siMes, s vols. ; cfr. vol 11, 
p. 595-587. 



14a 



PABULAtlO POBTUGUfiS 



O y^opet de Lião, publicado em 1882 porW. FOrster'; o Líbrv 
de y sopeie fstoriado, em hespnnhol, Çnragoça 14^10»; e varias ita- 
lianas ^ 

Pela compararão que estabeleci d-0 IJvf^o de Esopo com o 
fnbutario de Walrer, adquiri a convicção de que existe absoluta 
confoitnidode entre js duas collecç5es. Canto no numero dus fabu- 
las, como nos assuntos. Isso se mostra na tabeliã que se segue: 

ciu uu 

iiuãllrriH» Aiigtleto O Ltvro ãt Cin/vi 

Pratofn IVnIogo 

i-«7 '-'7 

!i8-ao 46-48 \ fi 

2' 49 U 

i i ai-A 5o {= 49-A)* [ ■* 

"' ' 22-3i 5i-6o (= ho-hçt)^Z 

3a-59 18-45 

60-62 6 1-63 (— 60-62) 

Excluindo os prólogos, temos pois quatro grupos de fabulas em 
cada uma das colled^óes; chamando A (1-17)1 B(iH-3i), C (32-50) 
e D (60-62) aos grupos da collecçáo latina, e A' (1-17), B' (1S-4S), 
C (46-Go = 46-511) e D' í6i-63 = 6o-6a) aos da collecçáo porlu- 
gucsa^ verificamos que existe apenas difícrcnça na ordem das fa- 
bulas de dois grupos: a B com quinze fabulas (porque ha duas com 
o n." 21) corresponde C com igual numero d'ellas. É vulgar nos 
fabulnrios mcdievaes encontrar-se filteração na ordem das fabules^ 
o que tcra varias causas*. 



< Lyoner Yfoprt. H«Ílbronn i$83. — A p. 96 sqq. publica FCrsier também 
um texto crítico do Anonymuf Srvríríi ou VVahcr. 

' Sobre o /50/M) castelhano vid-MiircI-Fiiiin in Acmrjnia, xxiu{i894),J6i sqq. 

3 Sobre as coilecções medievae:» das tahulas iialianas em geral, vi(].Gtet(ino 
Qhiviíiiiani, II vof^aríjjamento delle favale di (íãlfredo deite di Esopo, pane 1 
c II, Rolo^na iSiiti (onde se reproduz um ms., do «c. siv, da hibliotlicca Ric* 
cardiana de Rorença, ou Isopo Riccardiano) ; e Peabody Bru5h. 77i« Jsofo Lau- 
ren;iaao, Columbus (Ohio) jHfjo, p, i e sqq— As fubuliis iltilinuns tem \arias 
origens: Walier, Marle de Francc, o Ut>ro delle VirtU, cic. 

1 A fahuU dos rfis que pedem um senhor « Juppircr dei o n." 5o.", podin ter- 
Ibe dfldo o n." 49'''-a, de harmonia com o n" 3(-a de Woltúr. 

í Cfr. K. W«-nl<e, /)/> Fah^lit der Marie de France. Halle 1898, p. xii-xin. 



FABULABtO fORJUOUÊS 



'47 



A essa concordância nbsoluta da collecção ponuguesa com a 
latina, no numero c nos assuntos das fabulan, juniam-se outraii. 
A coniparnçáo que no prologo d-O Livro de Esopo rc faz d este 
com um pomar ajardinado, c com os frutos de casca dura, cn- 
cortra-sc lambem cm \\*altcr, c C-lhc especial, pois nfio vem no 
Rómulo ordinário: Ortiilus tsíe parti Jruclum cum Jlore; mtcleum 
celat jrida lesta ^ honum. Na fab. xitv lé-sc Arguuy a que corres- 
ponde cm Walter, fab. 58, Argus; esta palavra lambem nâo vem 
no Rómulo vulgar (I, \ix), e é especial a \\ 'alter. 

Mas, apesar de tamanhas coincidenciaB, é O Ijvro de Esopo 
traducção pura e simples do Fabulado guatterianof 

Da cnmparatíáo que estabeleci, umn a uma, da» fabulas por- 
tuguesas com as latinas, apurei o seguinte. 

l)e modo gural, pôde dlzcr-sc que as nossas fabulas esiáu para 
com as de VValier na relação, ora de paráfrase, ora de simpli- 
ficação, ora de imitação, e raramente na de versão littcral. Á con- 
cisão, por ve/es seca c qunsi enígmaiicu, du original corresponde 
o nosso texto aqui c alem com mais claro e amplo desenvolvimento. 
Por ex., ;i fab. y." de Waltcr, que ti apenas narrativii, c n-0 fMTO 
de Esopo artisticamente dialogada. Também succede que no portu- 
guês apparcce mudada de quando cm quando a ordem das Ideias 
dfl fabulario latino, como na fab. xvi. Os trocadilhos e ambigui- 
dades do poeta inglês estão por vezes vertidos com elegância na 
compilação portugue^aj aquelle tem na fab. 3o.*: 

Non ero s«curu8, dum «it tibi lanu ftcciíris*; 

neste, fab. i.ix, diz-se: «jn com liguo nom viueria ssegurai. Pelo 
contrilrio um verw, como este de Waltcr, fah. ?g.', 

Rcgis conciliunt con&lliumquc scdet, 

i^produ-ln fielmente o texto português, fab. Jti.v; [o rei] *ouue cons- 
sclho com sscus comssclhcyros». — Os epimythios ou moralidades 



■ Aqui arula tcsia esiã no »ntiiIo de -csscan, o que se deduz da ordem 
Jas ideias expressas «nlei. O Ysojiet i de Pnrís nuim o entendeu (Roben, Fa- 
bles in^ditet, n, 448) : Sus sakke crus* «/ bonnt noij. onde raich» crus* quer 
diíer itca!»» M^n» E lambem o Yjop^t de l.ífia ^FOrstcr, Dor Lyontr Y^opei, 
p. i); . . con la cruixc qu'est toiche || /-o biin noettlois Jjii; joi ^unkftc, rcrrr.o 
o casca que axá si^ca esconde cm si o bom grâo^. B o Ysofo hyatoriaáo hes- 
panhol (Sfivillui i>33, foi. xvi-r): -como In càscãra seca cubrc mnvhaí Híc» 

cl CDfiOllo*. 

* xretírii aqui ■machadinha*. 



148 



FAKULARIO PORTUQUES 



São qunsj »mpre mais desenvolvidos no nosso fabulurio, pois cllcs 
contém frases latinas adnglos portugueses, conceitos rnoraes, c 
mesmo irechos que no texto latino fa/iam parte da fabula propria- 
mente dita. — Alterações semelhantes se encontram noutros fabula- 
rios medievacs, como no que scr^'iu de modelo a Marie de Francc', 
nos italianos*, c no Y\opet de Liáo\ 

Passemos agora a algumas minudcncias. 

O prologo comp6e-se, como vimos, de duas panes: uma, com 
a biographia de Esopo, extrahida do l.iber de pita et monbus phi- 
losophorum de Burley ou Burleígh; outra, com o plano do livro, 
análoga ao prologo de Waltcr. 

Na fab. t diz o gálio d pedra preciosa: eu ssería mafs ledo sse 
iichasse hua pouca de hisca pêra comer. Walter tem : pliis amo cara 
miuus. isto é ipreíiro cousas menos corast. No y-;opet de Lião os 
w. 49-3o, 

Mucz* ainx- firains de fromant ou d'or]ge, 
Quar miei" me fom ourir' 1» gorge... 

correspondem melhor ao texto português. Ma*í Phedro, Fabul., IH, 
xu, tem: ego . , potior cui multo esí cibus. 

Na íab. 111 a expressão e o rraio rrespoitden . . que lh'o agra- 
decia muyío falia cm Waltcr. No \\opel de Lião corrcsponde-lhe: 
E de ce formant li mercie, v. 148. 

Na fab. iv o carneiro vende a lã e morre de frio, pelo que de- 
pois o cão e as testemunhas o devoram. Em Walter faltam as duas 
ultimas circunstancias, pots se diz que a ovelha, opis, vende o seu 
vestuário c fica exposta a acção do tempo. O Isopo Riccardtano 
procede como Walter; mas ha outros dois volgarií^^amentí '\ia\\ax\o% 
em que succcde como n-0 Liri-o de Esopo: «la pecora . . si fa pró- 
prio morire, e per giunta mangiare»"*. 

Na fab. V a cão, depois de furtar a carne, passa uma ponte. 
A circunstancia da ponte falta em Walter e em Phedro (nas fabulas 
de ambos o cão vai nadando), mas encontra-se na colleccão intitu- 



t K.Wamke, Die Quetlen der Esope der Marie de France, Halle 1900, p. 4, 
» Pcabody Brush, The hopo Lauren^iano, Columbo tOhioi i8oq, p. 75. 
3 W, FOr&icr, Lyoner Yjopeí, Hcilbronn 1SR2, p. ir. 
■< Lat. melius. 

5 Lat. amo. 

6 Lat. melius. 

7 «=Ir. otnTÍr. 

* CfMid. Lnurcnziano. Mocenigo c Farsetti: vid. Ghtviziriíni, pnrte 1, p. cxv. 



FABULARIO POBTtGOES 



»49 



lada komuli AngUci cuttcíis cxortae fjòulae por Hervieux, Fabu- 
lisiiSt t. II, p. Dliy; canis per poniem íranshnt. A mesma circuns- 
tancia appurece no Isopo Hiccãrdiano: «undava unn volta uno canc 
con uno pezzo di carne in bocca sopra uno ponte*', e nas Fabulas 
de Marie de Francc: 

pas&ol uns cbicQs dcsur un pont'. 

Na fab. \ o villéo acha a serpente ao pé de um ribeiro, circuns- 
tancia que não está bera expressa cm Walter. No hopo Hkcav- 
dhnu, pcif) contrario, Ic-se: «uno strrpcnte aghiaccíalu nella \Ía in- 
fra lacqua» '. Walrer diz que o homem levou a serpente para casa. 
O nosso texto, como o de Phedro, IV, xviii, e o citado cod. Riccar- 
dianof dizem que a recolheu no seio. Rómulo, I, x, diz que o ho- 
mem sub laíera sua habuU. 

Na fab. \\\ o cozinheiro bate no rato^ o que não acontece no 
texto de Walter, nem noutros derivados seus que consultei {Isopet 1 
de Paris, J^opeí de Lião, Isopo /iiccardiano. Ysopo hystoviado hes- 
panhol). 

Na fab- xv^iii o calvo está ao sol. EmWaher, n.^ 5-i, bem como 
em alguns dos seus derivados que consultei ( Ysopeí I, Lj'oner y^i}- 
pet. RkcarJiano, y'sopo Iifsloriadot^c no Esopus moraliiatus {com- 
mentarío um prosa)', não apparucc a circunstancia do sol. Esta 
porím nota-sc num fabularío portuguía do começo do scc. xvu, a 
que mais adeanie tornarei a rcferir-me, — Fabuhs de Manoel Men- 
des, da Vidigueira, n." 54; o repousava à soalheira hum \'eÍho calvo, 
com a cabeça descoberta, e hunia mosca naõ fa^ia scnaó picar-Ihe 
na calva I. 

Na fab. xix a raposa p6e de comer á cegonha cm um vaxclo 
muf largo, como em Phedro, 1, xxvi, in patina. A menção da va- 
silha falia em Walter, fab. 33." Alem d'isso, cm Walter, a raposa 
bebe; no nosso texto, lambe. 

Na fab. xxi, são muitos pavões que, como em Rómulo, II, xvi, 
c Phedro, I, III, despem das pcnnas falsas o corvo- Km Walter, n." 35, 



I Ghivizuni, Fayole diGatfreáo, parte ti, Bologna 1866, p. ia. 

» Die Fabefn der Sfarie de FratKe, ed. de Warnke, Hallc 1S9S, p. ai.— 
O meimo A-, no $cu livro Die Quelten der Ksope der Marte de Fraitce, Holle 
1900, p. 10, ciu outros textos (fabularios, etc), onde também %t dU i^ue o cão 
passa umn ponte. 

^ Gbiviszuni, pane ii, p. 28. 

* A respeito d'nte Esopus vid. adeanie, p. i!>3. 



lÍK) 



i'At)ULA)UO l>ÚKIL'UUt-3» 



ú um KÓ puvão quem fas isso; o mesmo succede no fnigmcntu 
de um fabularío provençul publicado na Homania, \tí\ vid. p. xiii^ 
nota. Neste ponto O l.ivro de l-lsopo está mais próximo de Phcdro- 
Uomulo do que de Walter. Alem d'esta dilíerençii eiure o no&&o 
texto c o de Walter, nota-sc que o lat. graculus foi truduzido por 
coifo, o que tumbem se obsen'a no mencionado fragmento pro- 
vençal c noutros fabulados medievacs: vid. liomauia, loc. cil. 

Na fab. xxivo tobo accusa de divida a raposa perante o bogio. 
Km Walter, n." 38^ como noutros fabtilaríos tlsapet I, I\opet de 
(.iâo), a raposa c accusada de furto. 

Na fab. xxv a doninha promette ao homem, cni troco de este 
lhe conceder o vida, guardar de rotos u casa no futuro. Hm Walter, 
fab. 3i|.', a doninha diz no homem que lhe guardou de ratos a 
casa. c pede-lhe, em compensação, que a poupe. Nt» latim a res- 
posta do homem conirapne-se ao pedido, pois c: guarditsic-me a 
casa de ratos, mus foi no teu inierc^se, pois os comias, e também 
comias o que era meu. No poriuguís u resposta é como se o pedijo 
fosse formulado (do mesmo modo que n<i hulm) quunto ao passado, 
e niio quanto ao futuro. 

Na fab. xxvi u boi pisa u rã, c esta assanha-se para se bater 
com elle, dialogando depois com a tílha. Km Walter, como em 
Phedro, I, XXIV, u rã tenta bater-sb com o boi por inveja, e o dia- 
logo é com um filho. Mas cm Horácio, Sativae II, lu, 3t3, um 
bezerro pisa os 51hos da rá: 

Abtentis ranav pullís vituli ptíde pressls 

Na fab. xxvii ha uma abreviatura, S""-, que interpretei por • se- 
nadores», aventando porém, cm nota, que lambem alguém poderia 
entender «scnhoresi. Curioso é notar que no )\opít de Úáo, v. 
tftSti, se díjí; Li senatour et li proudomi:. Nu isopo Hiccardiafiu: 
«lo signore di Roma»'. 

Na fab. xx\iri ha um dialogo preliminar entre o cavallo e o 
leão, em que aquclle dÍ2 que é muito doente. IC&te dialogo falta 
em Walter. 

Na fab. xxxii o lobo furta um bode e come-o num silvado; a 
raposa di;^ ao pastor que o lobo lhe havia furtado o bode. Km 
Walter, fab. 46,', nfio se menciona expressamente ■bode*, só //-ae- 
da c cibus, e o lobo está num antro. 



> UhÍ\iuDni, pane 11, p. 103. 



PABOLABIO POBTUODÉS 



l&[ 



Na (ab. xxiciv a viuva chora a mone do marido em uma ermida 
onde e\h fora sepultado. KmWalier, fab. 48.*, falia a menção da 
ermida, e pelo contrário o A. dá a entender que a sepultura era 
ao ar livre, pois que di^ que, entre outras circunstancias, a saraiva 
não podia afastar de lá a mulher: rte,jiát hac tie sede reudli gran- 
dine. No mais os dois textos são semelhantes; só na compilação 
portuguesa se adaptaram os icrmoã latinos aos usos nacionaes, tra- 
du/indo-se eques por «alcaide», e rex por «senhor*. 

Na fab. \i.viii ú curiosa a coincidência que se nota entre a frase 
ca esie viilãao quer fa:{er d'aqut:sle Unho rredes e Jaços pêra nos 
toniixr c esta do exemplo 6," do Libro de Paíronto de D. Juan Ma- 
nuel (sec. \\\): podrian/acm' redes et la^os para torna-las aves; no 
maiii a fabula e u cxcmpiu não coucordant. 

Na fab. 1 x entra um cabram, ao passo que em Waltcr, fab. 3l.*, 
entra uma ovis. No português falla-sc de um muru de irijfíuo, o que 
corresponde ao modiíim ttiíici do Rómulo vulgar, n, 12. KmWalter 
a i«l expressão corresponde yas íriíici. 

Desta breve discussão se vê que o nosso texto mantém com o 
latino, a par de concordâncias tiagrantes, também algumas diíTercn- 
ças ponderáveis. Notarei ainda outras particularidades á-0 I.wro 
de ['liopo, quanto á forma. 

Cada fabula começa aiii invariavelmente por uma desius ex- 
pressões, com pequenas variantes; [<:]otttase que, \Íor hOa re;, 
[p]o/;i esie doutor (poeta, ele.) enxemplo e di\, [e^m etíe enxemplo 
o poeta di^, [cy>nta este poeta enxemplo, [djí^ quejbj', [c]m aquesta 
estona. Os epimythio^ ou moralidades começam lambem por fór- 
mulas cst éreo ty padas, como; per aquesJa heslorij, em aquesta es- 
íoria, per este enxemplo, pom este poeta este enxemplo, di; este 
poeta per esie enxemplo, conta-nos o pueia, e semelhantes. Em 
Walter nSo acontece isto, porque nhi as fabulas são apresentadas 
como lições dadas pelo próprio autor dos versos latinos. Já no 
commentario U fabula xvni, p. 129, me referi ao pum; aqui aceres* 
ceniarei que as demais formulas sSo vulgares noutros textos. Km 
fabulas italianas lícm-se as seguintes, particularmente semelhantes 
i^s nossas: iniciaes das fabulas, chouta Í'jssempio, chouta rJsopo, 
dice che, pone Vautore, una volta; iniciaes dos cpimythios, dimostra 
Vautore Sotto quesía Javola, per questo assempro, e outras'. Nas 
fabulas de Mane de France: ci dii, c esí essaniples, par ceste/able*. 



< Pcabody Brujh, Tlie hopo Laurenfiano já cit., pagsim. 
J Die Fabetn ]à cil-, pastim. 



Em fabulas hespunholas: esta fabula nos enseíta, esta fabula mucs- 
tra, pruei'a esta fabula, ai^ni se recneiita una fabula*. Km Phcdro 
lâ-sc também; Aesopus mítis W e.xemplum pi-odiciít.l, ur; testatur 
haec fabella, I, v; Aesupus .. nanarc indpit, I, vi; quondam, I, vi, 
XXIV, xxviii; dicitur, I, xxvi; exetnplum egregium, II, i; pvaecepio 
III, viii; olim, III, xvir, hoc argumento, IV, viu. Foi evidentemente 
Phedro que serviu aqui de primeiro modelo parao formulário. 

Como notei, cjuando tratei do estylo das fabulas, p. 119, estas 
encerram algumna vezes adágios, com os quaes, pela sua forma 
breve e incisiva, o compilador pretende incutir melhor no animo 
dos leitores u sentido moral das narrações que lhes faz. Ora ha 
uma obra hespanhola do sec. xiv, que já acima citei, o IJbro de 
Patrottio, ou Conde de hicanor, de D. Juan Manuel', onde os 
exemplos contidos na 1.* parte terminam também cora um prover 
bio ou senicnça (era verso); ludavia não ha mais nenhuma rcIaçSo 
do nosso fabulario com esse IJbrOf como nenhuma ha com o IJbro 
de los gatos (sec. xivj', ou com o hopcte hysloriado (!•' ed., 14K9), 
posto que este provenha do Homulus ovdÍnarÍm, por intermédio 
do Aesop latino de Steinhciwel*. 



' Libra dei sjbioy claríssima /jbulador Ysofo, historiado y amtolitdo, i533 
(Sevilha), pa&:um. Hti um cx cm pi. ir na BibUothcca Nacional de Lisboa. — Da 
fonte (resta obra tallo infra, nesta mesma pagina. 

s A aciiviJatle litleiíiria de 1>. Juan Manuel CKcrceu-se de l330a l335;víd. 
G. Baist in Grundriss der romart. Phtlntogie, i. ii-a, p. 418. As fontes Jo Livro 
de LticMor &so varia» {orienlaes, ctc.i. — E&ia obra foi public&tla di versus vezes. 
Tenho presentes as edJ. Uf Gayangos, Escritures en prasa anteriores ai si- 
glo XV, c de Krapf, El Libro de Paironio, \"i^o iiK'a- 

3 O Libro de hs gatos (ed. de (jayanjjoí,, Escritores en prosa anteriores ai 
figlo XV) é tradiiJcido de Odo de Cheriíun (sec. uii) ; vit,i, K Meyer in Romania, 
XIV, 3<j3, nota 5. Sobre Odo de Chcriíon vki. : P. Meyer, Les Contes moralisès 
de N. Ho^on, Pnris 1889 (Soe. dcs Anc. Textos), p. xn-xiii: B. Ilerlei, Beitr. 
jiir Gcschichle Ji-r Hiopischen Fabel im Millelalter. Bambcrg iSi)3, p. 5 sqq. {re- 
iumo dns fontes: p. 44). As Fabulas c Piíratioliis de Odo de Chcriton foram 
publicadas por llervieux, Les Fjbuiisles, l. iv, iSçiU, ijuc bs acompanha de um 
estudo litterario, e fuUa do Libro de los gatos a p. ic6 sqq. 

4 Vid. Ilervíeux, 1, 421, e Morei Katio, Romania, &uii, 5úi &qq.— No nosso 
Fabulario nSo encontro vesiigios linguisticos de que alguma obra licspanhola 
inHuissc nellc; branchete ivíd. Vocabulário), com quanto cu nSo conheça esta 
palavra noutro texto pnrtuguís, e se encontre, por es., no Arcipreste de F"il8, 
lÀbro de buen amor, ed. de Ducamin, Tolosa tqoi, estr. 1401-1404, numa fabula 
correspondente á nnssa, não é prova suficiente, tanto mais que a nossa palavra 
tem br'. — O Livro da vida e dos costumes dvs phihsaphos, que se cita no pro- 
logo do Fabulario, corresponde, como prnvcj a p. 133-136, nSo & obra hespa- 
nhola do mesmo titulo, ma» « uma iutin», fonte (Í'estR. 



KABUIJVRIO fOBTUOOTJ 



■53 



A conclusão ultima a que chego é que O ÍJvro de Esopo. cum 
quanto eifectivamente se relacione de modo íntimo com o Fabularia 
do Attonymus de Nevelet lAValten, não provem direciamcnic d*c»tt% 
mesmo com alterações, mas provem de algum texto cm prosa, la- 
tino ou românico, derivado do Fabularío gualicrinno. 

Pôde muito bem o no&so texto ser traducção modificada de 
um dos commentarios latinos mcdievacs que acompanhavam com 
frequência os versos do Anonymo de Nevelet, c aos quaes me referi 
a cima, p. 143. Hervíeiíx cita, por exemplo, manuscritos commen- 
tados existentes em biblioihecas de Paris, Marselha, Tréveros, Mu- 
nich, Ferrara, dos secc. xv e xiv', 

Da natureza d"e5tes e semelhantes commentarios, que eram 
destinados ás aulas, dant ideia o ICsopus ntoriítisjíus, Antuérpia 
1 304, de que encontrei um exemplar na Bibliothcca Nacional de Lis- 
boa*. Kxistcm notáveis parallclísmos entre esse Esopus c o nosso, 
quanto ao formulário. O Esopus começa de ordinário assim: hic 
aucíar puiiit dociniwiifuni, hic aticlor ponit aliam fabulam aiitts 
docummtum esl, hic ponit documeníum, hic poiíiiitr tiiu hysioria; 
como o leitor se lembrará, pois ha pouco lhe chamei a aiiençáo 
para isso, O IJpro de Esopo começa também frequentemente : 
[p'\om este poeta enxemplo. A náo ser, porem, nisto, c num ou 
noutro caso avulso, náo vae mais longe a concordância entre o texio 
latino e o português. Como caso avulso citarei a moralidade da nossa 



' FabuUstes, i, S04-598. — Os mss. latinos do Anonymus que Hervifos. 1, 
583-585, cita como existentes em Hcspanha são desproviJoN Ju commcnturio 
fre6ro-me iiqui & Hcspanha, porque, intentas as rclaçóvs liitcraríns que em 
tempos anti}tos houve entre «se puis e o nosso, podín o leitor pensjir nclle); 
talvez porém exi&iiim outros msnuscríios que escipassetn 3 Hervtcux. 

3 O titulo comptctnc; fl!9a{)i]& inorn- | lisotus (ú boiío [; rámrnia 3trrft 
tcrtu* Itt nPUD rmcnIialBS [uiii . gloiít iiittriintnlf. || . No Ironiispiciu hu uma 
gravura que representa o intcríor de um edifício em que e«tá Cbrisio, de pê 
vestido de túnica, nimbado, com o cabello cnido para os lados, um ^Io1k> cruci- 
fero na mÁo esquerda, e n direitn erfiuida com os dedo^ dispoiío^ cm neto 
<Íe iibcnçonr, Tem ao tiiJo 76 pjt;ina& náo numeradas No lim lè-se ; ^ 4?*i|i|« 
fabulflior prrflartssitnus rum «uiii itio || rali«ntionlliu« nii uostrt tii«lnirtiinr 
|iiilfl|rrrf)itr nii^to^ili^. 3mpií9âii» Aiitvfriíir ;:rr iiif {)cnrUu ' crltrrl. JIbri 
&ií. }jfi. rrrrr. iiíj. ^n vruffstii «nttcir |i fiailjfrtiir itrenii». ., . Alttifn dtt> pa^\' 
nas 'i^jiíiS; iargura o*,!^^. A unia breve tntrodiK\'ái> sobre Rsopu, sobre Ró- 
mulo e o rex angUf AJfaux scguc-se o prologo do Anonymo de Ncvelci e ns 
fabulas em numero de sesseatu, sendo a ultima a do duello do soldado com 
o campanio. Os versos eslSo intermesdos de glosas. A cada poest« succede 
o commento cm prosa. 



iS4 



KABL-LARIO l'ORTUCUES 



fabula xxxiVt onde se diz que o eniendtmento da mulher não é es- 
tavcl, e v|ue cstn pouciís víí/.cs acuba (ou jcaba bcmy) couta que 
aimucc; o Esoptis morai i$j tus, luni aí]ui : palcí ergu quod mulieres 
raro aliqtiid benv terminaut, co qund ex uaiitra &unt instabilcsK 
Os epiraytliius do Esopus são quasi sempre introduzidos por adver* 
bios: allegorice, moraUíer, ou ambos; o u&o de allegurice confirma 
a intcrprctiição <\\x^ a p. 140 dei díi expressão cum alUgoriii, isio 
iy icom morulidades», que se lê no únal d-0 Livrv de Etopo.— 
Para amosti'a du mcthcxio adoptado pelt> commentador, reproduzo 
uma das suas diluições prosaicas dos versos do Anon/mw: 

36.*— DE MULA ET MUSCA 

Mula c«pil cursum; nam mulam mulio cogil. 

Mule rausca nocel verbere siue mini;.: 
■Cur pede sopito currum te lempuaque moraris i 

<Te premo, ic punfto, péssimo, currc Itvis*. 
MuJa relcrt : «Quú m3i;i> tonu», vU tna^n» viiierí ; 

«Nec luu verba ntM:ent, tiec tua la^ia mihi, 
■Nec ic sustinco, $cd cum quem su^tinct axis, 

-Qui mei> Irena tenci, t^ui mea ler^a Wrn». 

Audcl in auiiaceni ttliuJu» lurlia^uc aunatur 
Uebilis, audendt dum videi esse locum*. 



Commeniario em prosa: 

Hic punít documentum, quod homincs naturatiíer limiJi. vidasm ttíorum 
roí&«riam, nocendo sepe sunt peiores hií quom ystc\ qui ex natura suni fludaces. 
Quod deciaratur nobis »ic. 

Quodani enim lenipore niuia uahéns currum percuticbatur duris verbvrí- 
bus iib auriga eo quod veloci 120IU currum non irahebau quud vidons tnusca 
cepil morsibus lorquere mulam dicens: «O mula, cum; v«]ociier, quiaegopungo 
ic«. Audieiíí hoc mula r<.-sp<>ndÍT : -O musca, quía vide» m« C8sii|<nn, dicis mihi 
«obprobríosa verba et lamcn ncc verba occ fíecta tua tiocent mihi, »ed soliim 
■auriga qui verberíbus me prcmtt-. 

^ Concludii ergo quod homines umidí, quando vident alíos di(tortiin.uos 
pati miteríam, magis eis nuceut ijuam potenie-i. Inctudilur enim quod timidi 
audeni inuadere audaces dura vidcrint auxiljum, alias non. 



« Foi. an. 

> Sigo, jÁ se v£, o te\io do £sopus moratisãtus, que ditrcre, aqui c alem, 
dob que Hervieux c Fttrster (vid. supra^ p. 146, nota l) publicaram. Supprimo, 
poriím, por ser inútil rt.-produ2t-la^ as glosas interlinJures. 



FABUl^KIO PORIUCUKS 



láS 



N-0 Livro 4e Esopv corresponde a este» textos a fab. xxii. 

Ao parullelismo que asiiinulei entre o Ksopo poiíuguéu e o Eso- 
pus niorjiisafm corresponde oulro, c talvez maior, entre a<.(uellc c 
o hopo RiccarMano. Com edcito ha fabulus no hopo Rkcardianu 
que começam d'este modo: dicie il detto $avÍo che\ conta il sa- 
vio che'; os epimythios: per quesío efsetnpro ci iimomsdi' il savio 
che^. anniestraci qui Íl sario che*, potie il timíro Ubru cltc^. No 
nosso texto sabemos nós que são frequentes as expressões [c]outa 
o doutor, [pjom esie poeta, per esie enxemph itos itmt/esla, querendo- 
iioj íiíMii«/rjr. Vejamos outros parallclismos, alem dos meros for- 
mularias iniciaes: 



o UVRO («V ESOPfi 

■ . ii»wmelUu uiilti simu Ijurua húu 
orlo no qiml) cMam líorcs c Iruyios* 

iTffIOfO. 



ISOPO KICrMtlUÀSO 

. . iiisuiuíifliucHlu qutftito suo libru 

a uno ginrdmo nel ijuiUc sono molti 

belli tiofi e fruiii.. 

QblvUuiU, K, I. 



Abstrahindo dos adjectivos molti belH. devidos á ImaginaçSo ita- 
liana, a concordância dos dois textos é completa. Ambos elles distam 
do texto latino do Anonymo: Ortulus tsíe parií /ructunt cumjlore. 
K tnmhem não distam menos du Esopus ntoralisains, que diz: ím 
isto libello est Jlos ctim fructu. 



o UVKO Ut: ESOPO 

[C]onta-sse que hfla vez hQu asno 
«aconirou com hQu pnrco monl£s, c 
S!taudsm<io>o «Jiiutí com boo corai,'om: 

— l>cus ti: ssalue, senhor porco . . 

E n pwco rrcçcbco o:> dovcs pa- 
liitiras pnr em|urtn, e ameaçando Cora 
a cubeça, úmu: 

— ..Se não fowe porque nom 
quero luxar o meu frcnioso dente. . 

Fab. II. 



tSOPO RtCCARttl^VO 

Coma i) sovio che andnndo uno 
iMtno per la »elva trovo uno porco 
fiulvaiico e salulallo i; díise: 

— Fraiellot Dio ti lalvi. . 

Lo porco niiiucciando, di^e: 

—Se non fosse íh'io non voglio 
Icrciare li miei denij.. 



Gtil«Ujunl, pp. 7o-Si tamtwm M. ii.*). 



> Qhiviuaní, ii, i;. 

> tdtntf n, to. 
' tívm. II, 21. 
4 M«m, n, 14. 
i IJcm, ti. ji. 



i56 



PABULAItlO l>ORrUGlJÉS 



Quão longe os dois textos estão do do Anonymo, se verá da trans- 
crH;ão d'csle: 

Audtft usellus «prum risu (ecnpure praieruo, 
Audel inhers fortí diccre: Fraler, auet 
Vibrai aper pro uocc caput. . 

Su!. lumcn tsta mouL-t: ViJem deus nobilis cscam 
Spemil. . 

Kcrtieux ii tiab. ii.*( 

O Etopus moyaiisJlus esta a igual distancia. 

Curiosissimu do mesmo modo c notar que» se na fabula do 
pastor e do lobo, t]ue fecha u nossa collecção, se diz comía-nos ho 
poeta esla hultima esioria, frase semelhante se lé na correspondente 
fabula do Isopo Rkcardiano, tiimbem ahi a derradeira : per qiies/u 
ultimo cssemprn d amouiscie il scinio. 

Mas, asKÍn; como entre u nosso Esopo c o Esopu& moralisatus 
as scmelhunças se limitam ás formulas e a casos avulsos, assim 
a relação que existe entre aqucUe e o Rtccardiaiio não são maiores 
do que isso. 

Por um lado, estas analogias d- O I.Ípvo de Esopo com <> Isopo 
Riccttrdiatio c o Esopus moralísatus, e por outro lado as divergên- 
cias que ha entre aquellc e o texto gualtcriano, fazem de facto crer 
que, como acima aventei, houve uma dissolução latina, em prosa, 
dos versos do Anotij-mus de Nevclet, donde provem directamente 
as nossas fabulas, —dissolução que n compilador português, ainda 
assim, modificou mais ou menos, pois enriqueceu de adágios nucío- 
nacs e de reliexóes moralisticas os epimythios'. Este compilador» 
que infelizmente não revelou o seu nome-, seria ecciesiastico, a jul- 
gar de alguns dos cpimythios. especialmente dos das fabulas xxiiv 
e XLV, tão cheios de uncção religiosa. A referida dissolução prosaica 
devia conter os factos que a pp. 14S-1S1 citei como próprios do 
nosso Esopo, e não existentes cm Walter. Fica implícilamenie esta- 



) É sabido qu« us (raductores mrdievacb ni!o costuninvain ser fieis: ora 
4n^>IJa\;Am, ora rci^umian), orii supprimiiim. 

' Os escrílorcs mcJievac» ocwuliavain muiias v«^c^ o nume por mudesiia 
cliristá. ComeniOi.im-se com trabalhar para o que cllcs suppunham ser o Sem 
commum, u, cm vez de gloria, só querínm u sucisfação desse inipuUo da cons- 
cicncia. Por wl moiivo eram ás vezes ns obrns de uns poíias n saqtie poromros; 
a ninguvm se suppunhn pla^inrío ou pÍH|j[iado. 



/^ 



FABUtARlO PORIDGUÊS 



ib7 



.belecida a probabilidade de que o hapo Riccardiano, e por ventura 
outros fabularios mcdicvacs, assentarão do mesmo modo cm redac- 
ções ou dissoluções prosaicas dos versos do poeta inglês, e nao im- 
mediaiamenic nestes; laes redacções eram, como sabemos, muito 
numerosas, c deviam andar com frequência nas mãos dos escolares. 
Ainda que a minha hypothese, não obstante explicar o accôrdo de 
cenas particularidades d-0 IJito de Esopo com as dos fabularios 
mcdicvacs, e o dcsaccordo d*cllc, nesse ponto, com o texto gual- 
teriano^ venha a ser rejeitada pelos philologos, e substituída pela 
de que o compilador português, em logai- de utilizar um icsio etn 
prosa, traduziu livremente o poeta inglês, não se poderá negar que 
ao menos teve presente ao acto da traducção outros fabularios. 

Reportando -nos outra vez, c por fim. ao prologo das nossas fa- 
bulas, do qual fi^ proceder este estudo, verifícamos que o compi- 
lador, quando affirmavii que cilas provinham de Esopo, seguia uma 
tradição tineraria muito em voga na idadc-mediu, embora, enun- 
ciada assim em absoluto, fosse inexacta. Oigo assim em absoluto, 
porque, se muitas fabulas ascendem de faciu a Esopo, por inter- 
médio de \\'alter, Rómulo c Phedro', outras tem diversa origem, 
c mesmo as que ascendem, modificarnm-se na longa viagem. 



Para que o leitor possa num relance ver a rclaçáo em que es- 
tão entre si os fabularios que mais tenho citado ate aqui, apresento- 
Ihe o seguinte quadro genealógico: 



L2<se neste poeta, liv. i, prologai : 



Aesopus auctor quum materiam rep«rít, 
Hanc ego poliví versihus senariis. 



t58 



FABULARIO PORTUGUÍIS 



O 

•o 



D 

't 
V 

X 

■d 



^ 



^ X^ -s 



5S^s 

o "-S 

"T •* is 

* -o ■« W C. 

.5-S ^S ■ 

•-' 10 ™ « 

t/) «%. « ". 



■se 



w 



^- . ■ 5" 3! to 









o c 



_ # i "J *' ^^ '^ 



Ti 
ST •■■'2 õ 



1 5 2 :i 

C iro 



u 









Is 



•slíl'^ 



•a 






u 


c 




^ 


*ii 




« 


o 




•d 
E 




tf 




w 




? 


o 


Ta 


^ 


A 




£ 


E? 




4; 
■O 


9 




íf 


s 

tfí 




M 


•B 




S; 


«1 




> 


> 





o 
■9 



T 




:c-^ 






« « •; ^.3 t 
^ 3 a c c 9 






%Mti 



^o o 



-' E 



3CTJ ^ ■- 
CCS »< 4í 



K : 






FAMILARIÚ l>ORTimul:S 



159 



O ÍÀvro 4e Esopo desrinava-sc evidentemente á edífícaçáo mo- 
ral dos leitores, como o provam a 3.* parte do prologo e os epi> 
mythios, .Is vezes muito desenvolvidos. De fabulas du origem pagã^ 
— tão vária c tão remota — . pretendia lirar-se enKÍnamento chríitâo 
para a vida usual. 

Não foi esta a única vez que obras antigas se adaptaram a in- 
tuitos novos, — obras pertencentes de mais a mais a civilizações 
que a própria Igreja combatia. Sem sair da nossa própria littera- 
tura, lembrarei o (Jrto do Esposo, manuscrito alcobacence do sec. 
XIV', onde ha comos que correspondem a contos indianos. Parti- 
cularmente notável a este respeito c a lenda de Barlaam e Ji>u$aph« 
também relacionada com o Oriente, e de que temos em português 
uma redacção do mesmo século com o titulo de Vida do (wnrrado 
iffante Josaphat*. A Historia do cavalleim Tuiigtdlo e o Conto de 
Amaro, ambos igualmente do scc. Xiv\ desen^olvcm themas que 
na origem são cxtranhos ás crenças do christianismo. Assim corao 
as superstições pagas se transforniavam de modo Jnsensivcl cm prá- 
ticas piedosas, também as lendas experimentavam incessantes me- 
tamorphoses. 

Afasta-se, porém, O Utro de Esopo das obras religiosas que 
mencionei agora, c de muitas mais que poderia mencionar, sobre- 
tudo vidas de santos, meditações, traducçócs bíblicas', porque, se 
é certo que em alguns cpimythioK ha ideias mysticas, as fabulas 
propriamente ditas mantém m sua independência ariistica, c formam 
como que um oásis cm meio da aridez e insipidez da littcratura do 
tempo, absorventemente devota. 



> Isto è, oríginarío da Livraria do R«al Motuirn de Alcobaça. Eni contido 
no cod. n.* 36'\ que esisie hoje no BJbliotheca Nacional ds Lisboa. — Deu extrac- 
tos ifelle TK Braj^a noií Contos Iradidotiats do povo fort., u (iS83t, 3S S()C).; 
cfr. as notas de p. i3a sqq, O Sr. J. Comu, ho}c profe»sor dn Universidade de 
Orar, fei uma copia do ms., e o Sr, t\ M Kstevc«i Pereira, a quem a Hrvisia 
Lusitana deve já a publicatSo de importMiiies lexioí poriuguese^ amíf^os, esiá 
fazendo outra. 

1 Vtd. supra, p. lao. 

' Vid- supra, p. lao. 

i Vid. : Th. Braica, Curso áfhisi áattiíerai pori (i8S5),p. ii2-m6; I). Ca- 
rolina MichíiclisdeVasconccIlos, Geschtchtt dtr portug. Lilttral. mo Grunáriss 
dttr rom. PhHot., ii-a, p. iia). 



o Fabulario vem preencher uma lacuna na nossa litteriítura 
dos sccc. xtv-xv, c fazer que Portugal se relacione neste sen- 
tido com as litteruturas medievaes, visto que ellas possuíam iso- 
peleSt c na portuguesa não se sabia da existência de nenhum. De 
Ksopo, isto é-, Esope. tiraram os franceses o deminuiivo Ysopeí 
(Isopet, lisopet)^ que umas vezes significa o nome do fabulísta, ou- 
tras uma collccção de fabulas. Fallando do y'sopet 7 c do Ysopet- 
Anomiet', dizRobcri; «J'ai conserve a ccs fablcs Ic nom S ysopeí, 
oCi Ton retrouve celui du père de Tapologuc, et que lon donnoit. 
dans ces anciens tcmps, a louics )cs collcciions de fablea tradultes 
cn françois, parce que lon cn rcgardoii tous Ics sujeis commc four- 
nis par le Phrygien : c'est ainsí que Marie de Krance avoit nommc 
U Dll ou le LiWe d' ysopeí, le recueil qui comenoit les siennes»'. 
Também G.Tardif, iraductor das facécias de Pogge (sec. xn-xv), 
dÍ7 a propósito da fiicecia 71).* 1,0 gallo t' a rapma): oKn la facétíe 
ensuyvante, aulcuus unt attribuc àYsopet et avecques la translation 
des fables de ^'sopet Tont míse» -. Da França passou a palavra Isopeí 
para a Península Ibérica, onde tomou a forma hopete nu Ysopete 
em hespanhol, e hopete em português. Em 148^ publicou-se em Ça- 
rapoça o Isopete historiado; e em i^ytí em Burgos o /jôm delysopo 
famoso, cujo expiicil stui assim: «libro dei rsojfWf ystonado»^. Peto 
que loca ao português, lê-sc em João de Karrus, Hopica Pne/ma: 
«leyxarás Luciano, Homero, Isopete. Quando eu cuído em tanta 
fabula. . i'', onde JsopeJe significa o nome do fabulador;em Camões, 
no coméçLi da (Comedia dei ny Seleuco, lè-se também: «porém 
diz o Autor que usou nesta obra da maneira de hopete». D'aqui 
SC vê que cu pndia dar ao nosso Fabulario o nome de Isopetk Por- 
ruGuís, 110 que ia de acordo com usos medievaes; mas nSo ousei 
isso, por tal expressão não constar claramente do texto. 



■ Avionneí é Jeminuitívo correspondente a Avianus, nome de uni fabiilista 
romano do sec. iv ou v, tambcm muito lido na iJadc-média. Forroou-se como 
Ysopct. 

* Vid. FaMes in^dites des xir, \ni* et xiv siècles, vol. 1, y. clxiv, nota. 

J Apud Robcn, oí. cif. na noin imtcci;di.nic,vol, 1, p. ixxxtv. Esiu traducçSo 
de Tardif 6 posterior a 1483. 

4 O povo castelhano também proniinciíive Guisopete: rid. MoreNFofio, 
in Rotnania, xtm |if*t>4),p. í'"'3, n." 2. 

> Png. aRu, da ed. do Visconde de Aievedo, Porio 1869. 



FABOLARIO H)STOCU£S 



161 



A essas c análogas allusõcs á9. fabulas csopicas, e a um ou outro 
apúlogo intercalado em obras de caracter geral, se limita o que a 
antiga litteraiura portuguesa nos deixou sobre o assumo'. E preciso 
chegarmos no começo do scc. xvii para encontrarmos um fabulario 
completo'^ d'ahi em deante ha mais, que todavia não importa agora 
ao meu assunto especificar. 



■ Com relação ao sec. xv, cila a Sr.* D. Carolina Míchoiflis ilã Vosconcellos, 
na sua Gfichicfite dtr poriugiesischen Liiteralur (no Grvndriss der romati. 
Philol., ir-b), p. ajo, entre a* obras que eniSo se liam em Ponugsl, como pro- 
venientes da Fr^inifa, o Isop (nâo scí onde cila colheu esta noticia; talvez 
em algum passo de escritor nnii^o). Com relnçao ao scc. \vi, lE-!íe Íhio, por 
exemplo, cm João de Barros: *. . sctfue» a ignorância Jo c5o do fitbulador*, 
Ropiea Pnefmny sã. de 1869^ p. 112; «o povo chfrjisiio foy como a gralha de 
l&opo fahulador, ve^tiu•se das penas de lodalas fermosas aves: mns o pavam, 
vendo i]ue u precedia em fcrmosuro, ouvelhe enveía, e fez com as ave» que 
cada húa pedisse sua pena, por licar cm pior estado*, Ropiea Pne/ma, p. i85- 
llJ6; -ouiro^ coiuo Isopo, queiendo chegar a cousas maceriaes <t fameliare» 
■ nós, composcram Tabulas», Dialogo com dous filhos, ed. de 1869, p. 314. Foi 
a Sr.* D- Carolina MicHaclis de Vasconcellos que me chamou a attcnçáo para 
estes três passos.— A mesma illustrL' Senhoro, na sua ed. das Otras de Sd de 
Miranda, ilalle iS85, a propósito de uma fabula d'este, alludc x OÍoko Ber> 
nardes: ob. dt., p. 7;».— Cfr. tambcm Jorge Ferreira, Eu/rosina, ed. de 1781», 
p. 14.— Num raro opúsculo, Coltecçáo áe algumas falntlas <m verso e pmsat 
Coimbra 182?. que possuo por dádi%'a do meu erudito amigo o dr Sousa Vi- 
terbo, transcrevem- se trechos de Si de Miranda, etc: vid. o que Souía\'iierbo 
escreveu sobre u assunto n-.4 Tradii;âii,\, i3o-i3a, onde reproduz alem d'ísso 
um Irechii de Fcruno Lctpcft (fabula da raposa c do corvo;.— Da fabula da bi- 
lha de azeite, que vem em Gil Vicente, tratou u l>r. Va&cuncdlos Abreu no seu 
opúsculo Os Contos, apologos e fabulas da Índia, Lisboa 1901. — Nenhuma da& 
fabulas referidas tem porém nada com O Livro de Esojm. — Vê. se do que fíca 
dito que as fabulas c^opica» eram muito apreciadas pelos nossos quínhentisias. 
Este apreço manifesiava-&e mesmo fora do ambiio da liltcratura, no da arte 
proprjnmenie dita. Nas misericoráias, ou pequenos apoios, do coro da igreja 
de Santa Cruz Uc Coimbra, o cscuiptor tifiiurou -facécias anccdoticas, algumas 
tirada!! das fabulas ric EsopO"-: vid. Arle e \atureja em Portugal, n." 28: e cfr. 
o cit. artigo de Sousa Viterbo (n-Á Tradição). O Jístincto urtistu o Sr. A- Gon^ 
çalves Infnrmou-me de que enirc as anccdoias figuradas no coro de Santa Cruz 
tiiií a fabula da raposa e da cegonha los dois episódios) e a da raposa e das 
uvas. Incidcmemente notarei que o gosto de representar fabulas esopicas cm 
obras de arte ascende ji á antiguidade clássica. 

1 Vida e fabulas do insigne fabulador grego Ksopo, pnr Manoel Mendes, 
da Vidigueira, Évora i6o3, Cfr. Dicc. Bibt. de Innocencio da Silva, vi, 5g. — Esta 
obra nada lem lambem com O Livro de Esopo (nem com o Ysopete hcspanhol 
de 1489, reproduzido em cdd. posteriores, como se disse a p. 98 e 106), — Espero 
publicar ulieriormcnte, o que não faço agora aqui cm appendice, por falta de 
tempo, uma nota sobre o fabulario de Manoel Mendes. 



i6a 



FABULA RIO PORTCGUftS 



Apesar de o nosso Fabulario constituir, como acabo de dÍ7er, 
certa novidade na litteratura pomiijuesa dos ^ccc. \iv-xv, parece 
que foi pouco divulgado, pois náo me consta que haja atlusões a ellc 
em obnís portuguesa> contemporâneas ou posteriores, nem que 
exista outra cópiu manuscrita, senão n de Menna. 

Quanto a esta, a primeira menção, que eu saiba, é estrangeira, 
e do sec. xrx: encontra-se no Catalogo da respectiva Bíblioiheca, 
ou Tabulae coãicum mami scriptorum praeter Gratcos et drientates 
in Bibliotheca Palatina ViniJobonensi asserratorum, publicarão feita 
pela Academia Caesarea l'itidobotie»sÍs,yo\. ii,Víndobonnae (iMen- 
na>) i86S, p. 347. Essa menção c assim concebida: «3270 (Philol. 
•iin) eh. XV, 46, 4.° Aesopus, Fabulae in lin^uam Lusitunam vcr^^ae. 
Incip.: Seg:nmdo di\ o liuro . . Kipl.: empeeçem mavs qrie peçonha. 
Expticit liber E.vopr atm alegori/S"'. Foi por esle Catalogo que 
tomei conhecimento do manuscrito, quando, cm 1900, estive na Bi- 
bliotheea de Vienna. 

Em 20 de Março de 1902 dei noticia delle ao pijblico português, 
em sessão da segunda classe da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa: vid. o respectivo Boletim, i ( iyo3), 233. Depois d'isso tomei 
a referír-me a elle, em i(>o4, em um artigo inserido na líevista Pe- 
dagógica. 1 (n." 23, de 22 de Maioj, pp. SSS-Sgo. 

Até A publicação que faço agora, o manuscrito íazeu enterrado, 
e, por assim dizer, esquecido na rica Bibliotheca de\'ienna de Áus- 
tria. Apesar da indicação \á ministrada pelas Tabulae cm 1HG8, nin- 
guém, tanto quanto pude averiguar, o utili/ou ou compulsou: nem 
K. Woir, que era viennense, e foí funccionarlo tja própria Biblio- 
theca, e a quem tamanho carinho mereceu a nossa litteratura'; nem 
Reinhardstoettner, que ahi copiou ourro precioso monumento, a 
Demanda do santo graall-; nem O. Klob, que tirou nova copia 
do mesmo monumento*; nem Hci-vieux, que buscou por toda a 
parte, e )d mesmo, elementos para a sua obra^v nem finalmente 
Keidel, no seu recente artigo Notes on .V.sopic Fable IMerature 



I O exptieit consta de mais alj^mi cousa, camo se vÍq supra, p. 57. 
I Cír. os mtus hnsaiús Elhnographicos, ii, 297-3oa 

3 Começado n publicar em 18K7 ^Berliml; aíndn n!1o acabado. 

4 Vid Rev. Lusiiana,\t, 33? sqq. 

i Les/atulistes latins, qiic tanias vezes tenho diado. 



^ 



PABULARIO PORTUGUÊS 



i63 



in Spain and Portugal during the Middle AgesK Mas, como pon- 
dera o autor do Espelho de Casados, a.' ed., fl. viii-i', traduzindo 
um texto bíblico, também aproveitado n-0 Livro de Esopo, fab. xi-v ; 
nam ha cousa tam secreta, que se nam descubra. 

Ao concluir aqui o meu trabalho, não me despeço ainda delle, 
pois em occasião mais opportuna, que talvez não se demore muito, 
tenciono refundi-lo e publicá-lo de novo. 



I Na Zeiíschrifl /lir roman. PhÚologte, xxv (1901), 721-730, O que porém 
diz a respeito de Portugal é pouco mais de nada. 




. -.í. JJul^ 



índice 



Dedicatória i 

Advertência preuhinar 3 

Introducção 5 

O Livro de Esopo (texto) : 

Prologo do colleccíonador do Fabularío 8 

I. O gallo e a pedra preciosa 9 

II. O lobo e o cordeiro lo 

III. O rato, a rã e o minhoto lO 

IV. O cão que cita o carneiro em juizo ia 

V. O cão e a posta de carne 12 

VI. O leão que vae com outros animaes á caça i3 

VII. O casamento do ladrão e o do sol 14 

VIII. O lobo e a grua 14 

IX. A cadella que pediu a casa a outra i5 

X. O villáo que recolhe a serpente iG 

XI. O asno e o porco 16 

XII. O rato da cidade e o da aldeia 17 

XIII. A águia que arrebata o filho da raposa 18 

XIV, A águia e o cágado 19 

XV. O corvo e a raposa 19 

XVI. O leão velho, o asno, o touro e a porco 10 

XVII. O branchete, o seu senhor e o asno zi 

XVIII. O calvo e a mosca 21 

XIX. A raposa e a cegonha 22 

XX. O lobo e a cabeça de homem morto 23 

XXI. O corvo enfeitado com as pennas dos pavões 23 

XXII. O azemel, a mosca e a mula 24 

XXIII. A formiga e a mosca 24 

XXIV, O lobo que accusa a raposa perante o bogio iS 

XXV. A donezinha e o homem 36 

XXVI. A rã e o boi 27 

XWII, O leão e o pastor que lhe tira do pé uma espinha 27 

XXVIIl. O cavallo e o leão que se fingia medico 28 

XXIX. O asno e o cavallo loução i9 

XXX. Batalha entre as aves e as animalias 3o 

.XXXI. O gavião e o rouxinol 3i 



lOG FAlíUl-AKlO l'OklU<iUtS 



XXXII. o lobo, o bode o a raposa 3i 

XXXIir. O cervo e os saus galhos • 32 

XXX1\'. A viuva o o alcaide 33 

XXXV. A corlesã Tayda e o mancebo 34 

XXXVI. O campont:s e o tilho 35 

XXXVII. Avibory e a lima 35 

XXXVIII. Os lobos o as ovelhas 36 

XXXIX. o machado t o bosque 37 

XL. O lobo o o cão nédio 3j 

XIA. Os membros do corpo e o venirc 38 

XI. H. A boi;ia ijue pode si raposa um pedai;o da cauda 3(1 

XLIII. O villão que vae com o asno á leira 40 

XLIV. O cervo e os bois 41 

XLV. O judeu, o escudeiro e as perdizes 43 

XLVI, O leáo e o rato 43 

XLVII. O minhoto doente 44 

XLVIII. O lavrador <j a andorinha 45 

XLIX. Os Athentenses que elegem um rei 4? 

L. As rãs que pedem um senhor a Jove 46 

LI. As pombas, o (;avião e o minhoto 47 

LII. O ladrão c o cão 47 

LIII. A porca prenhe e o lobo 48 

LIV. A terra que pare um rato 49 

I.V. O cordeiro no pasto e o lobo 40 

I.VI, O senhor e o cão velho 5o 

LVII. As lebres e as rús 5o 

LVIII. A cabra, o filho e o lobo 5i 

l.IX. O vilão que acutílou a cobra. . 52 

LX. O cervo e o cabrão. 52 

LXI. O vaqueiro que combate por seu senhor 53 

LXII- O capão, o gavião e o seu senhor. 55 

LXIII. O pastor e o lobo 56 

Vocabulário 5q 

Considerações glottoi.ock:as: 
I. Grammatica: 

A) Phonetica io«>' 

Orthographia io3 

B) Morphologia 106 

C) Syntaxe no 

II. Estylo iiS 

Conclusão (data do texto) 130 

Annotaçõiís ás Fabulas lai 

EsTuiK) LiTTERARio (origum c hisioriji d-0 Livro de Esopo) 143 



A obra é acompanhada de \im fac-simile que reprusenta duas paginai do 
manuscrito (sec. xvl. Intercaladas no texto vSo duas gravuras, copia de dese- 
nhos (ú pennu) que estão no mesmo manuscrito. 



CORRIGENDA & ADDENDA 



Vi, ií; (Jevín mít he em vez Jfi he-. 
XII, i3: vonmiiiJe em v» Jc vomtaJe. 
X(II, 5-í : detsem em ver de i/«5# < m > . A nou H devia ser suhíliluídil 
por: 'dessem r«rerti>se ã aguiu e aoã filhos'. 

XVll, i5: devia estar vir|fula depois de cousas, e depois áaja^er. 
X7CI, 6 : virgula depoi:» de mall. 

XXII, I : devia ser emxeinplo, embora no ms. estivesse cx' (o mau 
usual c eiri"). 

S ■ corics.ínieiue ou arlesammente, cm ver de corltiMoettle. Ou, 
pelo menos, deve enienJer-sc autm. (Foi d Sr. Epíptuinío Dias qudiQ me ad> 
veniu dHstoJ. 

XXIV, ^ijnoféniv, embora no ins. esi«|a com e. 
XXIX, lo: ejr d'amãar em vez de e^-d'amdar. 
34: pofltu linul em vei de inierTOgaçSo. 
XXX, uy. prijgo em vez de prHgo. 

XXXIII, 6 : vierom em ve/ do virram. 

16 : proueytosas cm vce de proveitosos. 

XXXIV, 32-23 : devia tit.'ar entre aspas a frase que começa por porque « tei- 
mina por eor[açoin], pois é discurso directo, como se vc das palavras ora c a^ui; 
depois de dicto devia haver doi^-ponios. 

XXXV, ít: mamcebo em vec de mãeebo. 

ó: virgul» em vez de ponio-cfvtrDula. 
XXXVI, t3: ponio-c-vÍr|jula em vez de tluis-pontos. 

i5: ponto-e-vifgula em vez de simples virgula. 
XXXVII, 1 1 ; /ifri/o em vez de Jáje-Ho. 
XXXIX, i3 : depois ávjmijguo devia eitar ponto-e-vir^ula, e aio virgula. 
Xl^ I : atnoesiamenio em vez de aaweslramenlo. 
XLI, 3 ■ : pam cm vez dv pom, e pêra em vei de pura. 
XLII, 4: grande em vez de grando. 

Xl.lll, nota 5. Substiius-ie ludo por: alsto 6 : por eausa de Dtus: [Cot' 
rcci^o feita pelo Sr- Epiptiuiiu Dia»). 

XIJV, i5: depois de olhos deviam estar dois-pontos, e não virgula. 

3'j; tnah{mjdtnte qu malãdante, cm \eí de matadante. 
XLV, 17 e 18 : rríjr cm vez de rryr (eomquaoio seja rria nu l lyf. 

19 : Pooba-se virgula depois de mesa, 1; substilua-M: ioda a nota a 
por isto: porque «visto que-. 

38 ; scudeyro em ve» de 'scudfjrro. 
noin 6 da p. Mg.: preposição em vez de propotifão. 
Supprima-se » nota 3 correspondente à 1. 37, oa p. 43, porque iie»ie 
e noutros caso» que citarei no cap. da syntaxe </íf náu icm sujeito declarado. 



toK 



FABCLABIO I-OBTUGUÉS 



XLVl, 4 : ssua em ve* de ssa. 
Xl.Vn, i6:/ejertnos em \ez ác ft^ermes. 
XLVIII, lu; ponh«-se virgula scguidamenu- a depois. 
XI -LX, i: Supprima-se \cm\. 

3 : liurarom em vci de Uuraram. 
L, 3 : rrogitrom-»o em vex de rrogarom no. 
17: devia ser enisina em vez de tmsiua. 
18 : o ée»i em vc/ Jc c ^em. 
LII, 18: em vez de [ti/i'iJo Icm-sc /[redijo, porque u photO)jriipUia 
deixu \ÍTy emboru com citsio, um p, c parece i^ue um a: alem d'tsso o e&puço 
coovcm mais á s^undu corrccçiío que li primeira. Cfr. lambem no Leal Con- 
stíhciro, p. 19a (ed. de Paris); ptcadu de gwxrgautoyee. Que pecado icm só um 
e, mos:ra-o a fabula XLVII, i5. 

LIII, 10: Md» cm vez de taets. 
LVII, ia : anwfsta em vez de amoeslra. 

16 : lalvez seja prijguo, e não priguo, porque o ms. icm neste si* 
tio umx dobra. 

LIX, 3 : cocbra era *cz de cobra. 

LX, lo: Na palavra cabroin ha. um borrão depoã do r (L é. cahr»tn\, 
de modo que a palavra pôde ler-se cibrnm, como íictma três %c/cs), ou catroui 
(como em XXXII, 17I. O espaço parece fnzer admittir autes cabrom. 
LXI, 55 : escarnecia em vez de essame^-ia. 

63: a nota 4 deve her redi((ídti js^im: -Vid. lupra, fab. LXI, 1. 40, 
nota 4. 

LXI), 14: a noia 1 de\'e ^er &upprjmida, poi& irato dVstc ca»o nn secçSo 
da gramnutíca. 



NOVA ANNOTA<;ÃO A FABULA III 

Oomu vimos, a Tubula m ettá acompanhada de uma H^ura uUegoricii: um 
rato junto de agoB; dentro d*csin uma rã em accáo de fallar com o rato; c no 
ar um minlioio ou milhafre que solu do bico a frase: jyx^ vioviovio. 

Oro, curioso é notar que na Comedia AuJegrafa de Jorge Ferreira i)c Vus- 
coiicellos (sec. xvi) se lí o seguinte passo : «Muyto pareceys vós agora bilhafrão 
■Cs^ialgado, que fez presa cm grande irilhoada ■ de negiilhus de tripas, e escapou- 
■Ihe das unhas, de confiado, c faz surto' no ar com no. vío«'. 

Temos poiís indicada no hilhalrão^ voz semelhante i que nii fiihula se aitri- 
bue ao minhota 



' HH' t -gni|iJc4UJiiilidiiJ«', poi» irilhonJj me [vir tiatkrjoJii. 

*0 lc«Ii> Xetafurtu, ^iic d««c tmeiídar-u caata (iK^a, porque lu tjp^gtupliu ein ^ue «t InprimiUi 
II atori ccmfitnd)i)-«co/dt/Mrj» (o* inicial vmf dial «ntttirvprtMritaduawImí com/ A palavra Hmhyll 
quer dÍMT ■ vAo c Icvh do ■ ■ 

■ Li*boa ibiQ. n. 177^- 

• ~bMij/'r-dv, aupnnitativvílcArVlkt/VrOiHt/Aq/rf-, kynoiíimo d« m/nMjhf. 



WM,' 






... W 






' w._. 






« A • -4. • ^ ♦ 



«^^^é'^*^ 

!-:#':##:# 



• Ai 












^ 



á. 



é' 



^^^^ -t ^-^ 1'^ i"$ !> f f 4 -^ -I 

1- f !> f è f # f*!' f 1- f #^ ^ 
., «^ # ^ ^ ^.^ ^^^'»^'f'^^' 



»Jt •^♦^•A*-A.»-«. «^•^*A*,-ft.*j!L»-è.*^* 



'11 






^*^*^*^ T"^-?°?"^l?'^_'! ^'*-'- B^ CHARGEO h 



»VA. • 



The borrower musl retum this i(em on or before 
VA * A^*^ the last daie stamped below. If anothcr user 



P¥l^í^^ placcs a recaU for this item, the borrower will ^ ^ ^ ^ ^ W ^ 
^.^.*.'^ "'^ /«.m,»v.ry>.m overdue fines. 7^^K'MK*^^1 






Harvard College Widener Library 
Caoibrklge, MA 02138 617-495-2413 



» * « 



V A r A V A » 






fM'àWM 



Wkwmâ 



Please handle with care. 

Thank you for hclping lo preserve 
library colleclions at Harvard. 



WMMíè 



f.^»»:^ií'^ 



7 aV^C* ,*. *.^*A*f^\ 



í=. «» «^ <a? <3? ^ ^? -g? w w w -^■^'"^'^if.f iCCf^ 



ír!^*^*^*A.'fW3i 



vè"^'è'.^:è:^:#:#'â'á'